Seis deputados da Assembleia de São Paulo são citados em delações da Odebrecht

  • Por Estadão Conteúdo
  • 16/04/2017 16h55
Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo - ALESP

Seis deputados da Assembleia Legislativa de São Paulo são citados em delações de executivos da Odebrecht; contra cinco deles, há menções de caixa dois. Fernando Capez (PSDB), Barros Munhoz (PSDB), Roberto Massafera (PSDB), João Paulo Rillo (PT), Luiz Fernando Teixeira Ferreira (PT) e Campos Machado (PTB) serão investigados pela Procuradoria da República em São Paulo. A soma das doações aos deputados estaduais apontadas pelos delatores chega a R$ 1 milhão.

Na lista, há dois ex-presidentes da Assembleia Legislativa. Fernando Capez (PSDB) é acusado de ter recebido, por meio de uma ONG de tratamento da Hepatite C, R$ 100 mil reais de caixa dois. O executivo da Odebrecht Carlos Armando Paschoal diz ter sido procurado, nas proximidades das eleições de 2010, pelo então presidente da ‘C Tem Que Saber C Tem que Curar’, Luiz Carlos Francisco Martucci, que hoje é funcionário de gabinete do tucano na Assembleia. “Durante as eleições eu entendia que ele era quem ajudava o candidato”.

De acordo com o executivo da empreiteira, a quantia de R$ 100 mil foi paga em três parcelas ‘em espécie’ e foi operacionalizada com ‘o próprio Martucci’.

Outro ex-presidente da Assembleia Legislativa alvo de petição da Procuradoria Geral da República é o deputado estadual Barros Munhoz, que, segundo delatores da Odebrecht, recebeu R$ 50 mil reais por meio de caixa dois. “Apenas recebi por parte do conselheiro Aloisio Araújo, um contato que era o arrecadador do Barros Munhoz”

Segundo o delator, os valores para a campanha do deputado tucano foram operacionalizados pelo arrecadador, não identificado no depoimento, e pelo funcionário do departamento de propinas da Odebrecht, Luiz Eduardo Soares. Munhoz recebeu o codinome de ‘Cruzeiro do Sul’ em planilhas referentes a repasses da empreiteira. “Caixa dois… programava com Luiz Soares as duas entregas, combinava com a pessoa como entregar e foi o que fizemos”, afirma Carlos Armando Paschoal.

Luiz Fernando. Foto: TSE

Luiz Fernando. Foto: TSE

O primeiro Secretário da Casa, Luiz Fernando Teixeira (PT) – irmão do deputado federal Paulo Teixeira (PT-SP) -, é o único deputado delatado por executivos da Odebrecht cuja investigação está sob sigilo. Segundo petição encaminhada pelo Procurador Geral da República, os diretores da construtora Benedito Júnior, Alexandrino Salles de Alencar e Luiz Antonio Bueno Junior confirmaram repasses, por meio de caixa dois, de R$ 300 mil à campanha do deputado, em 2014. A pedido da PGR, o ministro relator da Operação Lava Jato no Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, manteve sigilo sobre o caso até 03 de maio.

Na planilha de repasses entregue pelo delator Benedito Júnior, anexada ao pedido da PGR para investigar Fernando Capez, o nome ‘Luis Fernando Teixeira’ é citado como ‘candidato a deputado estadual’ no ano de 2014. De acordo com o TSE, não há ‘Luis Fernando’ – com ‘s’ no primeiro nome – candidato ao cargo naquele ano. Segundo a planilha, o deputado teria o apelido de ‘Lamborguiny’. No documento, há uma coluna intitulada como ‘propósito’, onde consta, ao lado do codinome, ‘disposição para apresentar/ defender projetos no interesse da companhia’.

Em 2015, o Estado apurou que, em buscas feitas na casa do doleiro Alberto Yousseff, investigadores encontraram cópia de documento de alteração societária de uma empresa especializada em consultorias para prefeituras, o Instituto Tebar, que pertence a Teixeira. À época, o deputado estadual chamou de ‘aberração’ a presença do documento na casa do primeiro delator da Lava Jato e disse ‘não ter noção’ de quem seja Yousseff.

‘Boiadeiro’ na lista de repasses da Odebrecht a políticos, João Paulo Rillo (PT) recebeu doações de R$ 500 mil da construtora, em 2012, quando era candidato a prefeito de São José do Rio Preto, como foi relatado pelo ex-diretor regional de São Paulo, Guilherme Pamplona Paschoal. O delator contou que havia sido escalado pelo executivo Fernando Reis, então presidente da Odebrecht Ambiental, para identificar ‘os potenciais candidatos de municípios’ onde a empreiteira já possuía concessão e cidades onde ‘houvesse o interesse da companhia para que houvesse algum tipo de processo de participação privada no serviço de água e esgoto’.

Guilherme Pamplona Paschoal, da Odebrecht, lembrou de que o parlamentar ‘se mostrou interessado’ em apoiar um projeto de privatização do serviço de água e esgoto da cidade proposto pela construtora, inicialmente, em seu gabinete na Assembleia Legislativa.

Em troca, a Odebrecht realizou a doação de R$ 500 mil ao diretório nacional do PT, que seria repassada ao então candidato e deputado estadual por São Paulo, de acordo com o depoimento. O pagamento teria sido confirmado em jantar, em um dos restaurantes mais caros da capital paulista.

“A gente se encontrou no Rubayat. Eu lembro que foi durante a semana, à noite, foi um jantar, onde confirmei a ele a intenção de contribuição e que seria feita uma contribuição oficial no diretório do PT. Eu sabia que seria feita no diretório nacional e que ele teria que procurar as pessoas que cuidavam deste tema dentro do partido”, relatou o diretor superintendente da Odebrecht.

Em acordo de colaboração com a força-tarefa da Operação Lava Jato, o executivo Guilherme Pamplona Paschoal ainda mencionou duas dezenas de políticos que receberam caixa dois da empreiteira. Na lista, aparece o nome do deputado estadual Campos Machado (PTB) como receptor de R$ 50 mil. Em planilhas de repasses da empreiteira, ele aparece como ‘Itabuna’. Na coluna com o aparente propósito do repasse, há um apontamento sobre o parlamentar: ‘Disposição para defender projetos de interesse da Cia’.

Roberto Massafera Foto: Alesp

Roberto Massafera Foto: Alesp

O deputado estadual Roberto Massafera (PSDB) foi apelidado como ‘Ribeirão Preto’ pela construtora e recebeu caixa dois de R$ 30 mil, em 2010, segundo o executivo Carlos Armando Paschoal. O delator ainda revelou ter mantido contato com o tucano, após as eleições, e que recebeu ‘ajuda’ do deputado em ‘várias situações’ envolvendo a empresa Foz do Brasil – que prestava serviços na área de saneamento antes da fundação da Odebrecht Ambiental. “E a foz do Brasil precisava ampliar o negócio. E ampliar saneamento em São Paulo é complicado, porque a Sabesp controla mais ou menos metade dos municípios, então a Foz ficava limitada no crescimento”.

“Ocorreu a ideia que o Roberto, como eu, de interior, conhecer prefeitos que ele pudesse me apresentar ou apresentar a Odebrecht como empresa para ampliar o tipo de serviço. Eu o procurei, ele me sugeriu que identificasse no interior os municípios que estavam com deficiência de água e esgoto. Porque não adiantava entrar para privatizar em um lugar que tinha bom serviço de autarquia. Ele dava exemplo da própria Araraquara que tinha há cem anos água ‘fluorada’. Identificamos Bauru. Ele até fez apresentação minha para o prefeito de lá. Não presencial, mas ‘olha, vai te procurar uma pessoa da Odebrecht’”, relatou o Paschoal.

COM A PALAVRA, FERNANDO CAPEZ

O deputado Fernando Capez não tem e nunca teve qualquer relação com a empresa citada.

Confirma que, em 2010, recebeu doação legal da empresa para a sua campanha, a qual foi recebida por meio de transferência eletrônica de forma transparente e devidamente informada à Justiça Eleitoral.
O deputado não teve contato com nenhum diretor ou funcionário da Odebrecht, nem teve qualquer atuação em favor da empresa. Não existe nenhum outro valor oriundo dessa empresa que tenha entrado na campanha eleitoral do deputado.

O deputado Fernando Capez enviou nova nota na manhã deste sábado, 15.
“Em que pese nosso respeito a essa importante coluna, o título da matéria acima não está em perfeita consonância com o depoimento do delator. O delator disse que jamais teve contato com o deputado Fernando Capez e que este jamais lhe pediu algo. Disse também que nunca falou sobre campanha eleitoral com o parlamentar. Disse ainda, que a Ong realizou campanhas junto a empresa no enfrentamento à hepatite c com campanhas de detecção precoce ajudando muita gente a se tratar do vírus da hepatite C e faz um trabalho maravilhoso fácil de ser constatado. Disse que apoia o trabalho também porque seu pai teve hepatite C. Em momento algum, disse que repassou recursos para a campanha por meio da ONG, nem poderia, porque isso nunca aconteceu. Afirmou que, em 2010, o representante da ONG, como pessoa física, com o consentimento do deputado , lhe pediu uma doação eleitoral para a campanha do deputado.

Essa doação efetivamente ocorreu, foi feita por meio de transferência eletrônica, oficialmente, foi declarada à Justiça Eleitoral, no valor de 40 mil reais. O deputado desconhece qualquer entrega de quantia em dinheiro para o representante da ONG à época.”

COM A PALAVRA, JOÃO PAULO RILLO

Ratifico meu posicionamento, de 23 de março de 2016, quando foi divulgada planilha do Grupo Odebrecht na qual meu nome aparecia como destinatário de recurso da empreiteira na campanha para prefeito, em 2012.

Nego veementemente ter recebido doações do Grupo Odebrecht e confio nas investigações para esclarecerem falsas acusações sobre uma prática que venho publicamente repudiando ao longo da minha vida política.

Sou o principal interessado em buscar a verdade sobre a origem e motivação da inclusão de meu nome como destinatário de uma doação, que jamais foi recebida por mim legalmente ou por caixa 2.

Em 2012, os recursos para custear as despesas de campanha foram provenientes de doações partidárias e de pessoas físicas e jurídicas, identificadas publicamente, com valores e origem disponíveis para consultas junto à Justiça Eleitoral, que aprovou minhas contas.

Jamais defendi interesses privados e muito menos do Grupo Odebrecht, não respondo a nenhum processo e minha trajetória política tem sido marcada pelo combate à corrupção.

COM A PALAVRA, BARROS MUNHOZ

Em meus 40 anos de vida pública, administrei o Escritório da Petrobrás em São Paulo, a Secretaria da Agricultura e Abastecimento do Estado, o Ministério da Agricultura, Abastecimento e Reforma Agrária do Brasil e a Assembleia Legislativa de São Paulo em dois mandatos.
Foram oito anos administrando esses órgãos da máxima importância e gerindo recursos que somam, em valores atuais, mais de 60 bilhões de reais.
Nunca sofri acusação pela prática de qualquer deslize no exercício de todas essas nobres e espinhosas funções.
Todas as minhas contas foram analisadas e aprovadas pelos órgãos competentes de fiscalização no Estado e na União.
Disputei nove eleições: uma para governador, três para prefeito e cinco para deputado estadual e sempre exigi que minhas campanhas fossem feitas dentro da lei. Nunca também fui acusado de qualquer irregularidade.
Todas as minhas contas dessas NOVE eleições foram integralmente aprovadas pelos Tribunais competentes.

COM A PALAVRA, CAMPOS MACHADO

A assessoria de imprensa informa que o ‘deputado Campos Machado diz estranhar que o nome dele figure na lista, pois não têm nenhuma relação com quem quer que seja, ligado à Odbrecht’.

COM A PALAVRA, ROBERTO MASSAFERA

“Em nenhum momento, nos mais de 30 anos de vida pública, solicitei recursos ilegais para financiar as campanhas eleitorais das quais participei. Todas foram legítimas, contabilizadas na forma da lei e aprovadas pela Justiça Eleitoral. Jamais, em tempo algum, autorizei que recursos não declarados fossem solicitados em meu nome”

COM A PALAVRA, LUIZ FERNANDO TEIXEIRA FERREIRA

Recebi com surpresa e indignação a informação que cita o meu nome em supostas delações da Odebrecht.

Como ainda não tive acesso ao conteúdo, registro que todas as doações da minha campanha foram legais, ocorrendo de acordo com a legislação eleitoral. Além disso, elas foram declaradas aos órgãos competentes e aprovadas, respectivamente, pelo Tribunal Regional Eleitoral.

Conforme declarado em minhas prestações de contas, recebi da empresa mencionada na reportagem dois valores, 25 mil e 50 mil, totalizando 75 mil e, absolutamente nenhum centavo em caixa dois, como alegado.

Tudo que gastamos em nossa campanha foi contabilizado e prestado contas.

Sempre pautei minha atuação política de forma idônea, com ética, transparência e lutando, sobretudo, contra a corrupção. Na época, se tivesse conhecimento dos escândalos que envolvem a referida organização, teria declinado da oferta, ainda que a mesma tenha sido feita de forma legal.

Estou buscando acesso as informações que referem-se a minha pessoa, com a tranquilidade de que tudo será devidamente  esclarecido.

Ainda que vivamos uma era em que manchetes valem mais do que provas, aproveito a ocasião e reitero minha fé na justiça e na verdade.