Fim do auxílio emergencial será o golpe mais fundo que o brasileiro sofrerá em 2021

Novo ano está chegando, mas carregará as mesmas angústias de 2020 com o fim da ajuda do governo, a briga pela vacina contra a Covid-19, o desemprego e a inflação

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 30/12/2020 14h10
WILLIAN MOREIRA/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDOAuxílio emergencial ajudou milhões de brasileiros durante a crise provocada pelo novo coronavírus

Sempre que surge o novo ano as pessoas revelam a esperança por um mundo melhor. As pessoas ficam mais próximas. As pessoas ousam sonhar exatamente num tempo em que o sonho parece proibido. As pessoas têm o direito de sonhar. O novo ano está aí, sem nenhuma promessa. Os dias continuarão a correr e 2021 seguirá o mesmo caminho de 2020. É que sempre dá a impressão de que um novo ano vai mudar tudo. Tomara que seja assim. Pelas sinalizações de agora, o novo ano, infelizmente, carregará a mesma angústia de 2020, e tudo indica com uma carga maior de infortúnios. O auxílio emergencial deixará de existir. Foi uma medida fundamental para amparar a crise da pandemia que atingiu de maneira fulminante milhões de brasileiros de uma população cada vez mais pobre. Fora isso, espera-se, como de costume e cada ano que começa, o reajuste de preços em vários setores. No novo ano, o salário mínimo vai subir, mas o valor é melancólico para qualquer família. Passará de R$ l.045 para R$ 1.088. Ao mesmo tempo, o plano de saúde custará mais caro, o preço do aluguel vai aumentar e some-se a isso o preço dos alimentos, que em 2020 disparou nas feiras livres e nas prateleiras dos supermercados.

Mas o golpe mais fundo será mesmo o fim do auxílio emergencial, que ajudou milhões de famílias brasileiras no auge da crise que ainda não acabou. Foi uma maneira de oferecer ao trabalhador uma renda mínima para viver com sua família, diante do desemprego acentuado com a pandemia. Essa medida do governo beneficiou mais de 68 milhões de pessoas. Primeiro, o auxílio foi de R$ 600 e caiu depois para R$ 300. A última parcela foi paga agora em dezembro. E essas 68 milhões de pessoas não têm a quem recorrer, senão ao governo, que não dispõe de dinheiro suficiente para prolongar o programa. O governo pensou em substituir o Bolsa Família. Falou em criar o Renda Brasil, a seguir o Renda Cidadã. E tudo ficou por isso mesmo. Nada saiu do papel.

Os contratos de aluguel devem ter alta expressiva em todo 2021. Em novembro de 2020, o aumento do aluguel foi de quase 22%, devido à desvalorização do Real, a moeda que mais caiu no mundo inteiro. O próprio governo aconselha: o melhor é discutir o aumento com o proprietário do imóvel, sem intermediários. É preciso lembrar, também, que 2021 trará na sua bagagem o aumento dos impostos com a alta da inflação. Os planos de saúde também aumentarão sua mensalidade, mas não será tudo de uma vez. Os aumentos ocorrerão ao longo dos 12 meses do novo ano, um pouco de cada vez, já a partir de janeiro de 2021. No ano que termina, os reajustes nos planos de saúde foram suspensos por seis meses por causa da pandemia, o que favoreceu mais de 20 milhões de beneficiários. Mas não será possível continuar com essa política em 2021.

Tem ainda o aumento da conta de luz, o que já ocorreu em dezembro de 2020. A Agência Nacional de Energia Elétrica – Aneel decidiu pela cobrança da luz pela bandeira vermelha 2, o valor mais alto do sistema. É muito aumento, mas some-se, ainda, o do transporte público, incluindo ônibus, metrô e trem. Em 2020, os valores foram reprimidos por conta da pandemia, mas em 2021 essa possibilidade deixará de existir. Por fim, a alta dos alimentos que, de acordo com estudos do governo, não será tal alto. Subiu demais em 2020. Estima-se que em 2021 os preços no setor serão mais modestos.

Eis 2021 dando o ar de sua graça, com a pandemia ainda reinando e aumentando a lista de mortos no Brasil, que já passa de 190 mil. E nessa paisagem, coloque-se a guerra da vacina, um verdadeiro desespero entre as pessoas que temem o vírus. A vacina chegará ao país desacreditada pelo próprio governo que tem a obrigação de atender aos anseios dos brasileiros que trabalham por essa terra. Mas o que se vê, na questão do coronavírus é um negativismo doentio de enlouquecer qualquer psiquiatra. Vamos torcer para que 2021 seja mesmo um ano melhor. Não sendo 2020 já está bom. O Brasil é um país pobre, com alguns centros desenvolvidos. Mas é um país pobre que, em 2021, terá sua pobreza acentuada com as vítimas da pandemia em termos de trabalho e quase 15 milhões de pessoas desempregadas, sem contar mais de 5 milhões que simplesmente desistiram. Começaremos o novo ano com muitos milhões vivendo abaixo da linha da pobreza, um eufemismo encontrado para usar no lugar de miséria. Mas é miséria mesmo. O novo ano chegará com essa sombra, embora os fogos de artifícios, proibidos ou não, vão colorir o céu brasileiro. As pessoas têm esse direito de sentirem-se felizes. O problema é que o clima não é para festa. Infelizmente.