Burra de carga (mental): o peso que nossas mentes carregam no dia a dia

Fazer sua filha botar o aparelho é fácil; a encrenca é perguntar nos grupos de mães se alguém conhece um bom ortodontista, escolher o modelo, convencê-la a deixar o tio fazer o molde e negociar alguma coisa na banca, rezando para ser um picolé

  • Por Bia Garbato
  • 30/03/2022 09h00
Freepik Jovem dona de casa frustrada com um olhar de farto doloroso, franzindo a testa e tapando os ouvidos com os dedos, sendo estressada com crianças barulhentas Dar o antialérgico para a criança e mandar colocar o aparelho são tarefas simples; a questão maior é o que aconteceu até chegar esse momento

O mais importante não é o marido dar o antialérgico para a criança e mandar colocar o aparelho. A questão maior é perceber que a criança está com a rinite atacada, limpando o nariz na manga do casaco e apontando o lápis pra coçar os ouvidos. Aí é hora de marcar o otorrino infantil, buscar sua filha mais cedo na escola (não esqueça de avisar a secretaria antes), levar no Campo Belo e ainda enfrentar a menina apertando as narinas para a médica não enfiar o caninho da câmera. Em seguida, é preciso comprar os remédios que, é claro, estão em falta na Drogaria São Paulo. Agora é só calcular os 15 dias nos quais ela tem que tomar o antialérgico, pingar o Nasonex e organizar os horários de tomá-los: de manhã, na hora do almoço (opa, vai ter que ligar para a enfermaria da escola) e antes de dormir. Ou seja, colocar o xarope na boquinha da criança é só a ponta do iceberg.

Agora, o aparelho. Fazer a sua filha botar aquele treco babado na boca é fácil. Ainda mais quando a gente grita para o papai: “Não esquece de botar o aparelho na Laurinha”. A encrenca é perguntar para todos os grupos de mães se alguém conhece um bom ortodontista e rachar a cabeça para decidir se irá de invisiline ou da tradicional tortura aramada. Tem que levar sua filha na consulta, convencê-la a deixar o tio fazer o molde, o que, inevitavelmente, vai dar ruim. Você vai acabar prometendo passar na banca para ela escolher alguma coisa, rezando para ser um picolé. Mas, acredite, não vai ser só um Frutilly. Aí tem que parcelar o aparelho e fazer cara de choro quando souber que ainda tem a mensalidade. Agora é só tentar obrigá-la a usar, ameaçar cortar o iPad se ela perdê-lo na escola e ir todas às terças no dentista apertar o aparelho. Resumindo: é bom que ela sorria bastante e que o seu marido passe a por um alarme no celular para lembrar de enfiar o aparelhinho na boquinha da Laurinha.

E no Natal? Depois de todo o caos do fim do ano, chega a noite da rabanada. Ao fim da ceia, trocamos os presentes. Nosso sobrinho, muito educado, vem agradecer a mim e ao tio pela lembrança que ganhou. Meu marido responde carinhoso: “Que é isso, meu querido, você merece”. Em seguida é a vez da avó do meu esposo agradecer pelo mimo que recebeu. Meu marido: “Imagina, vó, espero que a senhora use bastante”. O detalhe é que ele não tem a menor ideia do que demos para o menino, que pode ter sido um livro ou um cigarro de maconha. E a vovó pode ter recebido uma vela aromática ou, quem sabe, um consolo. Esse com certeza ela vai usar.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.