Revolução dos guarda-chuvas marca ano de protestos em Hong Kong

  • Por Agencia EFE
  • 18/12/2014 17h30

Isabel Fueyo.

Hong Kong, 18 dez (EFE).- Hong Kong viveu neste ano os maiores protestos democráticos realizados no território da China, que deram a volta ao mundo por meio da chamada revolução dos guarda-chuvas, um movimento pacífico sem precedentes e no qual centenas de milhares de cidadãos se uniram para pedir mais liberdade.

O ano de 2014 começou com pleno conhecimento de que seria um período no qual Hong Kong enfrentaria seu maior teste democrático: uma reforma eleitoral para implantar o voto universal pela primeira vez no território.

No final do mês de junho, mais de 800 mil cidadãos deram mostra desse desejo de participar de um plebiscito informal sobre o voto universal para as eleições de 2017.

Uma demonstração democrática que voltou a se repetir na popular manifestação do dia 1º de julho, que lembra a transferência da soberania de Hong Kong para a China, quando centenas de milhares de pessoas, meio milhão segundo os organizadores, saíram às ruas pedindo mais liberdades para o território.

No dia 31 de agosto chegou a polêmica decisão de Pequim que estabelecia que o próximo chefe do governo local seria escolhido em 2017 por voto universal, mas só entre dois ou três candidatos selecionados por um comitê de 1.200 membros controlado pelo Executivo chinês.

Esta condição foi bem recebida pelo governo local, mas gerou descontentamento social, primeiro dos estudantes, que um mês depois iniciaram uma greve nas salas de aula que desembocou, dias mais tarde, no movimento de desobediência civil Occupy Central.

Em 28 de setembro, a polícia usou material antidistúrbios para dispersar as pessoas reunidas na frente da sede do governo local, que se defenderam do gás pimenta com guarda-chuvas, criando um ícone do movimento que passou a se chamar revolução dos guarda-chuvas.

Os manifestantes se instalaram em três regiões de um e outro lado do porto Victoria, centralizando sua atividade desde Admiralty, onde montaram suas barracas, até perto dos maiores bancos mundiais e das portas do parlamento de Hong Kong.

Nos primeiros dias de ocupação, as organizações Occupy Central, Scholarism (dirigida então por um jovem que não tinha chegado à maioridade, Joshua Wong) e Federação de Estudantes lideraram o movimento, que atraiu diariamente milhares de pessoas e que chegou a dar um ultimato ao chefe de governo, Leung Chun-ying, para que renunciasse – ou atacariam os prédios oficiais.

Leung levou a sério a advertência e concordou que o governo se sentasse para negociar com os jovens, em um encontro que aconteceu no dia 21 de outubro e que terminou sem nenhum tipo de aproximação.

Apesar de o movimento ter defendido inicialmente o princípio da não violência, à medida que os dias passavam as brigas entre a polícia e os opositores à ocupação foram aumentando e, ao longo dos 79 dias de ocupação, as autoridades realizaram cerca de mil detenções.

As tentativas dos dirigentes de retomar as conversas com o governo local e o da China foram em vão, o movimento começou a perder o apoio de uma população cada vez mais cansada e os líderes dos protestos foram se distanciando em suas estratégias.

Greves de fome e o frustrado plano de cercar os prédios do governo para pressioná-lo, que optou por tomar um protagonismo passivo nas revoltas, foram os últimos atos do movimento para tentar sobreviver nas ruas.

Mas não foram o governo, nem a falta de apoio social, nem as divergências entre os ativistas ou o cansaço as causas do início do fim dos protestos, mas várias empresas de transporte público que, no final de novembro e a ponto de se completar dois meses de revoltas, conseguiram ordens judiciais para o despejo dos manifestantes.

O fato foi aproveitado para iniciar operações policiais sem precedentes para fechar as áreas de protesto.

Em 20 dias, mais de 7.000 agentes varreram os três acampamentos dos protestos, de modo que em 15 de dezembro, 79 dias depois de se ter iniciado a maior campanha de desobediência civil em Hong Kong, a polícia “fechava o último guarda-chuva do movimento” e punha fim à ocupação das ruas.

Enquanto os manifestantes não conseguiram arrancar concessões de seu governo nem da China em suas reivindicações de eleições abertas para 2017, estudantes, políticos e analistas concordam que, depois destes protestos, a cidade não será mais a mesma. EFE