‘BBB 21’ escancara agressividade e preconceito da militância de esquerda

Intenção da produção do programa é mostrar que Brasil é racista e machista, mas, na casa, são os supostos oprimidos quem humilham pessoas em nome de uma vaidade travestida de indignação

  • Por Adrilles Jorge
  • 13/02/2021 10h00
Reprodução/TV GloboLumena, militante do movimento negro, e Karol Conká, feminista, são alguns dos participantes que exibiram suas contradições em rede nacional

Há tempos o “Big Brother Brasil” se transformou uma plataforma de entretenimento político. Nada contra. Uma disputa por dinheiro, fama e projeção entre pessoas representativas da sociedade deve representar seu tempo. E o tempo é de polarização política, sobretudo de polarização política cultural. Vivemos numa guerra cultural. E o “BBB” tem lado nesta guerra. A produção do programa do qual participei é formada de militantes progressistas de esquerda que, ao lado da audiência, quer encampar uma narrativa de preconceito contra mulheres, negros, gays etc. Também quer projetar uma ideologia. Com a melhor das intenções, diga-se. Mas nem sempre a melhor das intenções é a mais certa. A questão é que, desde 2019, o programa traz para seu elenco militantes identitários. Eles são oriundos do movimento negro, feminismo e partidos de esquerda. Nenhum conservador esclarecido. Zero. Do outro lado do elenco, brucutus e barbies semialfabetizados que personificariam um pseuconservadorismo. Ainda assim, os brucutus e as barbies sempre ganham mais atenção do que os militantes. Por quê? Porque a militância tem se mostrado sistematicamente agressiva, chata e histérica. Cria preconceito onde não existe, impõe autoritariamente um padrão de comportamento e linguagem goela abaixo de outras pessoas. Uma militância que se coloca como um grupo de vítimas preferenciais em nome de um combate a um preconceito sempre inexistente na casa. É o retrato fiel da militância identitária brasileira. E mundial!

Neste “BBB 21”, vemos pessoas dizerem abertamente que o ”homem branco heterossexual” que se identifica com seu gênero sexual é o mal do mundo, uma ameaça às pessoas. Vemos um rapaz que levou um fora comparar a negativa da mulher branca ao Terceiro Reich. Vemos uma militante negra reclamar que a perda de suas estalecas (dinheiro no programa) é sintoma da mulher fenotipicamente branca que sempre leva vantagem. Vemos uma militante negra segregando e debochando de traços físicos de pessoas brancas. Vemos uma mulher negra humilhando, massacrando e expulsando um outro rapaz da mesa, e toda a plateia branca em redor se calar diante de tal monstruosidade por medo de ser considerada racista ao confrontá-la. Nada mais representativo do que a histeria identitária provocada por esta nova esquerda mundial, que separa pessoas entre vítimas preferenciais — negros, mulheres, gays e transexuais — e o homem branco heterossexual, o ”grande mal do mundo”. O identitarismo patológico não enxerga uma pessoa com virtudes e defeitos, mas coletivos que são julgados por sua etnia, sexualidade e gênero. Não tem como isto não reverberar em ódio, divisão e ressentimento. E o “BBB”, tentando mostrar um país em que homens brancos heterossexuais são opressores preferenciais, exibe o avesso do seu objetivo: uma militância monstruosa, que se coloca no lugar de vítima para poder massacrar outras pessoas sem sofrer retaliação.

Neste sentido, o “Big Brother” presta um serviço de educação, mostrando exatamente o cenário contrário do que a produção gostaria: o Brasil não é um país racista ou machista. O racismo, por exemplo, existe episodicamente, circunstancialmente. Em que pese haver, sim, racismo episódico e uma pirâmide social em que, sim, a cor negra é a base excluída, sobretudo por causa do período pós-escravidão, em que negros foram abandonados numa liberdade sem nenhuma garantia de trabalho, o Brasil é o país menos racista do mundo porque é o país mais miscigenado do mundo. Aqui a democracia racial prosperou. Sim, ainda existe racismo por cor da pele por aqui. Discriminação por cor da pele. Mas é raro. Existem homicidas e estupradores no Brasil. Mas é diferente de dizer que o Brasil é um país homicida ou um país de estupradores. Assim como é mentira dizer que é um país racista.

O fato de existir racismo episódico não justifica criar uma atmosfera de perseguição a quem não comunga deste identitarismo sectário da esquerda, tão bem representado pelo elenco do “BBB 21”. Ter sofrido injustiça não justifica culpar toda uma coletividade pelo mal que sofreu. Todas as pessoas sofrem de algum mal. Por isso, uma ínfima minoria se transforma em gente má ou ativista ressentida para defender um falso bem, perseguindo, massacrando, humilhando e cancelando pessoas em nome de seu próprio narcisismo. Karol Conká e Lumena fazem exatamente isso. E devem fazer isso na vida também, por óbvio. A maioria das pessoas que sofrem discriminação segue em frente tentando exercer o bem, apesar dos males que sofreu. O identitarismo brasileiro de bolhas progressistas transforma qualquer gesto de injustiça sofrida na vida em vingança contra toda uma coletividade: os homens, os brancos, os heterossexuais etc. No “BBB”, por exemplo, nunca houve uma única manifestação de racismo contra negros. Nenhuma. Houve uma forçação de barra querendo imputar a uma menina a acusação de racismo, quando ela dizia coisas como ter medo de macumba ou “humor negro'”. Não colou. E a menina, Paula Sperling, acabou ganhando o programa pela percepção popular da injustiça lacradora. Nesta 21ª edição, vemos uma militante, Lumena, sistematicamente discriminar pessoas brancas por sua palidez, características físicas e fenótipo branco. É a primeira manifestação de racismo claro e objetivo na história do “Big Brother”: uma mulher negra que discrimina pessoas brancas. Reivindicando o preconceito sofrido para justificar o seu preconceito.

Os militantes identitários, que vão da chatice à agressão verbal, não são uma minoria. São a exata maioria de uma militância que há muito perdeu a mão em seu exagero e cria os preconceitos e a divisão que dizem combater. O “Big Brother”, por caminhos tortos, mostra isto explicitamente nesta edição. Os militantes que massacram e perseguem pessoas são os mesmos carrascos modernos que cancelam e lincham nas redes por uma palavra, um gesto, um desvio mínimo do discurso ditatorial do pseudoprogressismo. Eles não são exceções, são a regra do identitarismo moderno. O principal vício da esquerda identitária mostrada no “BBB 21” é a intolerância: um erro ou uma impressão de um erro torna-se razão para um massacre, um linchamento brutal promovido por militantes que se alimentam de sangue, em nome de falsa justiça, para coroar a egolatria vitimista deles. E um único ato de alguém que se rebela contra este verdadeiro “fascismo do bem” pode ser logo massacrado por toda uma sociedade, guiada por uma mídia e uma intelectualidade que deturpa as circunstâncias e fatos em nome de uma ideologia progressista e identitária. Na televisão, as pessoas veem o que acontece. Não há muita chance de deturpação.

É muito simples e elementar o erro brutal do identitarismo tão bem mostrado pelo “BBB 21”: se achar superior — ainda que uma vítima histórica superior — por raça, gênero ou opção sexual é estúpido, assim como é estúpido condenar toda uma coletividade como preconceituosa por raça, gênero e opção sexual. O preconceito e estupidez nascem de toda e qualquer divisão de pessoas por raça, sexo ou opção sexual. O programa mostra que a militância identitária gera, sim, racismo reverso, guetos, segregação. Incita os preconceitos que diz combater, persegue pessoas por estilo, voz, local de nascimento, linguagem etc . O “Big Brother” mostra que a militância identitária é um monstro de hipocrisia. Oxalá toda a produção do programa, assim como todo o Brasil, entendam e sejam educados por esta 21ª edição e aprendam que toda política identitária causa divisão E que toda política humanitária gera comunhão. Que aprendam que o cancelador que se mostra como vítima preferencial é o carrasco moderno, que usa de falsa justiça para massacrar os outros em nome da vaidade ressentida do próprio ódio travestido de indignação. O cancelador escarra nos olhos alheios enquanto lambe a cegueira remelenta de seu ódio. Que aprendam que militância identitária divide. A militância humanitária une. Todos sofrem preconceitos e discriminações. Uns mais, outros menos. Dividir indivíduos em classes oprimidas e opressoras é esmagar o indivíduo em nome de falsa justiça de uns que se proclamam vítimas preferenciais.