Divisão democrata pode colocar republicanos na liderança do estado mais azul dos EUA

Em 2026, a eleição para governador pode ser menos previsível do que o padrão histórico sugere

  • Por Eliseu Caetano
  • 06/02/2026 08h36
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JUSTIN SULLIVAN / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP Gavin Newson Gavin Newson

A corrida para a eleição de governador da Califórnia em 2026 se tornou uma das mais imprevisíveis da política estadual em décadas. Com o atual governador, Gavin Newsom, impedido de disputar a reeleição por limites de mandato, o campo de candidatos cresceu de forma ampla e fragmentada, principalmente entre os democratas, criando espaço para possibilidades eleitorais raras em um estado historicamente dominado pelo Partido Democrata.

A Califórnia realiza suas eleições para governador usando um sistema de primária chamado “top-two”, no qual todos os candidatos aparecem na mesma votação em junho e apenas os dois mais votados avançam para a eleição geral em novembro, independentemente de seus partidos. Isso significa que em um campo dividido, como o atual, é matematicamente possível que dois candidatos de um mesmo partido — ou até dois republicanos — cheguem à disputa final, se votos de um grande bloco político forem dispersos entre muitos concorrentes.

Até o momento, nenhum candidato emergiu como favorito claro nas pesquisas — e grande parte dos eleitores permanece indecisa, com pesquisas anteriores indicando que uma parcela significativa dos eleitores ainda não tem preferência firmada. Em um levantamento divulgado em 2025, mais de 30% dos eleitores registrados disseram não apoiar nenhum candidato específico, com principais nomes à frente com percentuais no início dos dois dígitos.

O campo de candidatos já registrados para a primária inclui figuras estabelecidas tanto do Partido Democrata quanto do Partido Republicano. Entre os democratas, estão nomes com experiência política e perfis variados:

• Katie Porter, ex-congressista do Partido Democrata conhecida por sua postura crítica em audiências legislativas e foco em questões econômicas;
• Xavier Becerra, ex-secretário de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos e ex-procurador geral da Califórnia, que enfrenta atenções sobre questões éticas envolvendo um assistente;
• Eric Swalwell, congressista com experiência como gerente de impeachment no caso contra o ex-presidente Trump;
• Antonio Villaraigosa, ex-prefeito de Los Angeles com forte ligação ao establishment do partido;
• Betty Yee, ex-controladora do estado com foco em finanças públicas;
• Tony Thurmond, superintendente de ensino público do estado;
• Ian Calderon, ex-líder da maioria na Assembleia Legislativa da Califórnia;
• Matt Mahan, prefeito de San José que entrou mais recentemente na disputa;
• Tom Steyer, bilionário e ativista climático — embora não tenha ocupado cargo público, tem investido pesado em sua campanha;

Do lado republicano, no estado onde o Partido Republicano não vence uma eleição ampla desde meados dos anos 2000, também há candidatos tentando capitalizar essa oportunidade:

• Steve Hilton, comentarista político e ex-apresentador de televisão, que liderou a arrecadação de fundos entre candidatos republicanos no ciclo recente;
• Chad Bianco, xerife do Condado de Riverside alinhado a eleitores conservadores;

A campanha também já teve seus primeiros debates entre candidatos, realizados em San Francisco, onde figuras dos dois partidos discutiram temas centrais como custo de vida, moradia, políticas ambientais e soluções para desafios urbanos.

Especialistas observam que o tamanho do campo democrata, com múltiplos candidatos competindo por votos similares, pode enfraquecer a probabilidade de um candidato do Partido Democrata obter um placar claro na primária, abrindo brechas para que candidatos republicanos com bases de apoio mais concentradas se posicionem entre os mais votados.

Isso não significa que os republicanos tenham vantagem garantida — o eleitorado da Califórnia ainda tende a registrar uma maioria de democratas —, mas o sistema eleitoral e a dispersão de votos tornam o resultado menos previsível do que era em eleições anteriores quando havia um claro favorito.

Analisaram ouvidos pela coluna apontam que a janela republicana não depende de uma “virada ideológica” na Califórnia, mas sim de um efeito matemático e eleitoral causado pela divisão democrata. Ou seja, não seria necessariamente um crescimento massivo do eleitorado conservador, e sim uma eleição em que os democratas se anulam entre si na primeira etapa.

Além do fator estrutural, a corrida ocorre num momento em que temas cotidianos têm pesado no humor do eleitorado. O custo de vida segue como um dos principais desafios, com preços altos de moradia, aluguel e serviços em grandes áreas metropolitanas. A crise dos sem-teto continua como assunto permanente, especialmente em cidades como Los Angeles, San Francisco e San José. Segurança pública e sensação de desordem urbana também entraram no centro do debate político, frequentemente explorados por candidatos que defendem políticas mais duras de aplicação da lei. E, ao mesmo tempo, o estado mantém o papel de liderança nacional em políticas climáticas, o que alimenta disputas internas sobre metas ambientais, transição energética e impacto econômico.

Essa combinação de pressão social e campo político fragmentado já começa a alterar o comportamento do Partido Democrata. Nos bastidores, cresce o debate sobre a necessidade de “afunilar” a disputa, com possíveis desistências ou alianças, para evitar que a eleição vire um jogo de soma zero entre candidatos do próprio partido. Até agora, porém, não há um movimento oficial de unificação, e cada campanha tenta se posicionar como a alternativa mais viável para enfrentar os problemas do estado.

Outro elemento relevante é a falta de um favorito absoluto. Pesquisas citadas por veículos locais e institutos mostram altos níveis de indecisão, um padrão comum em eleições sem incumbente e com muitos nomes pouco conhecidos fora de suas regiões. Esse dado reforça a percepção de que o eleitorado ainda está em formação e que a disputa pode mudar rapidamente conforme arrecadação, debates e endossos políticos se consolidem.

O calendário eleitoral também dá ritmo ao jogo. A primária está marcada para 2 de junho de 2026, e a eleição geral para 3 de novembro de 2026. Até lá, a tendência é de uma corrida intensa por financiamento, apoio de sindicatos, alianças com lideranças locais e exposição na mídia. Em um estado onde campanhas são extremamente caras, a capacidade de arrecadar e construir estrutura de comunicação pode ser tão decisiva quanto a força do nome.

Para os republicanos, a meta é clara: reduzir a disputa a um cenário em que dois nomes do partido consigam ficar entre os dois primeiros, aproveitando o excesso de candidatos democratas. Para os democratas, o risco é real: manter um campo amplo demais até perto da primária pode abrir espaço para um resultado inesperado, não necessariamente por mudança no eleitorado, mas por uma falha de coordenação interna.

A Califórnia continua sendo, no conjunto, um estado com vantagem democrata. Mas, em 2026, a eleição para governador pode ser menos previsível do que o padrão histórico sugere. E, justamente por isso, está sendo acompanhada de perto por estrategistas nacionais, que veem no estado não apenas uma disputa local, mas um teste político de como sistemas eleitorais, fragmentação partidária e temas do cotidiano podem produzir resultados surpreendentes mesmo nos territórios mais consolidados.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.

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