Mulheres ainda sofrem perseguição sexual de marginais vestidos de terno e gravata

Acusado de assédio por uma funcionária da CBF, Rogério Caboclo representa figura de ‘poderoso’ quase nunca alcançado pela justiça

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 14/06/2021 12h35
Leandro Lopes/CBF/DivulgaçãoCaboclo foi afastado da presidência da CBF após acusação de assédio

Todos os dias há notícias de agressões à mulher. Agressões físicas, morais e também assassinatos. Mas há um tipo de importunação que quase nunca chega ao público, pelo constrangimento e receio de perder o emprego, por exemplo. Aquela admoestação psicológica que deixa a mulher acuada. Trata-se do assédio sexual, uma prática covarde que ocorre com uma frequência cada vez maior. A Copa América está aí. E a Copa América remete a uma figura asquerosa que representa bem esse criminoso que vive nas sombras e que quase nunca, se denunciado, sofre algum tipo de punição. É a figura do presidente afastado da CBF, Rogério Caboclo, que negociou a realização da Copa América no Brasil. Caboclo foi afastado da presidência da CBF por assédio sexual a uma funcionária da entidade do futebol brasileiro. Mais um caso entre tantos outros que não chegam aos jornais, em que mulheres são humilhadas e, às vezes, perdem até o emprego, porque não cederam a esses agressores cada vez em maior número entre nós. Pior é que a ignorância de boa parte da sociedade enaltece essas condutas deploráveis de homens que se julgam donos de tudo, especialmente das mulheres. Acham que todas estão sempre disponíveis. Um caráter criminoso que precisa de uma punição exemplar, de uma vez por todas. Chega de pagar por seus atos insanos com cestas básicas e pequenas multas, enquanto a mulher agredida na sua honra fica com marcas que a acompanharão a vida inteira.

Como sempre, o agressor diante de uma autoridade policial mostra-se como um exemplo de cidadão, dizendo sempre que confia na justiça e que é inocente, mesmo se acusado com provas irrefutáveis. Fosse alguém assediar a filha desse assediador para ver o que aconteceria, especialmente no caso de um malfeitor presidente da CBF, que tratava da Copa América diretamente com o presidente da República. Um “poderoso”, daqueles nunca alcançados pela Justiça. O assédio já vinha acontecendo há muito tempo. Até que a funcionária decidiu gravar algumas conversas com o assediador. Numa ocasião, o ex-presidente da CBF perguntou sobre a vida sexual da funcionária questionando, ao final da conversa, se ela se masturbava. Em outra oportunidade, ofereceu a ela um biscoito de cachorro, para chamá-la de cadela. Rogério Caboclo, como chefe supremo da CBF, exigiu que a funcionária mudasse o modo de se vestir, oferecendo dinheiro para ela comprar roupas novas. Fora isso, insistia sempre em falar sobre sua vida particular com sua mulher, com quem é casado há 26 anos. E entrava em pormenores usando palavrões ao se referir aos órgãos sexuais. A funcionária, então, pedia que parasse de falar. Mas não parava. Dizia que sua mulher ia fazer ginástica e voltava tesuda para casa.

O agressor moral quase sempre oferecia dinheiro para que a funcionária nunca dissesse a ninguém sobre suas propostas indecentes. Mas ela fez o que tinha de fazer: denunciou a indecência que tinha de enfrentar todos os dias. Esse é o machismo que reina em todo lugar. Homens que se aproveitam de sua posição dentro de uma empresa, por exemplo, e se veem no direito de importunar mulheres, casadas ou não, com propostas infames. Isso acontece todos os dias. Quase nada chega a ser denunciado. A mulher é obrigada a se recolher humilhada e tantas vezes chega a levar a culpa por usar roupas provocativas, no dizer nos canalhas. Esse é mais um retrato de violência silenciosa. A mulher, que é uma vítima de parceiros e maridos covardes, ainda sofre essa perseguição sexual de verdadeiros marginais que se vestem de terno e gravata e ocupam lugar de destaque na sociedade. O caso da funcionária da CBF é apenas um caso, só um. O assédio sexual do homem contra a mulher ocorre aos milhares. É um jogo perverso, em que a mulher é sempre a perdedora, infelizmente. Uma questão que precisa ser debatida e não mais tratada no silêncio, como tem sido. A violência não significa apenas pegar uma arma e dar um tiro em alguém. A violência também é essa delinquência de todos os dias. Tem que se dar um basta nisso.