Se você é homem, branco e heterossexual, será necessariamente o vilão dos filmes do Oscar

Com cotas para minorias étnicas e sexuais, a premiação vai destruir a arte, que é justamente a investigação da natureza humana para além dos preconceitos

  • Por Adrilles Jorge
  • 19/09/2020 07h00
EFE/EPA/ETIENNE LAURENTNovas regras mudaram a indicação de filmes ao Oscar

O Oscar agora terá cotas para minorias étnicas e sexuais para que filmes sejam indicados e referendados pela Academia. Mais: haverá diretrizes para tramas dos filmes que obriguem os cineastas a lançar luzes sobre as discriminações históricas sofridas por minorias. Depreende-se que, se as minorias devam ser retratadas em seu histórico de discriminação, as maiorias sejam vistas como opressoras. Traduzindo: se você é homem, branco e heterossexual, você será necessariamente o vilão dos filmes indicados ao Oscar. Em suma, o Oscar vai destruir a arte; a arte que é justamente a investigação da natureza humana para além de estereótipos, para além dos preconceitos. A arte do Oscar será a antítese da arte: será a classificação humana de qualidades morais de acordo com sua origem étnica e sua opção sexual. Sem nenhuma possibilidade de ambiguidade. De novo: se você é branco, hétero, homem, estará condenado ao papel de vilão histórico. Para sempre.

A política inquisitorial do Oscar que anula a ambiguidade dos indivíduos em nome de um suposto combate ao preconceito – e que reforça preconceitos reversos – é apenas um sintoma de uma esquizofrenia mundial. Infelizmente, os movimentos identitários perderam a mão e exageraram no combate ao preconceito a minorias, tornando-se eles mesmos os maiores fomentadores de preconceito, não contra maiorias ou minorias, mas contra o ser humano que não se coaduna a um discurso único pseudoprogressista de percepção da realidade. Ninguém é insensível a ponto de negar injustiças históricas a negros, gays, mulheres etc. A sensatez manda tolerar um certo exagero no combate ao preconceito a estes grupos por séculos de opressão e injustiça. Mas este exagero se tornou uma espécie de fascismo identitário que persegue pessoas e cala vozes. Exemplinho: perseguição pela linguagem. “Humor negro”, “denegrir”, “lista negra”… Tornaram-se expressões racistas sem ter nada a ver com cor de pele. Termos de linguagem figurada que indicam treva e luz tornaram-se instrumentos de opressão. E quem os usa é imediatamente cancelado, massacrado, demitido linchado pelas hostes progressistas que hoje abundam nas redes sociais e empresas e grupos sociais e moralistas. Não mais se julga um preconceito pela ação ou sequer pela intenção. O termo que se usa, na maior parte das vezes inconscientemente, virou um archote de carrasco para que você seja a vitima. Vítima de pessoas que se colocam irrevogavelmente no lugar de vítima para poder massacrar impunemente, sem sofrer represálias, porque eles são vítimas preferenciais.

O exemplo da linguagem é claro porque ele segue uma linha de censura clara. Restringindo a linguagem, se restringe o pensamento. Restringindo o pensamento, restringe-se a consciência e restringe-se a ação consciente derivada do pensamento. Pessoas livres tornam-se autômatos pelo medo de dizerem o que pensam, robôs de uma nova ordem mundial que condena quaisquer pessoas que não sejam pertencentes às clássicas minorias perseguidas. Nada, absolutamente nada, você que é branco, homem, heterossexual, poderá contestar. Porque só as minorias têm o dito lugar de fala. Só negros podem falar sobre questões raciais de negros. Só gays podem falar de discriminação a gays. Só mulheres podem falar sobre o machismo atávico contra mulheres. Lugar de fala é o lugar da proibição de fala de quem não pertence ao grupo dos discriminados históricos. Você, homem, adulto, branco, deverá se calar para sempre e aceitar sua culpa como um pecado original inarredável, sendo obrigado a uma eterna confissão e imolação pública e coletiva. O mais exótico é que a imensa maioria de negros, mestiços, mulheres, gays, não se encaixam neste discurso persecutório feito por movimentos identitários. Quem fala por negros, mulheres, gays, são representantes fanáticos de movimentos identitários que julgam falar por todos os negros, gays e mulheres. Uma minoria histérica politizada que quer disseminar o ódio em nome do falso combate ao preconceito, silenciando a voz real da imensa maioria das minorias.

Racismo, machismo, homofobia são facilmente representados e percebidos. Se inscrevem na intenção e na ação de querer menosprezar, humilhar, massacrar pessoas por sua origem racial ou opção sexual ou gênero sexual. Bem simples assim. Querer doutrinar a arte para estabelecer estereótipos físicos e sexuais de boa ou má conduta moral é um neonazismo às avessas; querer censurar a linguagem, criando falsos preconceitos de origem é opressão de liberdade de expressão; querer eliminar a possibilidade de diálogo, elevando minorias politicas que não representam todo o conjunto de minorias é querer travar a comunicação humana. Todos estes movimentos de censura e cerceamento de linguagem e pensamento levam a ações totalitárias e por vezes terroristas que criam estereótipos de percepção equivocada de mundo. O exemplo do Black Lives Matter é sintomático. Perseguem uma noção de que existe racismo generalizado no mundo – e não pontual, julgado em cada caso particular de um indivíduo. Para eles, o racismo é sistêmico e endêmico no ser humano e em todas as organizações sociais e políticas e ponto. Daí partem para a ação violenta contra tudo e todos. Porque o mundo seria racista. O exemplo do feminismo contemporâneo também é sintomático. Existiria uma cultura do estupro. Daí todos os homens seriam potenciais estupradores e abusadores insensíveis. E por aí vai. O Oscar agora vai mandar filmar esta percepção de mundo monstruosa de movimentos identitários que supostamente querendo combater o preconceito, geram um movimento aterrador de ódio, perseguição e preconceito generalizado de todos contra todos.