Por que a urna eletrônica merece tanto crédito no Brasil?

Deixei de ter fé no equipamento depois de um almoço com Leonel Brizola; hoje em dia, qualquer menino ou menina de 4 anos faz o que bem entende com esses números digitais, apenas com um celular qualquer

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 18/11/2020 11h07 - Atualizado em 18/11/2020 12h46
Mourão Panda/Estadão ConteúdoUrna eletrônica está no centro dos debates das eleições municipais de 2020

Dia 29 tem mais. O segundo turno. Quase tudo tem um segundo turno, quando as coisas se resolvem. E quase sempre, próximo a uma eleição, um certo assunto é lembrado. Afinal, a urna eletrônica é confiável? Eu não ponho muita fé. E não ponho muita fé não porque seja um especialista no assunto. Não. É por ver o que ocorre atualmente nessa área. Chega a ser inacreditável. Entram na vida de uma pessoa com a maior facilidade. Descobrem atalhos para conhecer segredos e a informática não consegue guardar com segurança absoluta. Não consegue. O que aconteceu na eleição de domingo, 15, mostra bem que esses números digitais estão na mira dos mal intencionados. Houve um ataque cibernético aos sistemas da Justiça Eleitoral. O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Luís Roberto Barroso, está aflito. Fala pausadamente, mas está aflito. Já pediu à Polícia Federal a abertura de um inquérito para apurar o ataque, que foi denominado “negação de serviço com milhares de tentativas de acesso simultâneas”. O ataque consistiu em 436 mil conexões por segundo com o objetivo de derrubar o sistema do TSE. E mais: Esses ataques partiram do Brasil, Estados Unidos e Nova Zelândia. Mas os mecanismos do tribunal conseguiram barrar.

Faz alguns dias, uma frase do presidente Jair Bolsonaro, dita no meio de uma live, começou a causar um certo alvoroço nas coisas brasileiras. Bolsonaro sempre afirmou ser contra o uso de urna eletrônica nas eleições. E ainda garantiu que em 2022 vai ser cédula de papel, como era antes. Foi de leve. Bolsonaro jogou a frase. E, por causa da frase, o presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ) não anda dormindo bem. Bolsonaro assegura que vai acabar com a urna eletrônica por falta de confiança. Até porque, hoje, qualquer menino ou menina de 4 anos faz o que bem entende com esses números digitais, apenas com um celular qualquer nas mãos. Por que a urna eletrônica deverá merecer tanto crédito, ainda mais no Brasil, uma terra de raposas políticas das mais perigosas? O presidente do TSE garante que o voto impresso seria um retrocesso. Não sei. Deixei de ter fé na urna eletrônica há muito tempo, num almoço para o qual o então governador Leonel Brizola me convidou, no Rio de Janeiro. Eu era admirador de Brizola. Sempre fui. Naquele encontro, ele me deu uma lição sobre a Rede Globo de Televisão e também sobre as urnas eletrônicas. Uma lição. Desde então, a urna eletrônica, para mim, passou a ser observada com desconfiança. Mas eu sou meio louco, está certo. No entanto, sempre cliquei naquela máquina com o pé atrás. Palavras do presidente do TSE: “Retornar ao voto impresso é um retrocesso, é como comprar um videocassete. Meu único incômodo com as urnas é o custo. Temos R$ 500 mil, custam R$ 700 milhões, a cada eleição temos de trocar 100 mil urnas”. Bem, e daí? E daí, ministro? Bolsonaro observa que os estudos para mudar tudo em relação às eleições de 2022 já estão adiantados: “Queremos, no ano que vem, mergulhar na Câmara e no Senado para que a gente possa realmente ter um sistema eleitoral confiável em 2022”.

Em todo o mundo, mais de 30 países utilizam a urna eletrônica para captação e apuração dos votos. O levantamento é do Instituto Internacional para a Democracia e a Assistência Eleitoral (Idea Internacional), com sede em Estocolmo, na Suécia. Vale lembrar aqui a ministra Rosa Weber, do Superior Tribunal Federal (STF), quando foi presidente do TSE, ao afirmar que a falta de segurança nas urnas eletrônicas é descolada da realidade. “As pessoas são livres para expressar a própria opinião. Mas quando essa opinião é desconectada da realidade, nós temos que buscar os dados dessa realidade. Para mim, as urnas são absolutamente confiáveis”, disse a ministra. Muitas empresas internacionais que lidam com esse assunto afirmam que a urna eletrônica não está conectada à internet, de modo que não é possível a atuação de hacker sobre ela. É mesmo? Eu não ponho fé nisso. E faz tempo. Desde que começou. Quando foi eleito em 2018, Bolsonaro afirmou que a eleição foi fraudada, embora tenha sido eleito. Nunca apresentou as provas que prometeu. Nem vai apresentar coisa nenhuma. Bolsonaro diz até hoje que, se não tivesse havido fraude em 2018, ele teria sido eleito já no primeiro turno. Não sei. O PT é um partido morto, com um líder que esqueceu que o tempo passou, traidor da própria vida. É o adversário que qualquer um deseja numa eleição. Seja como for, Bolsonaro já deu o ar de sua graça. A discussão sobre a utilização da urna eletrônica já faz parte do roteiro da angústia brasileira. E essa discussão vai render muito.