Regina Duarte é ignorada por artistas que não a perdoam por suas posições ideológicas

Atriz nunca escondeu suas convicções e agiu com consciência do que estava fazendo quando foi secretária do governo Bolsonaro, mas ninguém tem o direito de condená-la por isso

  • Por Álvaro Alves de Faria
  • 01/09/2021 12h54
Alan Santos/PRRegina Duarte foi secretária especial de Cultura do governo Bolsonaro de março a maio de 2020

A atriz Regina Duarte certamente vive os dias mais amargos de sua vida devido à sua posição política. Não é justo. A própria democracia dá às pessoas o direito de escolher o rumo que quiserem nas questões ideológicas pessoais. Humilhada como foi pelo presidente Jair Bolsonaro, Regina Duarte está condenada, como se alguém tivesse esse direito de condená-la. Pelo menos eu penso assim, porque não sou patrulheiro. Regina decidiu ir ao Teatro Petragold, em São Paulo, neste final de semana, para prestigiar a estreia da peça “A vida passou por aqui” e foi simplesmente ignorada pelos atores presentes e até pelos artistas do elenco. Foi recebida apenas pela autora da peça, Cláudia Mauro. Ninguém se aproximou para um cumprimento qualquer. A plateia também se manifestou, demonstrando contrariedade com sua presença. Afinal, o que fez Regina Duarte?

Essa angústia vem de longe, desde quando começou a se manifestar contra a esquerda, especialmente contra Luiz Inácio da Silva. Uma esquerda que ainda tem Lula como líder tem que ser uma esquerda bem vagabunda. Mas vagabunda mesmo. A esquerda civilizada quer distância de Lula, ex-presidiário por corrupção, solto por uma manobra vergonhosa do Supremo Tribunal Federal. Quanto à Regina Duarte, a gota d’água ocorreu quando Bolsonaro convidou a atriz para ser a secretária de Cultura de seu governo, substituindo o secretário Roberto Alvim, o quarto que passava pelo cargo na época. Alvim foi exonerado do governo depois de ofender a atriz Fernanda Montenegro e gravar um vídeo com trechos idênticos aos pronunciamentos do ministro de Propaganda de Adolf Hitler, Joseph Goebbels, num ambiente igualmente ao usado pelo nazista. Aí não deu para segurar. Roberto Alvim teve de deixar o governo sob pressão da sociedade. E então entrou em cena Regina Duarte, 74 anos, 50 deles vividos na TV Globo. Foi convidada para ser a nova Secretária de Cultura, mas esmagada por Bolsonaro em cenas humilhantes. Seu inferno astral absoluto começou aí.

Tudo piorou de vez quando foi entrevistada pela CNN Brasil, ocasião em que todas suas respostas foram irônicas, chegando até mesmo a cantar a música celebrizada na ditadura militar e fazer pouco caso sobre a tortura. Aí também foi demais. É provocar demais. Regina Duarte também acabou exonerada com a promessa de que seria a nova presidente da completamente abandonada Cinemateca. Nunca foi presidente de nada e começou a sofrer o descaso da classe artística. Por ideologia, enterrou sua vida. Mas não é justo. Cada um escolhe o caminho que quiser. No entanto, não foi assim com Regina Duarte, que desde a campanha de Lula em 2002 se indispôs com sua categoria e passou a ser evitada por grande parte dos artistas. Mas agora chegou-se a um final nada feliz. Final feliz, só nas novelas da Globo. Na vida real, Regina Duarte experimenta a amargura de simplesmente ser uma atriz ou uma ex-atriz totalmente descartada da vida cultural brasileira. Ela nunca escondeu suas convicções e agiu com consciência do que estava fazendo. Um final triste. Regina Duarte caminha mesmo para o esquecimento, ignorada pelos artistas que não a perdoam por suas posições ideológicas, batendo de frente com todo mundo. Chegou-se a isso. Parece mesmo um caminho sem volta. É bem verdade que exagerou, como muitos exageram o tempo todo. Significa que para não ser ignorada como está sendo precisa ser de esquerda. Não é isso que pede a democracia. Pode-se dizer sem erro que Regina Duarte é coisa do passado. Não existe mais nas cenas atuais do teatro e da TV do Brasil.