“Verdadeiro islã está na Europa”, afirmam refugiados no caminho para Alemanha

  • Por Agencia EFE
  • 09/09/2015 06h40

Antonio Sánchez Solís.

Budapeste, 9 set (EFE).- “O verdadeiro islã está na Europa”, disse o designer gráfico sírio Mohammed, de 28 anos, que foge da guerra em seu país e esperava para pegar um trem na principal estação ferroviária internacional de Budapeste, a de Keleti, que o aproxime de seu sonho de ter um trabalho e uma vida digna na Alemanha.

Agora ele está tranquilo, mas há alguns minutos seus olhos estavam avermelhados e à beira do choro. Depois de passar quatro semanas viajando com outros seis adultos e quatro crianças, seu primo ficou do outro lado do controle policial que fiscaliza o acesso.

Apenas alguns metros os separam, mas o medo de ficar assim para sempre coloca toda a família em um momento de estresse.

Mohammed contou que quer ir à Europa porque acredita ser mais próxima ao mundo árabe. Questionado sobre se alguma vez pensou em emigrar para a Arábia Saudita, por exemplo, onde teria a facilidade de ter os mesmos idioma e religião, ele negou de forma contundente com a cabeça.

“Nem lá, nem nos Emirados Árabes poderia ficar como imigrante ilegal. A Arábia Saudita é má. Sou muçulmano, mas acho que agora o verdadeiro islã está na Europa”, declarou.

Seu destino final é a Alemanha. Ele está confiante de que com sua formação e dominando o inglês vai conseguir um emprego. O mais importante é não voltar para a Síria e não ser devolvido à Hungria, por onde entrou vindo da Sérvia e onde viveu maus momentos.

“Um taxista nos cobrou 1.500 euros (quase R$ 6.500) para fazer um trajeto de 160 km até Budapeste. Quando tínhamos percorrido 10 km, ele gritou que a polícia estava vindo, nos fez descer e foi embora”, relatou.

Diante disso, eles tiveram que pagar outros 1.000 euros (mais de R$ 4 mil) para chegar à capital húngara, de onde saem os trens rumo à “Europa rica”.

“Nunca tinha visto tantos policiais. Eram como abelhas”, lembrou, ressaltando que teve medo e que na Sérvia as pessoas eram muito mais amáveis.

Desde que saíram da Síria, Mohammed e cada um de seus familiares pagaram 6 mil euros (R$ 25.670) na empreitada de fugir da guerra passando por Turquia, Grécia, Macedônia e Sérvia.

Entre as centenas de refugiados que hoje esperam em Keleti o medo e cansaço são visíveis. As filas são organizadas pelos próprios emigrantes, que esperam pacientemente, mas ansiosos para conseguir chegar às plataformas da estação.

Os nervos à flor da pele ficam ainda mais latentes quando uma família é separada, como aconteceu com Mohammed que perdeu o primo e pedia aos agentes que o deixassem passar. Um amável policial tentou acalmar o jovem e sua família e pede para que aguardem ao lado. No final, se reencontram e correm juntos, com a pouca bagagem que carregam, para não perder o trem que sai com 150 refugiados a bordo.

Outros 240 esperam em outro comboio com destino a Gyor, na fronteira com a Eslováquia e perto da Áustria. Outros trens sairão rumo a Viena e a Munique. Vários outros irão para as fronteiras, de onde os refugiados seguirão a pé.

Por enquanto, as autoridades austríacas ainda não controlam a documentação de quem passa para a Alemanha. Do outro lado da barreira policial, centenas de pessoas esperam. Uma delas é a iraquiana Hebe, de Bagdá, que viaja com seus filhos, sua irmã e os sobrinhos. O marido ficou pelo caminho.

Ela e a família chegaram a Budapeste pela fronteira sérvia, onde teve que passar uma noite ao relento antes de pegar um ônibus para a capital. “Fazia muito frio”, comentou. Seu bilhete é para Munique. Na Alemanha já está seu cunhado.

Enquanto uns saem de Budapeste, outros chegam. Na última segunda-feira, a polícia húngara interceptou 2.706 refugiados que entraram no país de forma ilegal, além dos 500 que entraram no domingo.

Lá ficam retidos até que seja feita a identificação, o que provoca tensão devido às más condições nas quais esperaram, às vezes durante dias, até poder continuar a viagem.

Em Keleti, agora a situação está mais calma e as saídas dos trens são contínuas. Depois disso tudo, os voluntários adquiriram experiência e estão mais bem preparados para receber os que chegam. EFE

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