‘Doutrina do Barril’: A Venezuela pós-Maduro já fala a língua de Trump

A cena em Caracas, nesta segunda-feira (5), tem algo de virada de página e de roteiro já conhecido

  • Por Eliseu Caetano
  • 06/01/2026 09h28 - Atualizado em 06/01/2026 09h31
  • BlueSky
TOMAS CUESTA / AFP Um homem segura uma pintura que retrata o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante um protesto contra a intervenção dos EUA na Venezuela, em Buenos Aires, em 5 de janeiro de 2026. O ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro se declarou inocente das acusações de tráfico de drogas e outros crimes em uma aparição desafiadora em um tribunal de Nova York em 5 de janeiro, dois dias depois de ser detido por forças americanas em uma operação surpreendente em sua casa em Caracas. Um homem segura uma pintura que retrata o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante um protesto contra a intervenção dos EUA na Venezuela

Delcy Rodríguez, até então vice-presidente e também ministra do Petróleo, foi empossada como presidente interina, com a solenidade conduzida pelo irmão, Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional. O detalhe familiar, longe de ser folclore, é o coração do recado: a Venezuela pode ter mudado o rosto no topo, mas o comando segue no mesmo círculo de poder – agora calibrando o discurso para sobreviver à nova correlação de forças.

E o contexto não poderia ser mais explosivo: Nicolás Maduro foi capturado por forças americanas e levado aos Estados Unidos para responder na Justiça, segundo relatos de agências e veículos internacionais. A partir daí, a retórica em Caracas passou a alternar entre soberania e pragmatismo – com Delcy buscando demonstrar “independência” interna enquanto abre uma porta, ainda que estreita, para Washington.

Esse movimento tem nome e preço. Chama-se petróleo.

Venezuela é dona das maiores reservas provadas do planeta, estimadas em 303 bilhões de barris – um número gigantesco que contrasta com a realidade de produção atual, muito menor do que já foi. O país, que no fim dos anos 1990 produzia mais de 3,5 milhões de barris/dia, hoje patina para ficar abaixo de 1 milhão em muitos momentos recentes, segundo estimativas e análises de mercado citadas na imprensa internacional.

É aqui que entra a Casa Branca, e entra com botas no chão e com contratos na mão.

Donald Trump afirmou que empresas americanas estariam “muito envolvidas” na reconstrução do setor petrolífero venezuelano após a queda de Maduro, e o debate em torno de uma reentrada de gigantes do petróleo – num país onde expropriações e insegurança jurídica espantaram investidores por anos – voltou ao centro da geopolítica regional.

O que Delcy e Jorge Rodríguez fazem, na prática, é um ajuste fino: não se trata de “virar pró-EUA” por convicção, mas de sinalizar governabilidade suficiente para reduzir isolamento, aliviar constrangimentos sobre o petróleo e destravar algum tipo de normalização externa.

A própria imprensa britânica registrou a mudança de tom de Delcy: da defiança para uma fala mais conciliatória, após advertências de Trump sobre consequências caso não houvesse cooperação.

Não é “submissão” em documento timbrado, é sobrevivência política em tempo real.

E, se alguém tinha dúvida de quão profunda é a crise que empurra Caracas para esse pragmatismo, basta olhar o tamanho do estrago humano: quase 7,9 milhões de venezuelanos deixaram o país e vivem como refugiados e migrantes pelo mundo, segundo dados compilados pelo ACNUR com base em informações governamentais. É uma diáspora de escala histórica para a região – e um indicador brutal do colapso do pacto social.

No plano econômico, o Fundo Monetário Internacional e análises associadas descrevem uma queda rara fora de guerras: estimativas do próprio FMI apontam contração de mais de 75% do PIB real entre 2013 e 2021 em avaliações sobre a crise venezuelana, e o país segue convivendo com inflação em patamares extremos em suas projeções e séries.

Dito de outra forma: sem petróleo fluindo e sem dinheiro entrando, não há Estado que se sustente – nem regime que se mantenha de pé apenas com discurso anti-imperialista.

Por isso, a “abertura ao Ocidente” dos irmãos Rodríguez (com “s” no plural e com “R” maiúsculo mesmo: Delcy e Jorge) deve ser lida como um gesto calculado. Eles tentam vender, simultaneamente, duas mensagens:

1. Para dentro, a continuidade do chavismo, a preservação dos quadros e o controle da transição;
2. Para fora, a promessa de previsibilidade mínima para que Washington (e seus aliados e empresas) aceite conversar.

A agência Associated Press descreveu justamente esse esforço de Caracas em “parecer” funcionando sem controle americano, ao mesmo tempo em que busca alguma forma de cooperação e estabilidade após a operação que removeu Maduro — uma contradição que virou método.

E há um segundo elemento, mais incômodo: a Venezuela não está só negociando com a diplomacia; está negociando com a lógica política doméstica dos EUA.
Quando Trump fala em petróleo, ele fala para o bolso do eleitor, para a indústria, para a narrativa de força. Quando os Rodríguez respondem com “cooperação” e “agenda comum”, respondem não por afinidade, mas por cálculo: é a linguagem de quem sabe onde está o botão que liga e desliga sanções, licenças e acesso a mercados.

No fim, o que se desenha é uma espécie de “Doutrina do Barril”: a transição venezuelana não será julgada apenas por eleições – será julgada por quantos barris voltam ao mercado, com quais garantias, e sob qual guarda-chuva político. O resto – discursos, cerimônias, juramentos e símbolos — vira moldura.

A pergunta que fica, então, não é se os irmãos Rodríguez “obedecem” a Trump no sentido literal. PetróleoA pergunta é pior: quantas decisões centrais de Caracas passarão a ser tomadas olhando primeiro para Washington e só depois para os venezuelanos? Porque, quando a sobrevivência do poder depende da torneira do petróleo e da chave das sanções, a soberania vira uma palavra que se declama… enquanto se negocia.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.

  • BlueSky

Comentários

Conteúdo para assinantes. Assine JP Premium.