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Esper Chacur Filho

Torrontés: a uva que dá origem a vinhos brancos capazes de surpreender aos mais diversos paladares

No Brasil, alguns vinhateiros se aventuraram pelo caminho de produzir vinhos desta uva; o Crios de Susana Balbo Torrontés, por exemplo, de nariz frutado e seco na boca, vai muito bem com um arroz de polvo

Esper Chacur Filho

A uva vinífera Torrontés é par da Malbec como ícones da viticultura argentina. E, em ambos os casos, superam suas origens. Ressalte-se que esta casta é uma variedade de uva branca de origem espanhola, da região Galiza, muito semelhante à Moscatel com a qual possui parentesco. Desde lá, Galícia, saem vinhos frutados. A uva é cultivada, também, em Portugal e na Bulgária. Ela dá origem a vinhos brancos capazes de surpreender aos mais diversos paladares. É possível encontrar alguns notáveis exemplares desta uva ícone argentino em regiões da Nova Zelândia, claro que com o terroir de lá. Na Argentina, a uva Torrontés é encontrada, principalmente, no Vale de Cafayate, localizado ao norte do país, e na cidade de Salta. Como seus vinhedos são cultivados em grandes altitudes, há forte exposição ao sol e outras intempéries climáticas.

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Com a Torrontés o vinhateiro argentino soube, mais uma vez, integrar a casta às características de solo e clima; diferentemente do que fazem os chilenos que, metendo os pés pelas mãos, insistiram em barricar a Sauvignon Blanc e extrair muito mais fruta do que poderiam, criando seus brancos enjoativos e cheio de arestas. Hoje a casta Torrontés nos entrega dois tipos de vinhos diferentes, os brancos de mesa e os de colheita tardia (late harvest). Os de mesa são ácidos e frutados, e os não passam por barricas são excelentes acompanhantes de frutos do mar. Já os “late harvest” apresentam uma complexidade bem interessante, mesmo os de entrada, equilibrando dulçor, acidez e toques cítricos bem marcantes; mais velhos evoluem para amêndoas e, até, brioche. Os vinhos de mesa desta casta, ao meu ver, são para serem consumidos logo, jovens e refrescados. Os de colheita tardia, por sua complexidade, podem ser consumidos jovens, entretanto evoluem de forma muito interessante se destinados a guarda. No Brasil alguns vinhateiros se aventuraram, positivamente, pelo caminho de produzir vinhos da Torrontés. Vou sugerir alguns, de lá e de cá, que merecem ser provados. E começo por um que desponta em tipicidade, o Crios de Susana Balbo Torrontés, de nariz frutado e seco na boca, vai muito bem com um arroz de polvo.

Já o Salentein Killka Torrontés, apresenta maior complexidade e é uma boa indicação para aqueles que buscam um bom acompanhante para a culinária indiana tradicional, ou mesmo tailandesa. O Sophenia Altosur Reserve Torrontés é um vinho de incrível versatilidade, se dando muito bem com um sashimi ou com uma pizza de muçarela. Por seu turno, um belo exemplar e com complexidade especial é o Gauchezco Torrontés. Dos provenientes de colheita tardia sugiro o Santa Julia Tardio, que tem aromas intensos de fruta madura, mel e frutas secas e, na boca estrutura e acidez balanceada; queijo forte é seu par. O Las Perdices Late Harvest, de Lujan de Cuyo, é daqueles que surpreendem até por harmonizarem muito bem com chocolates. Dos brasileiros, sugiro o interessante Don Guerino Vintage Torrontés, que vem de Alto Feliz – Serra Gaúcha – e acompanha muito bem uma salada de verdes ou uma massa com frutos do mar. Quando se respeita a terra, o clima e o homem, o vinho vem de encontro ao prazer e não correndo atrás do lucro, que, no primeiro viés, deve ser consequência e não objetivo. Salut!

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