Boulos me lembra outro político brasileiro que foi presidente e hoje é ex-presidiário

Até há pouco, um invasor de prédios que se aproveitava da miséria dos que vivem perambulando sem destino nenhum; hoje, na televisão, parece um santo

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 24/11/2020 11h38
ROBERTO CASIMIRO/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDOGuilherme Boulos concorre à prefeitura de São Paulo pelo PSOL

Entramos na semana final das eleições municipais, depois daquele desfile de horrores no horário gratuito no rádio e na televisão. Todo mundo quer uma boquinha. Ser vereador deve ser ótimo. Mas houve também a apresentação dos candidatos à prefeitura. Aí o buraco é mais em cima. E é uma loucura também. Por exemplo: O Levy Fidelix, presidente do PRTB, que há 50 anos fala do seu aerotrem, disse numa pequena entrevista à revista Veja que é um vencedor. Foi derrotado pela 15ª vez. Mas é um vencedor. Mas nesta eleição foi demais. Sua votação foi pífia. O candidato de todas as eleições brasileiras não se conforma. Tanto que pediu explicações ao Tribunal Superior Eleitoral: “Não posso acreditar que os vereadores do meu partido conseguiram 60 mil votos e eu não tive nem 12 mil. Quer dizer que nem os próprios correligionários votaram em mim? Desconfio muito que haja alguma anomalia”. Fidelix afirma que vai até o fim para saber o que aconteceu.

No final daquele desfile de horrores, sobraram as mesmas caras de sempre. Eles estão sempre ali, prontos para servir o país, a cidade, a pátria idolatrada. Eu já assisti a esse filme antes, várias vezes, em ocasiões distintas. Mas, no final, as histórias são sempre iguais. O enredo muda muito pouco. É o que está acontecendo agora, mais uma vez. Guilherme Boulos está bem nas pesquisas em São Paulo. Boulos me faz lembrar da história de um outro político brasileiro que chegou à Presidência da República e hoje é ex-presidiário. Saiu da prisão por uma manobra do STF. Igualzinho. O outro conheci de perto. Participei de toda aquela pregação de mais de 20 anos em favor da ética e da moralidade na política. No fim, deu no que deu. No poder, uma conduta lastimável. Fez tudo aquilo que condenou anos a fio. Até chegar na corrupção declarada. Era o dono da bola. E o jogo tinha de ser jogado de acordo com suas regras, que ficaram mais claras depois que venceu a eleição presidencial. Já na juventude, em plena vida clandestina, desconfiávamos dele. Mas desconfiávamos mesmo. Não sou louco o suficiente para dizer isto aqui de maneira irresponsável e inconsequente. Era uma desconfiança que fazia mal. Nunca ia preso. Estava sempre bem com todo mundo. Uma coisa estranha para quem estava dentro das prisões ao meio de torturas violentas. Uma coisa estranha ao meio daqueles que simplesmente desapareciam. Umas coisa estranha para as famílias dos que morriam. E ele sempre bem com todo mundo.

Hoje não significa nada, mas ainda é líder de uma esquerda vagabunda que não sabe o que fazer da vida. Melhor uma esquerda civilizada, que sabe pensar. Ou ainda consegue pensar. Pois Guilherme Boulos me faz lembrar essa figura lastimável. Até há pouco, um invasor de prédios que se aproveitava da miséria dos que vivem perambulando sem destino nenhum. E ele sempre lá, à frente de tudo, esperto, às vezes raivoso quando dizia palavras de ordem. Hoje, na televisão, parece um santo. Só falta uma auréola dourada na cabeça. Fala mansa, palavras cuidadosas. Uma coisa é certa: Boulos tomou o lugar do outro parasita. De alguma maneira, isso já é bom. Mas não vem com essa conversa delicada para cima de mim. O tempo que tenho de jornalismo me ensinou a ver muitas coisas. Muitas. De qualquer maneira, é uma cara nova neste vale de lágrimas. Mas nem tanto.

Num destes dias, Guilherme Boulos teve uma recaída e juntou no seu programa político as figuras de Lula (PT), Ciro Gomes (PDT), Flávio Dino (PCdoB), governador do Maranhão, e Marina Silva (Rede), de triste memória. Só faltou a Gleisi Hoffmann. Formaram, então, o que chamaram de Frente Democrática por São Paulo. No fundo, é uma gente que não cabe na democracia. Só se for a “democracia” da Venezuela. Quanto à Marina Silva, acho que ainda merece um crédito, porque tem uma história de vida comovente e nunca se deixou levar pelas facilidades. Já foi considerada uma das 50 maiores personalidades do mundo. E foi uma excelente ministra do Meio Ambiente, até ser humilhada pela então ministra Dilma Rousseff, por ordem de Lula, que não sabe que seu tempo passou, não existe mais. Mas a maré não está boa. Esse pessoal que Boulos juntou em torno de si representa a nata da esperteza política brasileira administrada pelas grandes raposas e ratazanas das mais antigas neste cenário melancólico. Estou à vontade para escrever, porque não vou votar em ninguém. Desde 2018, quando vi as duas alternativas, Jair Bolsonaro e Fernando Haddad, eu neguei-me a votar. Primeiro pensei em anular meu voto, mas depois decidi negar-me a votar, para ficar em paz com minha consciência. Escrevi tudo isto para dizer que já assisti a esse filme antes, na primeira fila, com muita atenção no enredo e até na música. Um filme que se repete. A cara é nova, mas já manjada. As histórias são as mesmas. O discurso é o mesmo. Os personagens estão no mesmo lugar garantido na fita. E o cinema chama-se “Brasil”, para que tudo seja como sempre foi.