Mourão é uma ilha de bom-senso dentro de um governo que não conversa com o povo

O presidente Jair Bolsonaro fica incomodado com as entrevistas de seu vice, mas, se não fosse, o general, ninguém colocaria um remendo nas imbecilidades reinantes

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 19/03/2021 13h04
Cláudio Marques/Futura Press/Estadão Conteúdo - 24/02/2021O vice-presidente Hamilton Mourão tem contrariado o presidente com suas entrevistas

Jair Bolsonaro fez e faz de tudo para transformar o vice Hamilton Mourão numa figura meramente decorativa dentro do governo. Mas o vice-presidente vai seguindo, aparentemente, sem se importar com isso. No que faz bem. Mourão continua a falar com a imprensa dando suas opiniões sobre assuntos que ninguém no Planalto tem coragem de dizer qualquer palavra. Que os dois não se conversam mais já é sabido. Não trocam nem olhares nas cerimônias em que estão juntos. Ignoram-se. Evidentemente, isso não é bom para um país que se deseja sério. Hamilton Mourão é acusado de falar demais e que, muitas vezes, fala contra o próprio governo. Não é bem uma verdade. Até pelo contrário: ele sempre tenta colocar um remendo nas imbecilidades reinantes no Brasil. Como fala com jornalistas praticamente todos os dias, o vice começou a incomodar certos setores, especialmente o chefe, que não gosta dessas conversas.

Mas Mourão, um general, acha que tem o direito de falar. E fala. Agora, faz considerações sobre a principal neura do Planalto, que é a pandemia, apontando o que julga erros de conduta do presidente. Na segunda-feira, 15, o vice-presidente, no alto de sua vice-autoridade, afirmou que a comunicação do governo com a população sobre a pandemia tem sido claudicante desde o início, observando que espera que o novo secretário de Comunicação, Flávio Rocha, dê mais profissionalismo à essa área, importante em qualquer gestão. O erro maior, de acordo com Mourão, foi o governo não realizar uma campanha nacional sobre a Covid-19, preferindo o silêncio diante de tudo que tem acontecido, incluindo o número assombroso de mortos.

Mourão tem dito que o trabalho de comunicação do governo tinha que ser melhor. A população tem o direito de ser informada. E, tudo indica, o governo deixou esse detalhe de lado. O general argumenta que as pessoas deviam saber que tinham que se resguardar, evitando especialmente as aglomerações. A população tinha de saber da responsabilidade de usar a máscara e ter sempre as mãos limpas com sabão ou álcool em gel. Isso é o básico, e muita gente não leva a sério. O vice afirma que o governo tem muitos fatos positivos, mas não consegue se comunicar com a sociedade, que, muitas vezes, se vê perdida. Mourão não está tão correto assim, porque, na verdade, o presidente sabota qualquer iniciativa de combate à pandemia. Sabotagem mesmo.

O vice-presidente diz acreditar no novo secretário especial de Comunicação, almirante Flávio Augusto Viana Rocha, que era secretário especial de Assuntos Estratégicos da Presidência. O ainda ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, prometeu na segunda-feira, 15, uma campanha federal sobre a Covid-19, com informações básicas, que seria iniciada na terça-feira, 16, em rádio, televisão e redes sociais. Não aconteceu nada. Pazuello foi comunicado que deixaria o cargo algumas horas depois da promessa. Não houve campanha nenhuma. Na verdade, não interessa ao governo uma campanha sobre a Covid e a vacinação. Não interessa nada. Esses assuntos não são de interesse do presidente. Decisivamente não são. Bolsonaro já deu amostras disso. Não há secretário de Comunicação que consiga sobreviver num ambiente assim, onde as coisas são ignoradas, não comunicadas. Por isso o vice-presidente Hamilton Mourão fala. Ele sabe que o presidente não gosta, mas ele fala. E vai continuar falando. Chega logo cedo no seu local de trabalho, desce do automóvel oficial de mansinho e é logo cercado pelos jornalistas. Não chega a ser o cercadinho do Palácio da Alvorada, onde quase todo dia, falando com seus apoiadores, o presidente passa um recado ao país, sempre com poucas palavras. É quase monossilábico. Fala o necessário já para atingir alguém que está na sua mira.

Já o vice Hamilton Mourão, com sua máscara impecável – tem uma do Flamengo – dá seu recado com muitas palavras. Não deixa jornalista sem resposta. Mas sempre procura apaziguar as barbaridades diárias de um governo que segue uma trilha sem conhecer caminho nenhum. Mourão já admitiu que faz muita falta não ter um diálogo com o presidente Bolsonaro. Afirma que, em muitas situações, nem sabe como deve agir sendo vice-presidente da República. Ou vice não serve para nada? Mourão faz sempre questão de dizer que não é um vice decorativo. Isso não! Ele acha que o Conselho da Amazônia, que está sob sua responsabilidade por determinação de Bolsonaro, lhe dá uma certa liberdade de manobra dentro do governo. Mas chegou-se a um ponto em que se fazem reuniões para tratar dos problemas da Amazônia, e Mourão não é chamado. No fundo, isso é uma ofensa. Uma punhalada.

Por tudo isso, Mourão já sabe que não será o vice na chapa de Bolsonaro em 2022. Mas deixa claro que isso não o preocupa em nada. Mesmo que fosse convidado, aceitar ou não dependeria de muita conversa. Seja como for, ele assegura que não disputará nada contra o presidente. E que, por enquanto, não é candidato a nada. É quase certo que hoje o vice terá alguma observação a fazer sobre o novo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, que finalmente tomará posse. Ele já ouviu dizer que Queiroga foi o candidato da família Bolsonaro. Mas ainda nada disse sobre o que pensa sobre isso. Mas dirá. Ninguém do governo disse uma única palavra sobre a morte do senador Major Olimpio, que participou da campanha que elegeu o capitão. Depois de algum tempo, Olimpio e Bolsonaro romperam. No entanto, isso não significa que, até por educação e respeito, o presidente não precisava se manifestar. Não fez.  Já Mourão falou sobre a morte. Afinal, ele é o vice-presidente da República. Disse que o Major sempre foi um homem destemido, corajoso e lutador. Discorreu sobre mais um assunto proibido no governo. Pelo menos tem boa educação.