Lockdown é medida desesperada da classe média alta, que pode usufruir do período como férias

Negacionista não é quem duvida do isolamento radical sem comprovação científica, mas aqueles que insistem no mesmo erro por vaidade, gerando desinformação, desespero e mais mortes

  • Por Adrilles Jorge
  • 20/03/2021 12h26 - Atualizado em 20/03/2021 13h26
Divulgação/TV GloboA apresentadora Maju Coutinho defendeu o lockdown usando a frase "o choro é livre"

Negar a realidade ou projetar uma ficcional para salientar uma versão da realidade é a característica básica do narcisista. A vaidade contrariada pelos fatos é a mais pungente punição para quem não tem a humildade de aprender com a própria história e os próprios fatos que eventualmente podem não corresponder a uma intuição inicial de uma circunstância. ”Negacionista”, é esta a palavra da moda. O sujeito teimoso que, por exemplo, nega possíveis verdades científicas como o lockdown, um remédio amargo e necessário contra a pandemia do coronavírus, segundo alguns especialistas. Um remédio amargo que não melhora nada, pelo contrário, piora a situação na maioria dos casos. O que alguns especialistas negam é que os países que mais se isolaram, mais fizeram uso de lockdowns, como Inglaterra, Bélgica, França e Argentina, estão entre os que mais tiveram infectados e mortos. Os maiores negacionistas são, pois, os que chamam os outros de negacionistas. Projeção espelhada.

Esta ambiguidade perversa e narcisista foi exposta pela fala da jornalista da Globo, Maju Coutinho, para quem o ”choro é livre” para pessoas que negam a urgência de lockdowns, apontados unanimemente como urgentes, segundo ela, por especialistas. Maju erra em tudo. Primeiro, não existem especialistas unânimes a favor do fechamento total. Pesquisas de universidades como Stanford e UCLA, cientistas renomados como John Ioannidis e Michael Levitt, todos negam a eficácia da medida, que, não só não resolve o problema do vírus como, por óbvio, eleva o problema do desemprego, da fome, da miséria, exclusão social, deterioramento da saúde mental e física das pessoas isoladas e cerceadas em suas liberdades de ir, vir e trabalhar para sair do jugo da dependência do Estado paternalista, dos patrões ou de qualquer opressão econômica.

O lockdown se difere de distanciamento social, que é evitar aglomerações e criar medidas para isso. Também é necessário tratar precocemente os pacientes para desafogar o problema do sobrepeso de internações em hospitais. Isto é ciência racionalizada. Não o lockdown. Maju ofendeu a todos, sobretudo a inteligência de todos, negando seu negacionismo, bem como o de toda a Rede Globo, que apoia, desde o ano passado, os isolamentos por longos meses. Isolamentos que não achataram curvas, sobretudo porque, no Brasil, o lockdown é uma utopia: se há, em média, três ou quatro pessoas por casa, e os trabalhos ditos ”essenciais” são efetuados por 20% da população, uma destas três ou quatro voltará para seu lar e contaminará, caso infectado, todas as outras com quem mora. Fora transportes e periferias em grandes cidades, que não coíbem aglomerações porque pessoas precisam trabalhar para comer imediatamente. O isolamento social radical praticado por meses, e que volta à tona agora no Brasil, nada mais é do que uma medida desesperada da classe média alta, que pode usufruir do lockdown como uma espécie de férias premium sócio-educativa politicamente correta, sem enxergar a pobreza, a miséria, o clamor por trabalho de classes menos abastadas.

A cegueira de Maju Coutinho frente à realidade brasileira, sua indiferença calculada, é sobretudo a indiferença calculada de sua emissora, cujo jornalismo insiste em ouvir apenas a voz de especialistas que reiteram suas teorias contestadas de isolacionismo no Brasil. A indiferença negacionista de Maju e da Rede Globo se converte em insensibilidade pequeno-burguesa de ricos que não veem um panorama mais amplo da realidade brasileira. Narcisismo de classe. Erraram por um ano. E por vaidade ferida, insistem em promover o mesmo erro, gerando desinformação, desespero e mais mortes (por miséria, fome, desemprego e perda de saúde física e mental das pessoas trancadas em casa).

Este narcisismo classista e negacionista está espalhado em várias frentes no Brasil. Por exemplo, artistas supostamente clarividentes, como Chico e Caetano, pedem um ”julgamento justo” para Lula, o maior bandido brasileiro, condenado em duas instâncias por duas dezenas de juízes, apenas porque o petista é a tradução viva do progressismo esquerdista que eles sempre seguiram. Não querem admitir, depois de uma vida, que estão errados. Endossar um establishment corrupto, que combate o combate à corrupção em nome de um establishment burguês e corrupto, não obscurece seus negacionismos. Não enxergam a realidade mais óbvia para não contrariar a vaidade ferida por estarem errados.

Maju faz o mesmo. A Globo faz o mesmo. A maior parte da mídia e até muitos cientistas fazem o mesmo: não enxergam a ineficácia do lockdown no Brasil, endossam medidas desesperadas e criam solução equivocadas e desesperadoras. O governador Romeu Zema, de Minas Gerais, por exemplo, um homem que resistia aos apelos do lockdown, trancou o Estado. Ao ser perguntado sobre a eficácia comprovada e científica, disse não ter certeza de nada. Em nome do desespero pelos mortos, UTI’s lotadas e pressão dos negacionistas isolacionistas, o governador trancou tudo. Nada de melhora. No Estado de Zema, algumas cidades, como São Lourenço, não se isolaram. Promoveram combates pontuais a aglomerações e tratamentos preventivos à doença. Estas cidades não têm espaço quase algum na grande mídia por não endossarem o narcisismo de pessoas que insistem no lockdown. Que insistem em dizer que ”o choro é livre” para aqueles que não creem no lockdown e perdem empregos, renda, liberdade, dignidade e vida. O homem público que atende a uma pressão tem a conciliação com seu ego de estar fazendo algo que a maioria faz. E a maioria está fazendo algo mortalmente errado, do ponto de vista científico e moral. Tudo em nome de seu negacionismo classista e narcisista.