Socialistas portugueses se dividem a um ano das eleições legislativas

  • Por Agencia EFE
  • 28/05/2014 17h37

Antonio Torres del Cerro.

Lisboa, 28 mai (EFE). – A vitória apertada nas eleições europeias do domingo passado abriu uma divisão sem precedentes nos últimos anos no Partido Socialista (PS), o principal da oposição em Portugal, a apenas um ano das eleições legislativas.

Os poucos quatro pontos de vantagem obtidos sobre os partidos conservadores que apoiam o governo geraram lutas internas pelo controle do PS que culminaram com o desafio lançado pelo popular prefeito de Lisboa, António Costa, ao atual secretário-geral da formação, António José Seguro.

“Se o secretário-geral não convoca um congresso, apresentarei essa proposta”, declarou Costa, de 52 anos, após se reunir hoje com Seguro, também de 52, durante pouco mais de uma hora na sede do partido no Largo do Rato.

A candidatura não oficial do popular governante da capital portuguesa, que também foi ministro do Interior entre 2005 e 2007, criou um revoo geral em um dos mais tradicionais partidos lusos, que se alternou no poder com o centro-direitista PSD nas quatro últimas décadas.

“Há uma questão política que se resolve politicamente e em um partido democrático se resolve de uma forma simples”, acrescentou Costa, que assim deixou em aberto a luta pelo poder no partido, muito agitado desde ontem.

Desde o anúncio de Costa até hoje, as reações dos socialistas oscilaram entre vozes favoráveis a uma mudança – atribuem a Seguro falta de empatia com os eleitores – e outras contrárias a mudar o governo do PS a apenas um ano das legislativas, cujo principal rival é o governamental PSD.

“A legitimidade democrática do atual secretário-geral é absoluta (…) Quem quiser disputar eleições deverá criar as condições necessárias para fazê-lo de acordo com os estatutos”, expressou o líder da bancada socialista no parlamento, Alberto Martins.

Na mesma linha se pronunciou o cabeça de chapa para as eleições europeias, Francisco Assis, que perdeu em julho de 2011 o combate pela direção do partido contra Seguro, sucessor do carismático ex-primeiro-ministro José Sócrates (2005-2011).

“A questão da liderança não pode nem deve ser colocada nas presentes circunstâncias. Quero que fique claro que, se a questão do secretário-geral tiver que ser votada, apoiarei o atual, António José Seguro”, reforçou Assis.

Os críticos de Seguro, no entanto, o acusam de não ter sabido capitalizar o enorme descontentamento dos portugueses pelas medidas de austeridade aplicadas pelo Executivo liderado pelo PSD e coligado com o CDS-PP a pedido do programa do resgate de credores internacionais.

Os socialistas devem “retomar a relação de confiança” com os portugueses para “alongar” sua base eleitoral, tanto os eleitores de esquerda quanto os da direita, ponderou Jorge Lacão, veterano socialista que apresentou hoje sua renúncia como membro do Secretariado Nacional do PS.

Os 31,5% de apoios eleitorais (oito eurodeputados), contra os 27,7% dos governamentais PSD e os democratas-cristãos do CDS-PP (sete), foram considerados insuficientes pelos líderes do PS.

“A vitória não deveria ter sido aclamada com o entusiasmo com o qual fez seu líder”, afirmou o ex-presidente Mário Soares, de 89 anos.

Houve outras opiniões matizadas, como a do fundador Manuel Alegre (ex-candidato presidencial), e a de Eduardo Ferro Rodrigues, secretário-geral dos socialistas entre 2002 e 2004.

Rodrigues pediu a Seguro para convocar eleições diretas e um congresso extraordinário para trabalhar o pleito legislativo previsto para 2015 “sob uma liderança indiscutível” apoiado tanto pelos militantes quanto pela sociedade.

No próximo sábado, na cidade de Torres Vedras, será realizado um congresso para avaliar os resultados eleitorais do domingo nos quais os socialistas melhoraram apenas três pontos com relação às legislativas de 2011 (28%), consideradas um dos maiores desastres do PS.

No pleito do domingo se destacou também a elevada abstenção, que bateu um novo recorde (66,1%), assim como a ascensão do António Marinho e Pinto em sua primeira experiência à frente de um partido (7% dos votos e dois eurodeputados). EFE