Transporte na palma da mão: a disputa entre táxi e Uber

  • Por Jovem Pan
  • 11/08/2016 16h41
File illustration picture showing the logo of car-sharing service app Uber on a smartphone next to the picture of an official German taxi sign in Frankfurt, September 15, 2014. A Frankfurt court earlier this month instituted a temporary injunction against Uber from offering car-sharing services across Germany. San Francisco-based Uber, which allows users to summon taxi-like services on their smartphones, offers two main services, Uber, its classic low-cost, limousine pick-up service, and Uberpop, a newer ride-sharing service, which connects private drivers to passengers - an established practice in Germany that nonetheless operates in a legal grey area of rules governing commercial transportation. REUTERS/Kai Pfaffenbach/Files (GERMANY - Tags: BUSINESS EMPLOYMENT CRIME LAW TRANSPORT)Taxistas reclamam da falta de regulamentação do app Uber

“Eu temi pela minha vida. Aquela hora ali…eu fiquei com medo.” Terça-feira, dia 10 de maio de 2016. O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, publica decreto liberando os aplicativos de transporte individual como o Uber de operarem na cidade. A decisão do Executivo tomada após duas tentativas frustradas de aprovar projeto semelhante na Câmara, revolta os taxistas.

O enfermeiro Jorge Ferreira Santos, de 44 anos, se dirigia para o Hospital São Paulo e se deparou com uma manifestação de taxistas contra a nova legislação. Por ter o carro preto, ele foi confundido com um motorista do Uber.

“É Uber, é Uber, é Uber, e eu não era Uber, eu tentando, fui pegar o avental, coloquei o avental do meu lado e não adiantou. Aí quando começaram a chutar, eu falei “tenho que sair daqui”. Mas que bateram muito e chutaram, e pega, mata, mata, arranca ele, tira ele, mas bateram muito no meu vidro, e eu tentei sair da melhor forma pra não machucar ninguém”, relatou o enfermeiro.

Traumatizado, Jorge Ferreira Santos ficou um mês sem trabalhar nos dois empregos e teve um prejuízo de 14 mil reais. Os taxistas prometeram bancar o preujízo, mas até agora nada foi feito. O presidente do Sindicato dos Motoristas e Trabalhadores nas empresas de Táxi de São Paulo, Antônio Matias, o Ceará, minimiza os protestos violentos.

“Se analisar, não teve tanta agressão aqui no Brasil que nem teve fora. Porque sempre a gente teve um pouco de controle. Óbvio, você não pode controlar todo mundo. Mas o que a gente pôde fazer, fizemos”, afirmou Ceará.

Para Ceará, a crise econômica e os aplicativos de transporte individual derrubaram em mais de 50 por cento o faturamento dos profissionais. O taxista Luiz Carlos Gonzales Júnior, de 33 anos, teve que mudar o padrão de vida.

“De uns tempos pra cá, mudou muito, caiu muito o movimento. Quer dizer, eu fazia um faturamento de R$ 6 mil, hoje em dia eu tiro R$ 2 mil. Estou tirando o menino da escola porque eu não consigo pagar, prestação, estou com duas prestações do carro atrasadas, estou com dívida até o pescoço”, lamentou o taxista.

Apesar da situação, o diretor de políticas públicas do Uber, André Gustavo Rosa, nega que a intenção do serviço seja roubar os passageiros que anteriormente preferiam o táxi.

“Nós não viemos roubar participação de mercado dos táxis. Principalmente no sentido de que hoje nós temos dados de que a grande base dos nossos usuários são usuários de 18 a 34 anos de idade, onde 90% deles têm carro próprio e optaram por deixar de usar o seu carro para usar nossa plataforma”, afirmou Rosa.

Pelo sim ou pelo não, os aplicativos que até então operavam apenas com táxi como 99 e o Easy Táxi passaram a oferecer opções semelhantes ao Uber. Porém, o CEO da Easy, Fernando Matias, garante que há espaço para os dois serviços.

“Ter um portfólio com diversos serviços, serviços de táxi comum, serviço do táxi preto e serviços de carros particulares, ajuda nessa dinâmica e favorece todo mundo que tá trabalhando hoje com a Easy Táxi. Porque você consegue dar as opções pro passageiro e oferecer aquilo que de fato é interessante para ele em determinados momentos”, disse Matias.

Um estudo feito pelo Cade em 2015 apontou que os aplicativos de transporte individual não concorrem com o serviço de táxi. O ex-economista do Conselho e professor da Universidade Federal do Paraná, Luiz Alberto Esteves, entende que os taxistas estão presos a uma regulação antiga e por isso não conseguem concorrer.

“A regulação dos taxistas deveria ser mudada. Eles (deveriam) ter espaço pra agir estrategicamente, montar estrategicamente outras modalidades de prestação de serviço, mexer tarifa. Às vezes as pessoas não estão nem preocupadas tanto com o preço, mas às vezes por outros fatores concorrenciais”, sugeriu o professor.

Além do Uber, outros aplicativos estrangeiros chegaram ao Brasil para disputar o mercado. No ar desde abril, o WillGo é mais uma alternativa para o transporte individual de passageiros. O diretor do aplicativo, Gabriel da Silva, entende que a grande oferta de aplicativos não vai tornar o negócio insustentável.

“A partir do momento que a gente aumenta a oferta desse tipo de serviço, tendo mais veículos, circulando mais veículos na rua, a tendência é que mais pessoas comecem a utilizar o serviço. Porque então você tem um tempo médio de espera menor”, disse o diretor da WillGo.

O motorista do Uber, Tiago Carvalho, de 31 anos não concorda com o pensamento. Para ele, o aumento do número de carros nas ruas fez cair a qualidade do serviço e os ganhos que ele tinha com o aplicativo.

“Hoje eu me vejo escravo do meu carro. Tem que pagar uma parcela salgada todo mês…e se eu ficar em casa não vai pingar nem o da parcela. Então, eu sou obrigado a ir pra rua pra pelo menos conseguir a parcela, levar alguma coisa, dividir as despesas com a esposa e é isso aí. Eu sou um pontinho fora da curva. A maioria fica três, quatro meses na Uber e vai embora”, contou Carvalho.

Tiago Carvalho diz que o que ele ganha hoje trabalhando 12 horas por dia representa um quarto do que o que ele recebia há um ano. Com o aumento descontrolado de carros de aplicativos nas ruas, a tendência é de queda de renda tanto para os motoristas de veículos particulares quanto para os taxistas.

Os apps também tem influenciado outras formas de transporte. É o que você confere no terceiro capítulo da série “Transporte na palma da mão”.