Morte do filósofo Olavo de Carvalho irriga a maturação de sua obra maior

O legado real, genuíno e mais profundo de um filósofo está em sua capacidade de fazer de almas frágeis ou perdidas consciências despertas e, consequentemente, fortes e livres

  • Por Bruna Torlay
  • 28/01/2022 09h00
Reprodução/YouTube/Olavo de Carvalho Olavo de Carvalho em frente à sua biblioteca com as mãos entrelaçadas O filósofo Olavo de Carvalho morreu na última segunda-feira

Desde que Olavo de Carvalho organizou seu último e mais perfeito projeto educacional de longo prazo no Brasil, o célebre COF (Curso Online de Filosofia), o nosso cenário intelectual nunca mais foi o mesmo. Hoje, mais de uma década de trabalho depois, vemos uma mistura de safras relativamente maduras acrescidas de canteiros de flores isolados colorindo a paisagem da cultura, que viveu uma aridez desgraçada por pelo menos três ou quatro décadas. A alta cultura já não está morta entre nós, e sua restauração se opera lentamente por talentos individuais em áreas diversas, muitos dos quais herdeiros diretos do filósofo, falecido no último 24 de janeiro.

Poderíamos dividir as realizações concretas diretamente ligadas ao filósofo em três frentes: a) produção e circulação de material; b) produção literária autoral; c) verve retórica aplicada ao debate político. A primeira avançou particularmente bem, graças ao talento administrativo dos proprietários do grupo editorial Cedet, responsável por selos editoriais que publicam obras nos mais diversos campos da cultura. Hoje, o empreendimento é um sucesso, conta com inúmeros parceiros e alterou significativamente o panorama editorial brasileiro. Como explica Silvio Grimaldo, membro do conselho editorial do grupo, Olavo reclamava do “muro de livros” que era preciso publicar e fazer circular no Brasil para que a percepção da realidade pudesse ser reequilibrada. Muitas correntes filosóficas e autores clássicos já não circulavam entre nós. Escritores de envergadura internacional como Gustavo Corção, Octavio de Faria e José Geraldo Vieira, por exemplo, estavam relegados ao esquecimento. Hoje, o escritor inglês G. K. Chesterton, reintroduzido ao público brasileiro por Olavo, é um campeão de vendas.

Ainda no tópico da produção e circulação de materiais, temos hoje inúmeros cursos sendo ministrados Brasil afora por cultores de uma vasta bibliografia que fora deixada de lado, em virtude do patente predomínio das correntes nascidas do pensamento iluminista no debate universitário e intelectual dos anos 90 para cá. Esse conhecimento se transmite por livre iniciativa de professores e audiência envolvidos, sem determinação (ou restrição) da burocracia universitária, que pôs a perder o vínculo entre academia e sociedade. Meios de comunicação diários, semanais ou mensais somam-se a essa frente, cujo alcance se revela na formação de uma nova audiência, que passa cada vez mais a exigir de grupos e emissoras tradicionais a absorção da cosmovisão conservadora.

Quanto à segunda frente, relacionada à produção literária, talentos distintos começam a despontar. O escritor Yuri Vieira lidera, em tempo de dedicação a esse campo, um grupo formado por Diogo Fontana, Luiz César de Araújo, Alexandre Soares Silva e Fábio Gonçalves, para citar alguns. O cronista mais hábil e talentoso atualmente em atividade, Paulo Briguet, integra esse grupo, ainda que tenha um pé aqui e outro na terceira frente acima indicada: a verve retórica aplicada ao debate político. Nessa frente, urge uma depuração, uma vez que o nível do debate anda mal das pernas, e tal contexto abre espaço para toda uma leva indiferenciada de gente que apenas o tempo saberá esquecer aqui ou reconhecer ali. Ainda assim, o debate já não é o mesmo no Brasil e a coragem com que Olavo de Carvalho atuou nele ao longo de sua vida estabeleceu um exemplo imbatível.

Evidentemente, o legado de um filósofo vai muito além da aparência; considerando as frentes cuja aparência descrevi acima. O legado real, genuíno e mais profundo está em sua capacidade de fazer de almas frágeis ou perdidas consciências despertas e, consequentemente, fortes e livres. Era o que fazia Sócrates, cujo legado foi repensar a direção da própria filosofia grega. As milhares de vidas transformadas pelo controverso e genial ser humano que deixou esta breve vida em direção a uma melhor na última segunda feira; essas milhares de vidas salvas, seja por uma primeira tomada de consciência de si, seja pela conversão religiosa e recuperação da fé, formam o quadro de sua obra maior, radicada na essência do cristianismo – uma caminhada pessoal francamente orientada por Jesus Cristo. Que os detratores de Olavo mordam as línguas; o desbocado professor, para além de escritor exímio, reformador da cultura e satirista impagável, foi mesmo um irrigador de corações.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.