Rússia aceita eleições na Ucrânia, mas não revela se reconhecerá vencedor

  • Por Agencia EFE
  • 22/05/2014 18h15

Virgínia Hebrero.

Moscou, 22 mai (EFE).- Em rota de colisão com o Ocidente por sua posição na crise na Ucrânia, a Rússia aceitou de má vontade as eleições presidenciais convocadas para o próximo dia 25 no país vizinho, mas não revelou se vai reconhecer o vencedor como legítimo presidente.

A mudança de rumo ocorreu no dia 7, quando o presidente russo, Vladimir Putin, de forma inesperada, declarou que o pleito presidencial ucraniano, o primeiro desde a chegada ao poder da antiga oposição europeísta em fevereiro, é “um passo em boa direção”.

Naquele dia, a menos de três semanas das eleições, Putin também se distanciou dos referendos separatistas organizados nas regiões pró-russas de Donetsk e Lugansk, e que tiveram uma arrasadora maioria a favor da independência da Ucrânia.

O sinal verde do chefe do Kremlin ao pleito ucraniano surpreendeu os observadores internacionais, pois ele assim contradisse seu próprio ministro das Relações Exteriores, Sergei Lavrov, que um dia antes ainda denunciava aos chanceleres europeus que a eleição aconteceria no meio da ofensiva militar de Kiev nas regiões do sudeste pró-russo.

Desde a queda do regime de Viktor Yanukovich em Kiev no dia 22 de fevereiro, após três meses de protestos populares e a morte de uma centena de pessoas, Moscou nunca reconheceu a legitimidade de um governo que classifica como uma “junta”.

A Rússia também não reconhecia, portanto, a convocação de eleições e exigia, por outro lado, a realização de um referendo nacional sobre uma mudança constitucional que desse maior poder às regiões, com um sistema federalista.

Moscou não citou o boicote ao pleito de domingo por parte dos dirigentes pró-russos do sudeste da Ucrânia, nem confirmou se reconheceria uma votação que até mesmo Kiev dúvida poder garantir nas regiões rebeldes, que contam com mais de seis milhões de habitantes.

A mudança de Putin aconteceu depois de ele se reunir em Moscou com o chefe da Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa (OSCE), Didier Burkhalter, que estabeleceu com o presidente russo um “roteiro” para resolver a crise ucraniana que Moscou defende desde então. Trata-se de “criar as condições necessárias” para um diálogo entre o governo de Kiev e os insurgentes pró-russos, que dê às regiões rebeldes uma maior autonomia. Para isso, Moscou exige o fim da operação militar ucraniana e o desarmamento de todos os grupos armados.

Putin deixou claro que as eleições de 25 de maio não decidirão nada “se todos os cidadãos da Ucrânia não entenderem como serão garantidos seus direitos após sua realização”, em clara alusão à reforma constitucional que a Rússia reivindica.

“Entendo o povo no sudeste da Ucrânia que se pergunta por que em Kiev se deixou fazer o que fizeram: montar um golpe de Estado, se armar e atacar os edifícios administrativos, a polícia e as unidades militares, porque foi permitido a Kiev fazer tudo, enquanto eles não podem defender seus interesses e seus direitos legítimos”, comentou o líder russo.

Como parte da nova estratégia e da posição de prudência assumida, a Rússia expressou seu respeito, mas se absteve de reconhecer os resultados dos referendos independentistas realizados em 11 de maio nas regiões insurgentes pró-rusas da Ucrânia.

Além de insistir em sua exigência a Kiev de cessar uma ofensiva que classifica como uma “operação de castigo” contra os pró-Rússia, Putin ordenou nesta semana a volta das tropas russas enviadas à fronteira ucraniana a seus quartéis de origem.

Essas forças, estimadas em 40.000 soldados pela Otan, realizavam, segundo Moscou, exercícios militares nas regiões de Rostov, Belgorod e Briansk, todas na fronteira com o país vizinho. Parece ser um claro passo do Kremlin para diminuir a tensão às vésperas das eleições no país vizinho, já que os Estados Unidos e a União Europeia consideravam que essa presença militar constituía uma ameaça para a Ucrânia. EFE