Transexuais indianos querem transformar legalização em realidade

  • Por Agencia EFE
  • 01/07/2015 06h44

Luis Ángel Reglero.

Nova Délhi, 1 jul (EFE).- Um ano depois que o “terceiro gênero” foi legalizado na Índia, os transexuais sonham em ter o primeiro reitor de uma universidade, um avanço que, no entanto, não passa de uma lembrança porque continuam sem poder concorrer a empregos públicos e nas salas de aula nem sequer sabem onde podem sentar.

O reconhecimento pela Corte Suprema indiana de um “terceiro gênero” junto ao masculino e ao feminino abriu há um ano para eles uma porta para a esperança, embora isso não tenha mudado as coisas, pois na Índia ainda se mantém leis pelas quais se pode castigar a homossexualidade.

“Minha luta vital é agora história e vejo o resto da sociedade como um amigo. Minha luta acaba hoje”, declarou à Efe Manabi Bandopadhyay, reitora há poucos dias da universidade feminina Krishnagar no estado oriental de Bengala.

O reconhecimento, já que um transexual ocupa pela primeira vez na Índia após décadas um cargo assim, da discriminação faz com que Manabi aos 50 anos se sinta “uma mulher do começo ao fim”.

Ficou para trás o passado como Somnath Banerjee, o menino repreendido quando se vestia de mulher e a quem seus pais enviaram ao psicólogo, que há 12 anos mudou de sexo e de nome.

“A conquista não é só importante na Índia, mas também no mundo todo para os transexuais”, porque embora seja ainda “anedótico na sociedade indiana, é um sinal de humanismo no mundo todo”, disse a reitora, de 50 anos.

De acordo com o último censo de 2011, na Índia há meio milhão de transexuais, uma gota no meio do oceano de mais de 1,25 bilhão de habitantes do segundo país mais povoado do planeta.

“Mas há muitos mais que não estão incluídos”, comentou à Efe Anjan Joshi, da organização Space em Nova Délhi, um coletivo de gays e lésbicas que ajuda e assessora os de sexo diverso.

“Condenados em muitos casos a viver da prostituição, o que ajuda a viver mal na rua e se contagiar com doenças sexuais, de pouco serve este reconhecimento”, lamentou o representante desta entidade de apoio a homossexuais, bissexuais e transexuais.

“Se desde criança você é discriminado, seus pais o rejeitam, fica sozinho, sem uma educação com a qual possa ter acesso a um bom trabalho, tem muitas possibilidades de acabar na rua, onde muitas vezes recolhemos eles mortos”, relatou Joshi.

Quando perguntado sobre o caso de Manabi, Simra, transexual de 23 anos, sorri dizendo à Efe que “é muito benéfico”, embora seu sorriso desapareça ao lembrar que teve que recorrer à educação à distância porque “tinha medo” de continuar na escola: “Não te respeitam”, contou.

Estilista em um salão de beleza, Simra espera que este caso sirva de exemplo, embora saiba que será complicado conseguir um amplo reconhecimento social para quem mudou de sexo enquanto na Índia “artigos como o 377 continuarem vigentes”.

Este artigo do Código Penal indiano data de 1860, da época colonial britânica, e embora não diga nada explicitamente sobre atividades sexuais, a expressão “contra a ordem da natureza” é usada para penalizar comportamentos que se considerem socialmente reprováveis.

Prema, transexual de 24 anos, voluntária de uma ONG, pensa que “vão demorar muito para acabar com 377, mas se fizerem isso”, pessoas como ela terão de verdade “um espaço para viver na sociedade” sem temor de seu comportamento sexual possa ser castigado.

O Tribunal Superior de Nova Délhi considerou nulo o artigo, mas posteriormente a Corte Suprema da Índia revogou esta decisão e declarou ilegais as relações homossexuais.

“A polícia o utiliza para nos criar problemas. Se as meninas nos incomodam, os policiais nos dizem que temos a culpa, que lhes provocamos sexualmente”, comentou Prema à Efe.

No ano passado Padmini Prakash se tornou o primeiro apresentador transexual em um canal de televisão indiano em 15 de agosto, simbolicamente no dia em que o país celebra sua independência.

Em 2000, a Índia teve seu primeiro prefeito transexual, Kamla Jaan, enquanto o primeiro parlamentar travesti, Shabnam Mausi Bano, remonta a 1998 no estado central de Madhya Pradesh.

A nomeação agora da primeira reitora do “terceiro gênero” “nos ensina que se lutamos contra os problemas, podemos chegar a ser algo na vida. Não deveríamos perder a esperança”, concluiu Prema. EFE

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