Uma boneca negra para recuperar o orgulho africano

  • Por Agencia EFE
  • 14/05/2015 16h04

Alicia Alamillos.

Nairóbi, 11 mai (EFE).- Diante de uma Barbie pálida, loira e ocidental, a pele escura e os vestidos tribais de cores vivas das bonecas “Queens of Africa” estão mudando a percepção das meninas nigerianas sobre sua cor de pele e sua cultura.

Até a aparição há sete anos das “rainhas da África”, as meninas nigerianas só podiam escolher nas lojas entre bonecas brancas e de cabelos claros.

Uma destas meninas era a filha de Taofick Okoya, empresário nigeriano criador da “Queens of Africa”, que compreendeu a importância da cor da pele das bonecas quando a pequena lhe disse que quando crescesse queria ser branca.

“É algo do subconsciente. Se elas brincam com bonecas brancas, acreditam que essas características são as melhores quanto à beleza e à cor de pele”, disse à Agência Efe Okoya, ao explicar o desprezo que isto produz contra sua própria raça.

Brinquedos, séries de televisão e anúncios, continuou Okoya, são os melhores embaixadores de um “imperialismo cultural do Ocidente” que afeta muitos africanos, especialmente os mais jovens.

Com as bonecas “Queens of Africa”, Okoya tenta resistir a essa influência e conscientizar sobre a necessidade de preservar a cultura e a herança africanas.

As peças de plástico que depois se transformarão nas extremidades, no tronco do corpo humano e na cabeça das “rainhas da África” são fabricadas na China, para serem enviadas depois à Nigéria, onde são encaixadas.

O cabelo é sempre escuro, encaracolado ou trançado, à maneira africana, e a roupa segue os padrões dominantes dos principais grupos étnicos da Nigéria: hausa, yoruba e igbo.

Embora o objetivo original fosse que as meninas dessas etnias se identificassem com as bonecas, Okoya disse que esta fidelidade às culturas locais “também serve para potencializar a irmandade entre as tribos” nigerianas e a diversidade do país africano.

Okoya considera que é difícil educar diretamente as meninas do valor de sua herança africana, e acredita que seja mais efetivo fazer isso com “mensagens subliminares” que reduzam essa “influência ocidental” em suas vidas.

Com as “Queens of África”, sustentou, as meninas “adquirem mais confiança, acreditam mais em si mesmas”.

Estas bonecas negras são uma resposta à dominante cultura branca, mas também à estética das estrelas que na África e Estados Unidos clareiam a pele para parecer mais brancas.

A cada mês são vendidas no mercado nigeriano entre três mil e nove mil “rainhas da África”, embora seu inventor admita que ainda têm problemas na distribuição do produto.

Fora da Nigéria, as bonecas africanas de Okoya são vendidas a centenas no Brasil, Estados Unidos, África do Sul e no continente europeu.

“Mandei 200 bonecas aos Estados Unidos para meu representante. Foram todas vendidas em apenas duas horas”, contou.

No Brasil – país com a segunda maior população negra do mundo, atrás apenas da Nigéria -, o Congresso aprovou em 2001 uma proposta para que os fabricantes aumentassem a oferta de bonecas negras, mas o mercado não respondeu como o esperado: as meninas negras preferiam as bonecas loiras e de olhos azuis.

Okoya viveu uma experiência similar a dos legisladores brasileiros com sua própria sobrinha, que, no início, rejeitava a boneca africana.

“O processo foi lento, a princípio não tínhamos aceitação por parte do mercado e das crianças”, reconheceu o fabricante.

“Estamos trabalhando para mudar isto gradualmente”, declarou Okoya, que espera aumentar as vendas de seu produto em um mercado em expansão como o nigeriano.

Um bom presságio é que as “Queens of Africa” tiveram um grande êxito na internet e vários portais de venda online esgotaram seus estoques. EFE

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