Trabalho policial é “enxugar chão com ralo entupido e torneira aberta”, compara ex-comandante da PM

  • Por Jovem Pan
  • 27/01/2015 11h53

Carlos Alberto de Camargo foi comandante geral da Polícia Militar de São Paulo; na fotoCarlos Alberto de Camargo

Questionado pela jornalista Rachel Sheherazade se as polícias não estariam “enxugando o gelo” no combate diário à violência, visto que não são combatidas as causas do problema, Carlos Alberto de Camargo expandiu a metáfora e disse: “As polícias estão tentando enxugar o chão com o ralo entupido e a torneira aberta”.

Camargo, que é especialista em Segurança e ex-comandante da Polícia Militar em São Paulo, explicou cada detalhe da comparação em entrevista à Jovem Pan nesta terça (27). A “torneira aberta” da violência são os adolescentes e jovens que cada vez mais são cooptados pelo crime. Já o “ralo entupido” representa o sistema prisional e punitivo brasileiro, que segundo o coronel mais parece “brincadeira” para os jovens infratores.

Protesto da ONG Rio de Paz pelas crianças mortas por balas perdidas, na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro (Folhapress)

“Não há consequências para os atos infracionais para o crime; as crianças, os jovens, fazem como se fosse uma atividade lúdica; é uma grande brincadeira. Aquela imagem de jovens atirando como se estivessem na guerra do Vietnã, que passou recentemente na TV, mostra que é uma grande brincadeira na cabeça deles. Medo nenhum existe das consequências daquilo que estão fazendo”, critica Camargo.

Soluções e “vergonha na cara”

O coronel critica veementemente a administração pública, desde Brasília até os municípios, que não conseguem gerir seus recursos para enfrentar a violência.

São Paulo e Rio de Janeiro, grandes metrópoles, têm mais visíveis as suas fragilidades. No combate por vezes despreparado ao crime, mais de 800 pessoas foram mortas pela polícia no estado de São Paulo de janeiro a novembro de 2014, recorde dos últimos 10 anos. No Rio, houve 16 vítimas de bala perdida em apenas três dias e o 17º pode ter ocorrido nesta madrugada, em caso de adolescente baleado no Complexo do Alemão investigado pela Polícia Civil.

“O Governo Federal, se quer fazer alguma coisa, tem que estabelecer uma política pública que obrigue os municípios a tomarem vergonha na cara mesmo, esse é o termo, forte, de criar políticas públicas que acolham os jovens, as crianças e os adolescentes e evitem que eles sejam cooptados pelo crime”, cobra Camargo. “É vergonhoso. A quantidade de verba destinada à segurança que volta aos cofres públicos por falta de planejamento nos municípios é assustadora. E os planos não são feitos até por questões técnicas, contábeis. E isso é um crime contra a sociedade”, acusa, indignado.

O repórter Anchieta Filho lembrou em seguida que o governo do Rio de Janeiro cortou R$ 1,37 bilhão do orçamento para a segurança recentemente. Em entrevista na segunda, o Secretário de Segurança Pública do estado carioca, José Mariano Beltrame, disse que as Forças Armadas deveriam assumir o controle das fronteiras para impedir a entrada de armas e drogas no Rio.

O tripé da segurança

A ilustração do chão molhado tem relação com aquilo que o coronel Camago considera as três fases fundamentais de combate ao crime. “A verdadeira prevenção não é prender bandidos, mas evitar que crianças se tornem bandidos”, avalia o ex-comandante da PM, em solução analogamente similar à torneira aberta.

Também, considera o especialista, “é preciso que nesse momento a gente endureça a fase da punição”, para transformá-la em algo que “intimide o delinquente”, disse em referência a armas e celulares expostos e circulando livremente nas ruas e dentro dos presídios. Algo similar a “desentupir o ralo”.

No meio desses “dois extremos”, de prevenção e punição, estaria a fase policial, que, em sua visão, é “a única que não consegue fazer o bandido mudar de vida”. “À polícia só cabe estar no lugar certo e se antecipar ao crime”.

“É preciso que essas três fases sejam muito fortemente implementadas”, cunclui e conclama o coronel Camargo.