Caso Flordelis: assassinato envolveu traição, dinheiro, religião e envenenamento

Deputada acusada de mandar matar o marido está em liberdade, usando tornozeleira eletrônica, enquanto o tempo passa; o foro privilegiado dá licença para matar?

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 02/12/2020 13h02 - Atualizado em 02/12/2020 13h54
ReproduçãoPastor Anderson do Carmo foi morto com mais de 30 tiros em junho de 2019

Há coisas na vida que arrastam. Ocorre sempre algum fato para que não cheguem ao fim. É o caso da deputada Flordelis, que vai atravessar muitos anos em discussões intermináveis. A deputada federal, que mandou matar o marido, ainda está solta. Usa tornozeleira eletrônica, para ser monitorada, mas não está presa. Por que não está presa? Porque tem foro privilegiado. E há deputados na Câmara que tentam alguma manobra para salvar o mandato de Flordelis. O caso está no Conselho de Ética, que discute se ela deve ou não ser cassada. Ocorre que a pandemia tem prejudicado o trabalho do Conselho de Ética. Aliás, um Conselho de Ética nada confiável. E assim o tempo vai passando. A vida vai passando. Agora, uma das noras da deputada, Luana Rangel Pimenta, prestou depoimento à polícia e afirmou que Flordelis queria mesmo matar o marido há muito tempo. Seria mais fácil se divorciar dele, mas ela temia o escândalo que isso provocaria na igreja que ela criou, a Comunidade Evangélica Ministério Flordelis. Mas por que matar? Flordelis dizia que era um chamado de Deus. O pastor Anderson do Carmo tinha mesmo que morrer. Flordelis passou algum tempo tentando envenenamento. Quando viu que não dava certo, optou por matá-lo a tiros. Sete dos filhos adotivos da deputada e uma neta estão presos acusados da execução. Anderson foi assassinado com 30 tiros.

Flordelis tornou-se famosa no Rio de Janeiro e no país quando decidiu, nos anos de 1990, adotar 37 crianças de uma só vez, entre elas 14 bebês. E adotou, também, alguns adolescentes que sobreviveram à tristemente famosa Chacina da Candelária, entre eles Anderson, que, de filho adotivo, passou a ser marido alguns anos depois. Anderson chegou a namorar uma filha biológica de Flordelis. A deputada foi cantora evangélica, com vários álbuns gravados, de muito sucesso nesse meio. Sua vida virou até filme, “Flordelis, basta uma palavra para mudar”, com a participação de Débora Secco, Bruna Marquezine, Letícia Spiller e Marcello Antony. Toda a renda da música e do filme foi endereçada para assistência social. E assim, acabou eleita deputada federal pelo Rio de Janeiro com quase 197 mil votos.

A polícia tem informações sobre a vida na casa de Flordelis e seus 55 filhos adotados. Um quadro desolador. E isso envolve quase todos que lá viviam. Em poucas palavras, era um lugar de promiscuidades. A casa da deputada federal Flordelis dos Santos transformou-se num local onde todo mundo tinha relações sexuais com todo mundo. O sexo começou com os primeiros integrantes da casa da deputada que, que na época, vivia na favela do Jacarezinho, na Zona Norte do Rio de Janeiro. E continuou quando ela foi para a nova casa, em Niterói. A revelação foi feita pela delegada Bárbara Lomba, responsável pela primeira fase das investigações do crime. A policial afirma que havia relações sexuais entre todos ali. Flordelis não se relacionava somente com Anderson e Anderson não se relacionava só com ela. Era uma espécie de sexo livre entre todos. A delegada foi testemunha de acusação na audiência do processo no qual Flordelis é acusada de mandante da morte do marido. A delegada observa que o que acontecia na casa, em termos de sexo, causa espanto. Adianta que as relações eram baseadas na mentira. Estabeleceu-se uma lógica de relação familiar de fachada. Flordelis elegeu Anderson do Carmo com seu marido porque era o mais preparado para essa função. Anderson chegou à casa ainda a adolescente e, com o passar dos anos, tornou-se pastor evangélico. A deputada Flordelis mandava em tudo. Ninguém fazia nada sem seu conhecimento. Para a sociedade, Flordelis e Anderson se apresentavam como um casal feliz. Mas dentro da casa era tudo diferente. Flordelis fez uma publicação como viúva. E escreveu assim: “Você partiu, mas nosso amor segue vivo. Não tenho mais você do meu lado para me animar. Meu amor, como viver sem você? Preciso tanto aprender, mas não estou conseguindo. Nestes dez meses sem você, estou tentando sobreviver fazendo a obra juntos e cantando, que era o que você sempre pedia para mim. Te amo demais”.

De acordo com as investigações, o assassinato ocorreu numa trama envolvendo traição, briga por dinheiro, religião,  envenenamento e destruição de provas. A ânsia de acabar com a vida do marido ficou sem controle. E muitos de seus filhos adotivos concordavam. Nem sabiam ao certo porquê, mas concordavam. E quem ainda dava as ordens era Flordelis. E foi ela quem escolheu aqueles que participariam de um crime que teria de dar a impressão de um assalto. E assim foi feito. Só não se sabe se o foro privilegiado dá licença para matar. Parece que sim.