Serra: Brexit “não fará bem” para negociações entre Brasil e UE, mas “abre nova oportunidade”

  • Por Jovem Pan
  • 24/06/2016 15h07
BAS20. BUENOS AIRES (ARGENTINA), 23/05/2016.- El nuevo canciller de Brasil, José Serra, habla durante una rueda de prensa hoy, 23 de mayo de 2016, en Buenos Aires. Los ministros de Relaciones Exteriores de Argentina y Brasil, Susana Malcorra y José Serra, respectivamente, iniciaron hoy un encuentro en Buenos Aires tras el cual rubricaron un memorándum de entendimiento para la coordinación de políticas entre ambos países. EFE/David FernándezMinistro das Relações Exteriores José Serra - PSDB - EFE

O ministro das Relações Exteriores José Serra afirmou nesta sexta (24) que a saída do Reino Unido da União Europeia (o Brexit), aprovada em plebiscito, não impedirá as negociações do Brasil com o bloco europeu. “Nós estamos em negociação com a União Europeia, que é um número imenso de países. Evidentemente, saindo a Inglaterra, nós continuaremos (a negociar). Inclusive já tem uma reunião no Brasil”, disse Serra em entrevista exclusiva à Jovem Pan.

Agora, “do ponto de vista de facilitar o comércio”, o ministro vê um aspecto positivo e um negativo com o ato. “A Inglaterra era um país mais aberto, mais liberal dentro da União Europeia. Nesse sentido, a saída dela não fará bem para nossas negociações com o conjunto (da UE)”, disse. “Por outro lado, a Inglaterra saindo e negociando mais como uma unidade própria, nós vamos desenvolver acordos com eles sim, porque eles são bem abertos para o livre comércio e isso vai abrir uma nova oportunidade”, destacou Serra.

Serra enfatizou o protecionismo dos países europeus. “Do ponto de vista de facilitar o comércio, os países europeus, ao contrário do que se imagina, são muito protecionistas no que se refere a alimentos, por exemplo. Nós não podemos exportar livremente carne bovina, açúcar, tem muitas barreiras. O Brasil tem fama de protecionista, mas eles são mais em muitos aspectos”, avaliou.

Serra ressaltou que “preferia que essa ruptura não tivesse acontecido (a saída do Reino Unido)”, mas ressalta: “ela acontecendo, nós temos que ver a melhor maneira de seguir os interesses do Brasil”.

Questionado sobre o impacto da decisão dos britânicos na economia global, Serra relativizou: “a curto prazo vai haver esses desequilíbrios, mas acredito que a médio prazo não, também não é o fim do mundo. É uma coisa que deve ser mais passageira”.

O ministro também não vê problemas para os brasileiros que desejam ir para o Reino Unido. “A migração que vai ser afetada é principalmente a migração dentro da Europa”.

Mercosul e Aliança do Pacífico

“O Mercosul está indo bem como está”, disse Serra. O problema atual, em sua visão, é a queda da economia brasileira, que faz cair a demanda no mercado interno e afeta a indústria automobilística. Mas ele atribui: “não são dificuldades da associação Mercosul. São dificuldades macroeconômicas que acontecem no mundo, com todas as economias. Não precisava ter ocorrido o que ocorreu aqui, mas ocorreu, devido ao descaminho da política econômica nos últimos anos”, acusou.

O ministro do Itamaraty disse também que o “Mercosul não atrapalha” as negociações do Brasil com a Aliança do Pacífico. “Todos os países do Mercosul também estão negociando. Não há nenhuma dificuldade em negociação conjunta”, afirmou.

Ele defendeu, entretanto, uma flexibilização de uma cláusula do Mercado Comum. A obrigação de todos os países do Mercosul terem a mesma política comercial com outros países “dificultou a capacidade do Brasil de fazer acordos bilaterais mundo afora”, reconheceu Serra.

“Estamos medindo quantitativamente qual seria a situação mais vantajosa para o Brasil e os outros. Mas não há ideia de simplesmente quebrar essa união alfandegária. A ideia é de flexibilizar, no sentido de permitir, se a gente por exemplo vai negociar com outro país, que comece negociando mesmo que seja sozinho, mas depois que possa levar os outros também”, defendeu.

Venezuela

“A Venezuela é uma situação que nos deixa desconfortável, porque é um País amigo e não tem democracia. Quando há prisões políticas, a democracia não está funcionando”, classificou o ministro.

Ele citou as dificuldades do país vizinho e listou jornada de trabalho reduzida, dificuldade do deslocamento, saques, falta de remédios e “muita instabilidade social”. 

“O que nós defendemos é que a Venezuela encontre por si uma saída. Você não tem condição de chegar de fora e obrigar, só se você interviesse com força militar, o que está completamente fora de cogitação, seria um absurdo. Então nós temos que desejar e ajudar a que se chegue a um entendimento para uma transição, a um regime democrático e para ordenar e organizar a economia”, disse lembrando o oferecimento da doação de medicamentos básicos por meio da Caritas, agência de solidariedade da Igreja Católica.