Talibãs: da perseguição a celulares a discussões no Facebook

  • Por Agencia EFE
  • 21/08/2015 08h18

Baber Khan Sahel.

Cabul, 21 ago (EFE).- O recente anúncio da morte do mulá Omar abriu uma nova etapa para os talibãs, que passaram de um grupo que perseguia quem tinha televisão e celular para confirmar através do Twitter a autoria de seus atentados e lançar sua disputa interna no Facebook.

Defensores da tradição e da bucólica vida nas montanhas, os talibãs começam a se sentir mais confortáveis no mundo ocidental moderno e nos meios de comunicação que antes rechaçavam.

O movimento radical, que ficou famoso por suas exigências extremas de viver em conformidade com a lei islâmica e uma visão misógina da realidade, agora se apresenta como grupo que reflete, que defende a inclusão da mulher e que já não teme a ciência.

Sob seu regime, entre 1996 e 2001, a televisão, as fitas de vídeo e até as fotografias eram totalmente proibidas, mas agora os talibãs têm um departamento de propaganda que publica imagens e vídeos de seus membros no campo de batalha e páginas na internet através das quais destaca sua luta e divulga suas mensagens ao público.

“Pedimos a todos os nossos mujahideen, ulemás e homens piedosos no campo que ajudem na publicação do Emirado Islâmico (como eles se autodenominam)”, indicaram os talibãs na semana passada em um e-mail assinado por Zabihullah Mujahid e Qari Yousuf Ahmadi, os porta-vozes oficiais do grupo.

O setor de imprensa do movimento fundamentalista usa e-mails, tem página na internet e contas no Twitter e Facebook, além lançar mão de mensagens de texto para divulgar sua propaganda pedindo a seus seguidores que cliquem no “curtir” e compartilhem nas comunidades digitais.

As redes sociais foram inclusive, há alguns dias, cenário de uma insólita disputa pública e diferenças internas pela designação do mulá Akhtar Mansour como sucessor de Omar.

“Depois de anos, os talibãs se deram conta de que o caminho por onde estavam andando os estava levando para trás. A maioria de seus membros com estudo está entusiasmada com os sistemas de comunicação modernos. Os talibãs não reconhecem a liberdade de expressão como um valor, mas a usam como ferramenta. Eles a utilizam, mas o povo sob seu controle não está autorizado a expressar opinião”, disse à Agência Efe Omar Mohammad, jurista especialista em liberdade de expressão do Nai-Supporting Open Media.

Em sua opinião, a maioria dos talibãs acreditava que os usuários das redes sociais “eram marionetes do Ocidente”.

“Inclusive aprender inglês era considerado um crime, mas agora quase todos os membros que estudam e seguidores usam as redes sociais ocidentais e falam inglês”, acrescentou.

De acordo com o Misbah Allah Abdul Baqi, analista político e membro do Centro de Estudos Estratégicos e Regionais do Afeganistão (CSIS), essa mudança é explicada pelo contato que os talibãs tiveram nos últimos anos com o mundo.

“Ter interação com o mundo através de seu escritório no Catar e ter acesso a fontes abertas de informação ajudou os talibãs a abandonar velhos hábitos e entrarem no mundo atual”, disse.

A difusão de seus pensamentos também é baseada na ambiguidade com que o governo e a legislação sempre trataram os talibãs.

Para o analista e escritor Nazar Mohammad Mutmaeen, ainda não há uma uniformidade porque enquanto os líderes pashtuns, como o ex-presidente Hamid Karzai e o atual governante, Ashraf Ghani, se referem aos talibãs como “irmãos”, os “oponentes políticos”, como o chefe de governo, Abdullah Abdullah, de origem tajik, os chamam de “terroristas”.

“Ainda não existe uma lei especifica para descrever se os talibãs são terroristas, insurgentes ou simplesmente um grupo oponente armado”, comentou Baqi.

Além disso, o grupo tem uma grande influência entre os pashtuns, no sul e no sudeste do país, que os veem como aqueles que lutam contra a invasão estrangeira. A popularidade dos que dizem lutar pelo islã em uma sociedade conservadora está garantida, mas não é compatível com a modernidade.

“Os talibãs, que antes carregavam o Corão debaixo do braço, agora o recitam e o escutam com um click em seus smartphones, ou até mesmo online”, concluiu o professor da Universidade Nangarhar Islamic, Abdullah Nasery. EFE