Daniela Gonçalves superou infância sem recursos e virou referência: ‘Sou protagonista e faço acontecer’

Criadora da Veraque se formou em administração de empresas, amadureceu profissionalmente em sua temporada no Chile e idealizou o próprio negócio há quatro anos

  • Por Fabi Saad
  • 16/02/2022 10h00
Divulgação Mulher negra de óculos sentada em frente a uma mesa de vidro em um escritório Daniela Gonçalves idealizou a Veraque Treinamento e Desenvolvimento Humano e Organizacional há quatro anos

Nossa mulher positiva da semana é Daniela Gonçalves, idealizadora e consultora de treinamento e desenvolvimento da Veraque. Ela nos conta como iniciou em sua carreira e afirma que o fato de ter tido uma infância sem muitos recursos a fez encarar as dificuldades da vida, batalhar por seu espaço e superar desafios pessoais e profissionais. Se formou em administração de empresas, fez MBAs em gestão mercadológica, elaboração de projetos, análise econômica e gestão empresarial. Daniela literalmente decolou na carreira: de estagiária, assumiu, entre outros cargos, uma posição de gestão com destaque internacional ao viver uma experiência de expatriação. Fez transição de carreira e hoje gerencia o seu próprio negócio.

1. Como começou a sua carreira? Minha carreira começou aos 17 anos, quando iniciei a graduação em administração de empresas e comecei a fazer estágio na área de recursos humanos. Com o passar dos anos, fui me apaixonando cada vez mais pelos desafios que envolviam o ato de gerenciar negócios, pessoas e recursos, e foi aí que me dei conta de que todo este contexto só traria resultados significativos se estivessem alinhados aos aspectos comportamentais. Eis então que, avançando na linha do tempo, constatei que é por meio da conexão entre as pessoas que a “engrenagem gira” e acabei me tornando consultora de treinamento e desenvolvimento humano e organizacional.

Diante deste cenário, lembro com orgulho de todo o caminho que percorri durante 21 anos da minha trajetória profissional. Tive a oportunidade de trabalhar nas áreas de RH e T&D de empresas multinacionais, onde, por meio do trabalho realizado em uma delas, pude conhecer vários Estados do Brasil e diversos países. Também vivenciei uma experiência única: ter sido expatriada e morar por dois anos em Santiago, no Chile, para atuar como head de treinamento da maior empresa aérea da América do Sul. Ali conduzi diretrizes, oriundas de um processo de fusão, a países da América Latina, Estados Unidos e Europa com impacto a aproximadamente 40 mil profissionais de 18 nações e seus territórios. Como resultado, acabei adquirindo amplo conhecimento na condução de projetos transversais que envolveram gestão de mudanças em contexto complexo, dinâmico e globalizado, liderando equipes multiprofissionais em ambiente cultural diversificado e geograficamente disperso.

Outro marco importante em minha trajetória profissional é que há quatro anos assumi o protagonismo da gestão da minha carreira e idealizei a minha própria consultoria, a Veraque Treinamento e Desenvolvimento Humano e Organizacional. Assim, além de especialista em fatores humanos aeronáutico, hoje sou consultora de T&D generalista, atendendo a empresas de diferentes segmentos que almejam aprimorar as habilidades comportamentais de seus staffs. Também sou docente de graduação, pós-graduação, MBA executivo e cursos livres, palestrante, articulista, mentora de carreira e liderança. E tem mais: como adoro imaginar o futuro, atuo como membro do Grupo de Excelência em Processo Prospectivo e Construção de Cenários (GEPC) do Conselho Regional de Administração de São Paulo (CRA-SP). Pela Veraque, também sou voluntária em projetos sociais corporativos e acadêmicos direcionados ao desenvolvimento de jovens talentos e ao empoderamento feminino. Por fim, me considero uma profissional que está sempre se adaptando, aprendendo e se reinventando.

2. Como é formatado o modelo de negócios da Veraque? Antes de responder a essa pergunta, gostaria de comentar que, quando idealizei a minha consultoria, pensei em um nome que fosse considerado transversal a qualquer segmento, estrutura, cultura ou core business e, de preferência que estivesse embasado em alguma habilidade a qual considero vetor de evolução humana e transformação da sociedade. Eis então que surge a Veraque, que do latim, se traduz aos demais idiomas como empatia – popularmente definida como a capacidade de se colocar no lugar do outro. Com base em experiências de vida pessoal, conexões profissionais realizadas pelo mundo e estudos relacionados ao tema, acredito que a empatia seja uma crescente e inevitável evolução humana, e possa ser considerada como suporte para qualquer tipo de relacionamento em uma sociedade colaborativa. Ao incorporá-la em estratégias e políticas empresariais, por exemplo, os modelos de negócios tendem a se tornar mais duradouros, uma vez que as pessoas começam a ser ouvidas, compreendidas e desenvolvidas. Com isso, a empatia norteia nossas ações, agrega valor às relações e propicia tangibilidade aos resultados. A Veraque é então uma consultoria de treinamento e desenvolvimento humano e organizacional, com modelo de negócios formatado em quatro players. São eles:

  1. Humano: Mentoria e coaching para o desenvolvimento de competências, liderança e transição de carreira;
  2. Organizacional: Desenho e implementação de capacitações customizadas às particularidades das empresas e assessoria em projetos de gestão de mudança/cultura organizacional. Também contempla prestação de serviços para a aviação, indústrias de alta confiabilidade e sistemas complexos com orientação a políticas, processos de gestão de risco/segurança operacional e cursos voltados aos aspectos de gerenciamento de ameaças e erros humanos;
  3. Acadêmico: Iniciativas e parcerias com instituições de ensino/startups para o desenvolvimento de projetos, integrando teoria e prática; palestras sobre soft skills;
  4. Social: Ações de voluntariado em ambientes corporativos e instituições de ensino direcionadas ao desenvolvimento humano, além de parcerias em projetos que possuem o objetivo de contribuir com a recolocação de profissionais ao mercado de trabalho.

3. Qual foi o momento mais difícil da sua carreira? Tiveram vários momentos difíceis em minha carreira, mas eu escolhi um que foi o mais desafiador: em 2015, quando decidi aceitar a proposta de ser expatriada para o Chile. Mesmo não estando tão distante do Brasil e com um idioma não tão complexo, imagine uma filha única que sempre morou com os pais, saindo de casa pela primeira vez para morar sozinha em outro país. Obviamente tive alguns medos e inseguranças por ter que enfrentar eventuais contingências, como terremotos, por exemplo, além de ter consciência que estaria vivendo em uma nação com hábitos diferentes aos meus. Mas decidi encarar o desafio como uma grande oportunidade de aprendizado e amadurecimento pessoal e profissional. Costumo dizer que naquele período eu praticava cotidianamente duas habilidades as quais nomeei de harmonização de culturas e humanização de processos, afinal, durante a implementação do projeto corporativo convivia não só com os chilenos, mas também com argentinos, colombianos, equatorianos, mexicanos, paraguaios e peruanos. Ou seja, os relacionamentos eram repletos de variáveis e habilidades como observar, escutar, refletir, aprender, compreender, aceitar, recuar, permanecer, esperar, argumentar, questionar, posicionar-se, avançar, decidir, mudar, etc. etc. etc. Creio que toda dificuldade pode proporcionar aprendizado e superação, no meu caso, só me fortalece e me faz acreditar que tudo é possível.

4. Como você consegue equilibrar sua vida pessoal x vida corporativa/empreendedora? Durante 17 anos, grande parte da minha vida corporativa se passou dentro de aviões, pois, pela natureza do meu trabalho, que era voltado a treinamentos, eu precisava viajar muito para outros Estados e até mesmo outros países a fim de ministrar os cursos que eram todos presenciais na ocasião. O lado bom era ter o privilégio de conhecer os mais famosos pontos turísticos (quando possível, é claro) e me relacionar com outras culturas. O lado ruim era a ausência no convívio familiar e a falta de rotina com os amigos. Mas tudo na vida tem ônus e bônus, então acredito que tudo vale a pena, pois, como disse Nelson Mandela: “Eu nunca perco. Ou eu ganho, ou aprendo!”. Eis, então, que, ao morar no Chile por dois anos, comecei a repensar a minha carreira e a me reconectar com meus valores, princípios e propósitos. Voltar para o Brasil se tornou prioridade e, após um período sabático, idealizei a minha consultoria de T&D. Com isso, hoje posso afirmar que tenho mais autonomia, networking expandido, aprendizado multidisciplinar e ainda consigo programar afazeres da minha vida pessoal em função de ter flexibilidade de horário, o que para mim vem cada vez mais se tornando um diferencial favorável nesse mundo em que estamos vivendo. Claro que empreender no Brasil é um grande desafio, mas, dessa maneira, tenho conseguido organizar a minha rotina profissional, programando reuniões e treinamentos e não deixando de reservar momentos de pausas para o autocuidado, para a atenção plena familiar, para meus estudos e até mesmo para o ócio. Afinal, saúde mental não tem preço e, por isso, o lazer é necessário e também tem que constar na agenda. Com isso, acredito que tenho equilibrado bem a minha vida pessoal x vida corporativa/empreendedora, pois planejei conscientemente cada fase dessa transição de carreira e fiz escolhas que impactaram positivamente em meu atual momento e qualidade de vida. Mas não paro por aqui, continuo prospectando novos horizontes e sinto que estou no caminho certo.

5. Qual seu maior sonho? Meu maior sonho vem se tornando realidade há alguns anos, pois tudo que esteja relacionado a preservação de princípios, valores e de certa forma vinculado aos meus propósitos de vida eu considero como realização pessoal. Profissionalmente falando, como exemplo, trago o fato de eu poder estar sempre em contato com projetos relacionados ao desenvolvimento humano, sejam eles corporativos, acadêmicos ou sociais. Quer sonho maior do que este de poder fazer aquilo que gostamos e acreditamos e ainda sermos remunerados por isso? E vou mais além, nem só de retorno financeiro vive o ser humano. Então, ser reconhecida, valorizada, respeitada e servir de inspiração para outras mulheres por meio de meus ideais e atitudes é muito mais do que um sonho, é quase que atingir o nirvana. Que bom seria se no Brasil houvesse mais acesso a questões básicas de saúde, segurança e educação a toda população. Que bom seria se tivéssemos menos racista, menos quaisquer outros tipos de preconceitos. Que bom seria se tivéssemos menos discrepâncias sociais, que infelizmente com a pandemia só se acentuou. Que bom também seria se as mulheres ocupassem mais posições de liderança e fossem mais ouvidas, compreendidas e bem pagas pelas organizações. Aí o pontapé inicial para a equidade seria dado eficazmente. Posso então complementar que estes também são meus outros grandes sonhos… Isso não há como negar.
Mas não podemos deixar de sonhar e para que os sonhos se tornem realidade é necessário ter atitude. Já diz o ditado, “mar calmo nunca fez bom marinheiro”, então vou seguindo adiante, criando estratégias e me aperfeiçoando para encarar “novas ondas”, pois é exatamente na crise que enxergo as melhores oportunidades e me reinvento. Nesse sentido, garanto que não foi sorte e nem foi fácil chegar até aqui. Me sinto privilegiada por ter conquistado o meu espaço e por ter certeza que ainda há muito mais coisas boas vindo por aí.

6. Qual sua maior conquista? Acho que essa pergunta complementa a anterior, e aqui quero abordar duas conquistas. Primeiro a conquista pessoal, que foi conseguir fazer parte da estatística de mulheres negras que superaram os desafios de uma infância muitas vezes desfavorecida socialmente dada a escassez de recursos. Hoje, noto que as pessoas próximas a mim observam a minha história de vida, construindo uma narrativa de que aquela criança que estudou em escolas públicas e não teve acesso aos melhores conteúdos educacionais e culturais, soube construir uma base sólida ao longo da vida por meio de valores e princípios de família, conquistando assim seus objetivos. Ouvir de alunos, ex-colegas de trabalho e até mesmo de familiares que sou referência para eles, ah, isso também não tem preço. Em segundo lugar, vem a conquista profissional, que é poder estar onde me sinto bem e onde verdadeiramente quero estar. Posso falar com convicção que amo o que eu faço e que atuou em um segmento onde não só encontro propósito, mas também aprendo constantemente ao contribuir com o desenvolvimento das pessoas. Dizem que quando dividimos, multiplicamos. Para mim, atitude, liberdade de expressão e poder de escolha/decisão são palavras que me movem. Não me conformo em “frequentar o teatro” e ficar a maior parte do tempo sentada como telespectadora vendo o show. Normalmente assumo o protagonismo e também faço acontecer. Talvez este posicionamento seja a minha maior conquista.

7. Livro, filme e mulher que admira. Livro: “O Poder do Hábito”, pois me considero uma metamorfose ambulante e adepta ao lifelong learning. Neste livro, Charles Duhigg aborda como podemos ter êxito em nossas vidas transformando hábitos, reconhecendo que com perspicácia, habilidade e um novo entendimento da natureza humana, entendemos o nosso potencial para a transformação. Filme: “Estrelas Além do Tempo”, pois me identifiquei em alguns conflitos presentes no roteiro da trama. O filme narra a experiência de uma equipe de cientistas da Nasa, formada exclusivamente por mulheres afro-americanas, que provam serem capazes de liderar uma das maiores operações tecnológicas registradas na história, tornando-se então verdadeiras heroínas e inspiração para futuras gerações femininas. Mulher: Madre Teresa de Calcutá, por seu carisma e dedicação/serviço aos mais pobres dos pobres, por meio da vivência do Evangelho de Jesus Cristo. Oprah Winfrey, por sua determinação, multidisciplinaridade de atuação, superação de desafios pessoais e profissionais, capacidade de influenciar, posicionamento e atitude.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.