Vai dar m****: O perigo de acreditarmos em todos os nossos pensamentos

Você pega o resultado do exame, não resiste, abre e lê: pólipo oblíquo desconexo impávido taciturno; joga na internet, junta algumas informações aleatórias e conclui que boa coisa não deve ser

  • Por Bia Garbato
  • 10/11/2021 09h00
FreepikMesmo o mais otimista dos seres, em determinado momento, pensa, mesmo que sem grandes evidências: #vai_dar_merda

Somos catastrofistas natos. Em maior ou menor grau. Mesmo o mais otimista dos seres, em determinado momento, pensa, mesmo que sem grandes evidências: #vai_dar_merda. A verdade é que sofrer por antecedência é sofrer à toa. A burrada clássica. Pega o resultado do exame, não resiste, abre e lê. Tá lá: pólipo oblíquo desconexo impávido taciturno. Por um segundo tenta decifrar aquilo como se fosse sudoku. Obviamente, não chega a lugar nenhum. Joga na internet. Junta algumas informações aleatórias e conclui que boa coisa não deve ser. Tenta pensar nas férias, mas uma voz sopra insistentemente em seu ouvido: #vai_dar_merda. Só que a consulta com aquele médico concorrido é dali a uma semana.

Com muita aflição, começa a ligar pros filhos. Se emociona ao dizer que tem 95% de chance de estar com uma doença grave (porcentagem estabelecida pela sua infalível intuição). Preocupados, eles lhe visitam (ai se não visitassem). Com os olhos fechados, dá um abraço apertado em cada um. Sabe-se lá até quando poderá fazer isso. Não dorme, imaginando seu triste futuro. Seu par até tenta amenizar, mas ela pede, com um certo aborrecimento, que ele tenha mais respeito pelo que está passando. Ele acha mais prudente se calar. Posta no Instagram um vídeo emocionante chamado: “Não estaremos aqui para sempre”.

Chega o fatídico dia. Aperta forte a mão do cônjuge, não sabe se vai aguentar. O médico chama pelo nome. Com o semblante abalado, se senta na cadeira. Com os olhos bem abertos e ligeiramente pendendo para frente, espera com ansiedade o doutor ler calmamente os exames. Ele finalmente dá o diagnóstico: “Tá tudo bem”. Fica em silêncio, depois pergunta de forma intrigada: “Oi? E o pólipo”? O médico: “Ah, isso? Não é nada”. Pergunta: “Mas é grave, doutor”? Ele repete um pouco impaciente: “Não”. Insiste: “Mas é caso cirúrgico”? Ele respira fundo e responde incrédulo: “Definitivamente, não”. Cai num pranto. Tem coisas que não são fáceis de ouvir.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.