Em tempos de IA, o jornalismo continua indispensável
Em um mundo onde máquinas produzem textos em segundos, imagens realistas e vídeos falsos com impressionante precisão, o valor do jornalismo não diminui – ele se redefine e se fortalece
Em meio ao avanço acelerado da inteligência artificial, volta e meia surge a pergunta: o jornalismo ainda é necessário? A resposta não apenas é “sim”, como talvez nunca tenha sido tão urgente reafirmar o papel do jornalista na sociedade.
Em um mundo onde máquinas produzem textos em segundos, imagens realistas e vídeos falsos com impressionante precisão, o valor do jornalismo não diminui – ele se redefine e se fortalece.
A inteligência artificial ampliou a velocidade da informação, mas também multiplicou os riscos. Nunca foi tão fácil fabricar versões alternativas da realidade, distorcer fatos, tirar falas de contexto ou criar narrativas completamente falsas com aparência de verdade. Nesse cenário, o jornalista deixa de ser apenas um transmissor de notícias para assumir, de forma ainda mais clara, o papel de mediador da verdade pública: alguém que apura, contextualiza, checa, confronta interesses e assume responsabilidade ética pelo que publica.
Fazendo um paralelo com outras profissões, é como imaginar que a calculadora acabou com o trabalho do matemático, ou que os softwares de diagnóstico tornaram o médico dispensável. Pelo contrário: essas ferramentas ampliaram a capacidade técnica, mas não substituíram o julgamento humano, a experiência, a empatia e a responsabilidade profissional. Da mesma forma, a IA pode apoiar o jornalismo – analisando grandes volumes de dados, automatizando tarefas repetitivas ou auxiliando na visualização de informações – , mas não substitui a apuração no território, a escuta sensível das fontes nem o compromisso com o interesse público.
O jornalismo segue sendo acionado diariamente para cobrir guerras, crises climáticas, disputas políticas, decisões econômicas e transformações sociais profundas. Quando tudo parece ruído, é o trabalho jornalístico que organiza o caos informativo e ajuda o cidadão a compreender o que está em jogo. Em tempos de excesso de dados, o problema já não é a falta de informação, mas a dificuldade de distinguir o que é relevante, verdadeiro e confiável.
Além disso, o combate à desinformação e às fake news tornou-se uma das missões centrais do jornalismo contemporâneo. Plataformas digitais aceleram a circulação de boatos, teorias conspiratórias e mentiras deliberadas, muitas vezes impulsionadas por interesses políticos ou econômicos.
O jornalista, nesse contexto, atua como um contraponto essencial: verifica fatos, expõe manipulações e oferece transparência sobre métodos e fontes, algo que algoritmos, sozinhos, não são capazes de fazer de forma ética e consistente.
Há também uma dimensão democrática que não pode ser ignorada. O jornalismo é um pilar da vida pública, fiscalizando o poder, dando voz a grupos historicamente silenciados e registrando a memória coletiva. Mesmo com novas tecnologias, alguém precisa fazer as perguntas incômodas, insistir nas respostas e sustentar o direito da sociedade à informação de qualidade.
Em tempos de IA, portanto, o jornalismo não perde relevância, ele ganha novos desafios e novas responsabilidades. Assim como outras profissões atravessadas pela tecnologia, a saída não está na negação nem no deslumbramento acrítico, mas na integração consciente das ferramentas, mantendo no centro aquilo que nenhuma máquina substitui: o senso crítico, a ética e o compromisso humano com a verdade.
*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.


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