Embora deplorável, esquerda vê nascer um novo líder

Guilherme Boulos deixa de ser visto como um radical, um mero invasor de prédios, e deve substituir o ex-presidiário Lula, que ainda dá as ordens para os que não entendem que os tempos são outros

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 29/11/2020 22h33
Alex Silva/Estadão ConteúdoGuilherme Boulos, candidato do PSOL à prefeitura de São Paulo, teve 40,62% dos votos; Covas, o vencedor, teve 59,38% dos votos

Foi um dia tranquilo. Sem perturbações. Logo cedo, o prefeito Bruno Covas (PSDB) foi tomar café com Marta Suplicy, uma mesa farta de doces e chás, fora o bolo coberto de chantilly. A seguir, Covas acompanhou Marta até o Colégio Madre Alix, no Jardim Europa, em São Paulo, onde ela votou. Depois, o tucano foi até Higienópolis encontrar o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso no seu apartamento e seguiu com ele até o Colégio Sion, no bairro, onde FHC votou. Tudo tranquilo, sem atropelo. Despediu-se de Fernando Henrique e rumou para o Palácio dos Bandeirantes, no Morumbi, onde o esperava João Doria. E seguiu com o governador até a Escola Saint Paul’s, nos Jardins, onde Doria votou. E, nesses percursos, esteve sempre cercado de muita gente e muito abraço. Aglomeração? Esqueçam isso. Era uma festa, como evitar a aglomeração?! Feito tudo isso, Covas foi tratar de sua vida, foi votar também, para depois descansar um pouco na casa de um amigo, em companhia de Doria, para assistir à apuração dos votos. Covas venceu – e venceu bem. Fez uma campanha limpa, correspondida por Guilherme Boulos (PSOL), que não apelou para as agressões pessoais nas eleições brasileiras. Pelo menos em São Paulo, foi uma eleição civilizada. Dá até para dizer elegante. Foi uma campanha elegante. Só uma vez a campanha de Boulos tentou tumultuar partindo para ataques à honra do candidato a vice de Bruno Covas, Ricardo Nunes. Mas isso durou pouco.

À noite, na sede do PSDB em São Paulo, Bruno Covas falou ao povo que o elegeu, mas teve de esperar muito. Cada um queria tirar a sua casquinha e faturar algum prestígio. Quando finalmente conseguiu falar, Covas afirmou que saberá ouvir o recado das urnas. Agradeceu a confiança que a população nele depositou. Assinalou que agora chegou a hora de transformar a esperança em realidade. “São Paulo não quer confronto”, disse ele, observando que teve na vida lições que o levaram a uma política de ética e de honra, ensinada por seu avô Mário Covas. Disse, então, que é possível fazer política sem ódio. Ressaltou que sua campanha respeitou o eleitor e a diversidade da cidade de São Paulo. Foi uma festa onde todos se aglomeraram num espaço pequeno. Covas elogiou Boulos dizendo ter feito com ele um bom combate sem agressões pessoais. Como já se disse aqui, foi uma campanha elegante. No sábado, 28, Covas telefonou a Boulos desejando restabelecimento rápido em sua saúde, já que está em isolamento por causa do vírus chinês. Cordialidade, eis outra palavra que pode ser usada aqui. Os dois adversários foram cordiais. Covas elegeu-se prefeito de São Paulo, e Boulos sabe que seu nome cresceu muito nesta eleição, não será mais um mero invasor de prédios. A eleição municipal de 2020 revelou que Boulos é o novo líder da esquerda no Brasil. Está certo que é uma esquerda deplorável, o que há de pior no país, mas é sempre alguma coisa. Durante a campanha, Boulos fez uma reunião online com representantes financeiros e do mundo corporativo. Ia tudo muito bem, até que alguém pediu a palavra e afirmou que muitos trabalham, compram um prédio, por exemplo, e, de repente, aparecem alguns bandidos que invadem e constroem uma favela. São terroristas que degradam a cidade e o imóvel perde o valor. Essa pessoa perguntou a Boulos como é que ele lidaria com essa situação, caso fosse eleito. Boulos não se irritou, até porque durante a campanha ele se transformou num santo. Respondeu apenas que muitos o consideram um terrorista, explicando que o MTST, movimento que lidera, só invade e ocupa prédios abandonados. A conversa parou por aí. A resposta não agradou a ninguém. Mas uma coisa pareceu mais ou menos certa: depois da campanha eleitoral, Boulos não será mais visto como um radical. E já é considerado o novo líder da esquerda brasileira o que, de alguma maneira, é bom, porque livra o país do ex-presidiário Luiz Inácio Lula da Silva que, com a ajuda de sua sucessora Dilma Rousseff, levou o país a um buraco sem fim.

Mais comedido durante a campanha, como é de seu temperamento, Covas dizia que a eleição em São Paulo seria o primeiro grande teste para a nova geração do PSDB. Na campanha, o prefeito fez questão de manter distância daqueles que ainda se consideram donos do partido. Covas tem câncer e está em tratamento. E aí entrou o toque de mau-caratismo da campanha de Boulos, que questionou a capacidade de governar do vice de Covas, Ricardo Nunes, do MDB. E os cangaceiros das redes sociais passavam os dias fazendo esse questionamento. É de uma covardia tamanha que não vale comentar. As mensagens nas redes sociais faziam ilações sobre o câncer de Covas. Aí foi jogo sujo mesmo. Fora isso, o vice de Covas é acusado de ter agredido a mulher, o que rendeu até boletim de ocorrência. Mas o casal está junto até hoje. Esse fato também foi explorado exaustivamente nas redes sociais pela campanha de Boulos. A acusação resultou num estrago político na campanha de Covas, a ponto de o vice contratar uma equipe especial para lidar com o assunto. Essa baixaria não durou muito. Certamente, Boulos compreendeu que estava entrando numa canoa que não levaria a lugar nenhum. Assim, os ataques nas redes sociais acabaram e exatamente aí foi iniciada a campanha elegante e civilizada. Foi bom. Mantiveram o nível até o final. Já o governador João Doria foi mantido distante da campanha, pelo seu alto índice de rejeição que tem em São Paulo. Com a vitória, Covas, de 40 anos, consolida sua liderança do PSDB, levando seu nome ao quadro nacional do partido, com o olho em 2022. Ninguém mais poderá questionar essa liderança de Bruno Covas no PSDB. 

Nas suas promessas de campanha, Covas dizia ter o objetivo de elevar a cidade de São Paulo a um novo tipo de desenvolvimento econômico, social e urbano. Afirmava que a cidade tem de trabalhar em função da melhoria de vida das pessoas, com menos polarização política que atrapalha tudo. Covas afirmou que uma de suas maiores prioridades será a saúde infantil. Prometeu que criaria em São Paulo o maior núcleo habitacional, como a cidade nunca viu, para atender aos que não têm onde morar. O seu plano de governo começa dizendo que São Paulo é a cidade de todos, de gente de todos os cantos que gostam de viver aqui. Para Covas, São Paulo é a síntese do Brasil e do mundo. No seu programa, prometeu lutar contra as injustiças em defesa dos mais pobres que estão sempre à margem. Significa lutar pelas liberdades, pela democracia, pelo bem, pela virtude e cidadania. Sobre a pandemia, observa que aplicou todas as lições que tem aprendido durante a vida em sua trajetória política e isso implica humildade e um novo olhar para os problemas. Trabalhou muito no combate à pandemia, a ponto de construir um quarto na sede da prefeitura, no Viaduto do Chá, para dormir e levantar cedo para visitar a periferia.

Já Guilherme Boulos pareceu um santo na propaganda política no rádio e na televisão, nada parecido com aquele que esbravejava palavras de ordem a cada invasão de prédios que realizava à frente de pessoas entregues à própria sorte. Por que não dizer: sempre se aproveitou dessa miséria para se promover politicamente. Tanto que chegou a essa candidatura à Prefeitura de São Paulo, pelo PSOL, o substituto mais furioso do melancólico PT, que, embora morto, ainda não se deu conta disso. Mesmo com cara celestial e fala mansa, Boulos deixava claro que continua a mesmo, não mudou nada. Garante que não está moderado, como muitos andam dizendo. Dizia que, se fosse eleito, o primeiro problema que enfrentaria em São Paulo seria o dos moradores de rua, que somam mais de 25 mil pessoas. Criaria, então, o que chamou de Casa Solidária para atender aos que vivem sem rumo e dormem em qualquer lugar. Boulos fazia questão de dizer em todo lugar que recriaria a Secretaria Municipal de Igualdade Racial, que foi fechada por João Doria, quando ocupou a prefeitura. Nas escolas municipais, tinha a ideia de ensinar a história africana e a cultura afro-brasileira às crianças. Apoiado por todos os partidos de esquerda, Boulos garantia que não trocaria apoio por cargos, explicando que não governaria sozinho uma cidade tão complexa com tantos problemas. Assinalava que procuraria o diálogo, a forma mais democrática de encontrar soluções. A eleição terminou. Bruno Covas continua na Prefeitura de São Paulo. A esquerda, embora deplorável, vê nascer um novo líder, que vai substituir o ex-presidiário Lula, que ainda dá as ordens para os que não entendem que os tempos são outros. Dizer mais o quê?