A longevidade dos vinhos espanhóis

Espanha possui uma enorme diversidade de estilos e terroirs, e suas principais regiões vinícolas oferecem exemplos marcantes de vinhos capazes de evoluir graciosamente ao longo dos anos

  • Por Esper Chacur Filho
  • 15/02/2026 07h00
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O saudoso amigo e mestre Paulo Ayres queria prestar uma pequena homenagem ao meu falecido pai e me convidou para um almoço no, também saudoso, Le Coq Hardy (isso faz mais de vinte anos). A homenagem seria abrir um vinho da safra do ano de nascimento do meu pai – 1.919 – e, ainda mais, um vinho que ele apreciava. A escolha do Paulo foi pelo Marques de Riscal Gran Reserva 1.919. Estava à mesa o então e, também, saudoso, Cônsul Geral do Equador Dr. Pedro Kalim Cury e o médico e professor Dr.  Humberto Delboni. Antes do tinto bebemos uma excelente Deutz – L´Amour de Deutz Blanc de Blancs – com mais de vinte anos de idade, se bem me recordo. Aberto o tinto espanhol, com toda pompa e circunstância, pelo exímio sommelier Sr. Onório, para nossa alegria e alguma surpresa, o vinho estava íntegro, perfeito e, mais, com acidez e algum tanino leve; claro, com fruta madura. Sempre acreditei na longevidade dos vinhos espanhóis, mas o fato aqui narrado me fez ter absoluta certeza de que, para vinhos espanhóis estruturados, 30 anos chega a ser pouco.

A longevidade dos vinhos tintos espanhóis é um tema que fascina tanto enófilos experientes quanto consumidores curiosos. Espanha possui uma enorme diversidade de estilos e terroirs, e suas principais regiões vinícolas – Ribera del Duero, Priorat, Navarra e Rioja – oferecem exemplos marcantes de vinhos capazes de evoluir graciosamente ao longo dos anos. Em Ribera del Duero, vinhos elaborados predominantemente com a casta Tempranillo (conhecida localmente como Tinta del País ou Tinto Fino) costumam apresentar grande estrutura tânica, acidez equilibrada e concentração que favorecem um longo potencial de guarda, muitas vezes ultrapassando uma década em boas safras.

]No Priorat, os vinhos assumem uma intensidade e uma profundidade excepcionais, com notas minerais e frutadas que se beneficiam de extensos anos em garrafa; muitos Priorat de alta gama continuam se revelando complexos por 10–15 anos ou mais. Em Navarra, embora tradicionalmente associada a vinhos mais leves, vinhos tintos bem elaborados demonstram evolução elegante em 5–10 anos, especialmente aqueles com maior concentração e manejo cuidadoso de madeira e fruta.

Quando se trata da Rioja, a longevidade dos vinhos tintos está intimamente ligada à tradição local e às práticas de vinificação. A classificação por envelhecimento – Crianza, Reserva e Gran Reserva – é uma referência útil para entender o potencial de guarda dos rótulos. Um Rioja Crianza, geralmente com ao menos dois anos de envelhecimento total (com um mínimo de um ano em carvalho), apresenta taninos mais suaves e prontidão relativamente cedo, podendo evoluir agradavelmente por 3–7 anos após o engarrafamento.  Os Reservas exigem mais tempo de barrica e garrafa (no mínimo três anos de envelhecimento total, com um ano em carvalho), o que se traduz em maior complexidade e capacidade de guarda, muitas vezes mantendo e ganhando camadas aromáticas por 8–12 anos. Os Gran Reserva representam o ápice da tradição Rioja: vinhos que passam muitos anos em carvalho e garrafa (normalmente pelo menos cinco anos de envelhecimento total). Esses vinhos mostram notável capacidade de amadurecimento, com desenvolvimento de nuances terciárias refinadas e persistência, geralmente alcançando seu auge entre 10–20 anos após a colheita, dependendo da safra e do produtor.

Não se pode deixar de mencionar que na Rioja também se produz vinhos brancos de excelente qualidade. Embora a longevidade dos brancos de Rioja seja, em geral, mais curta do que a dos tintos – especialmente nos estilos jovens e frutados – há exemplares fermentados ou envelhecidos em madeira que podem evoluir positivamente por 6–8 anos, desenvolvendo aromas mais complexos de textura e profundidade além dos frescos e cítricos típicos de seus primeiros anos.

Em termos comparativos, os vinhos espanhóis tradicionais, fortemente influenciados por regimes de envelhecimento em madeira e práticas históricas, tendem a oferecer uma longevidade que valoriza a evolução gradual e a expressão complexa ao longo do tempo. Já os estilos mais modernos, que privilegiam extração de fruta, taninos mais polidos e menor intervenção de madeira, muitas vezes proporcionam vinhos deliciosos em sua juventude, com boa concentração e equilíbrio, mas com potencial de guarda que pode ser mais moderado quando comparado ao tradicional. Ambos os estilos têm seu valor, e a longevidade final dependerá não apenas da região e classificação, mas também do estilo de produção e das escolhas do enólogo. Salut!

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.

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