Tribunal de Justiça barra abordagem à força de viciados

  • Por Estadão Conteúdo
  • 29/05/2017 10h14
SP - AÇÃO PM E GUARDA CIVIL/CRACOLÂNDIA - GERAL - Ação da Polícia Militar e Guarda Civil na Cracolândia, Centro de São Paulo (SP), nesta quarta-feira (10). Um grupo de moradores fizeram barricadas para evitar a aproximação. Na entrada da Alameda Dino Bueno, foi ateado fogo em pedaços de madeira, restos de móveis e colchões. Informações preliminares indicavam que a ação se iniciou após denúncia de furto de celular. 10/05/2017 - Foto: MARCELL RONCON/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDOConfronto da Cracolândia - AE

O plantão do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) derrubou ontem a decisão liminar que autorizava a gestão do prefeito João Doria (PSDB) a remover à força usuários de drogas da Cracolândia para avaliação médica compulsória. O TJ-SP acolheu recurso da Defensoria Pública e do Ministério Público Estadual (MPE), que destacaram que a ação municipal poderia levar a uma caçada humana. A Prefeitura ainda vai recorrer.

Em seu despacho, o desembargador Reinaldo Miluzzi reafirmou o argumento da Promotoria de que “o pedido da Prefeitura é impreciso, vago e amplo e, portanto, contrasta com os princípios basilares do Estado Democrático de Direito” ao conceder à gestão “carta branca” para eleger quem deveria ser apreendido. O TJ-SP também revogou o sigilo do processo. 

A decisão liminar de 1.ª instância que autorizava a Prefeitura a recolher usuários da Cracolândia à força foi proferida na sexta-feira pelo juiz Emílio Migliano Neto, da 7.ª Vara da Fazenda Pública. Com a derrubada da primeira liminar, a autorização judicial para avaliação médica compulsória fica suspensa pelo menos até que a 13.ª Câmara de Direito Público do TJ-SP julgue o mérito da ação. 

Para o promotor Arthur Pinto Filho, da área de Saúde Pública, a expectativa é de que, agora, a Prefeitura dê prioridade à implementação do Redenção – projeto para a Cracolândia que vinha sendo pactuado com o MP e outros órgãos parceiros e previa inicialmente abordagens mais focadas no convencimento dos dependentes químicos. Como mostrou o Estado na quinta-feira, a gestão municipal havia apresentado no dia 15 o documento final do projeto, no qual detalhava medidas diferentes das que foram executadas após a megaoperação policial do dia 21 na Cracolândia

No eixo Saúde do documento, por exemplo, não havia menção à internação compulsória. Ao contrário, a Prefeitura trazia como um dos objetivos da ação “a redução do risco e da vulnerabilidade em saúde da população, salvaguardando a autonomia, o direito à saúde” e o cadastramento dos usuários “por intermédio de abordagem contínua, de caráter não impositivo”. 

Reação

Ontem pela manhã, o prefeito João Doria se recusou a falar sobre o assunto. O secretário de Governo, Júlio Semeghini, minimizou o revés sofrido pela gestão na Justiça e disse que o plano municipal para combater a dependência química na região da Cracolândia inclui diversas estratégias de abordagem aos dependentes, não só a compulsória. “O que estamos fazendo é preparando dois ou três espaços onde essas pessoas possam buscar abrigo à noite ou na hora de uma crise e, nesse momento, aproveitar para fazer a abordagem. Nossa estratégia não é única”, afirmou. O secretário disse ainda que a suspensão da autorização para avaliação médica forçada “atrapalha nos casos críticos”, de pessoas em crise, mas que essa situação é exceção.

Semeghini afirmou ainda que, apesar da decisão desfavorável para a Prefeitura, a gestão manterá os planos de contratar ambulâncias especializadas para remoção forçada de viciados. “Enquanto vai se discutir o mérito (da ação), temos de estar prontos, com os procedimentos claros, uma infraestrutura preparada e o serviço contratado. Nós vamos deixar tudo pronto porque, se tivermos essa autorização, nós implementaremos imediatamente.”