Jornalista de sucesso, Fernanda Ávila criou clube de assinaturas de livros para ampliar narrativas femininas

Amora, projeto criado no início deste ano pela comunicadora e mais três sócios, envia mensalmente um kit com obras escritas por autoras contemporâneas

  • Por Fabi Saad
  • 20/04/2022 10h00
Divugação A jornalista Fernanda Ávila, uma mulher branca na faixa entre 30 e 40 anos, usando blusa cor de creme e óculos escuros A jornalista e empresária Fernanda Ávila é sócia da Amora Livros e da Pulp Edições

Nossa Mulher Positiva desta semana é Fernanda Ávila, jornalista, empresária e sócia da Amora Livros e da Pulp Edições. Nesta entrevista, ela conta sobre o seu novo projeto, que incentiva a literatura feita por mulheres. “Lancei a Amora com um sócio e duas sócias. É um clube de assinatura de livros escritos por autoras contemporâneas. Acreditamos que ler mais mulheres é uma forma de enxergarmos o mundo sob outras perspectivas, de ajudar a promover a equidade, de conhecer o que pensa a metade da população mundial”, explicou Fernanda, que antes trilhou meteórica e bem-sucedida carreira no jornalismo. “Fiz entrevistas históricas com pessoas que eu admiro muito, como Saramago, Francis Ford Coppola e Fernanda Montenegro. Enfim, foi muita gente e muita história pra contar. Me apaixonei pelo ofício de ‘entrevistadora’, e acho que foi isso que me ensinou a ouvir as pessoas, habilidade que levei para outras as outras áreas da comunicação.”

1. Como começou a sua carreira? Comecei na “Top” quando a revista ainda era editada em Curitiba. Eu tinha me formado há pouco tempo no curso de jornalismo, havia acabado de voltar de Nova York — onde fiz um curso de cinema e morei por um tempo — e tinha alguma experiência em agências de publicidade e produtoras de vídeo. Fui chamada para fazer uma entrevista de capa, como freelancer, com um saxofonista que era um ícone na cidade na época. O Cláudio Mello gostou do meu texto e me convidou para ser editora. Até hoje não sei como ele apostou numa menina com tão pouca experiência para assumir o cargo mais importante da revista. Mas o fato é que deu certo, fiquei lá por nove anos e construímos muitas coisas nesse período. A revista cresceu, a editora lançou outros títulos, passei um tempo como correspondente em Portugal, fiz entrevistas históricas com pessoas que eu admiro muito, como Saramago, Gilberto Dimenstein, Francis Ford Coppola, Fernanda Montenegro, Hermeto Pascoal, Isay Weinfeld, Elke Maravilha, Marília Gabriela, Nelson Motta, Mino Carta… Enfim, foi muita gente e muita história pra contar. Me apaixonei pelo ofício de “entrevistadora”, e acho que foi isso que me ensinou a ouvir as pessoas, habilidade que levei para outras as outras áreas da comunicação que atuei depois desse período. Ser uma boa ouvinte me ajuda a contar boas histórias.

2. Como é formatado o modelo de negócios da Amora Livros? No começo de 2022, lancei, com um sócio e duas sócias, a Amora. É um clube de assinatura de livros escritos por autoras contemporâneas. Funciona assim: as pessoas assinam e recebem, todos os meses, uma caixinha com um livro selecionado pela nossa curadoria e mais algumas surpresas. Nossa missão é ampliar as narrativas femininas e equilibrar essa balança também na literatura. Se formos analisar os números de premiações (como o Nobel, o Jabuti, o Prêmio Camões, o Goncourt etc), os festivais, as listas dos mais vendidos, as obras escolhidas para os principais vestibulares do país, as referências usadas nos cursos acadêmicos e também as nossas prateleiras em casa, vamos perceber que as referências literárias são majoritariamente masculinas. Se queremos ter mais representatividade nos cargos de liderança das empresas, nos conselhos, na política, na mídia, também precisamos conhecer o mundo através das histórias contadas por mulheres diversas, de diferentes origens, etnias, credos, orientações sexuais. A Amora nasceu pra isso! Acreditamos que ler mais autoras mulheres é uma forma de enxergarmos o mundo sob outras perspectivas, de ajudar a promover a equidade, de conhecer o que pensa a metade da população mundial. Ler livros escritos por mulheres é dar espaço para uma narrativa mais diversa e inclusiva. É romper com os mecanismos de produção de uma história única, que cria estereótipos e verdades absolutas. Também sou sócia da Pulp, que editou vários livros de viagem, como o guia “Nova York, Londres, Paris, Tóquio” (do Alexandre Herchcovitch), “Minha Nova York” (da Didi Wagner), “Paris pra Você” (da Lelê Saddi) e a coleção “Viajo com Filhos”, que tem vários títulos. Além disso, trabalhamos com branded content para diversas marcas no Brasil, como Boticário, Grupo Positivo, Grupo Multiplan etc.

3. Qual foi o momento mais difícil da sua carreira? Foi no fim do primeiro ano de pandemia. Tínhamos um escritório com 15 pessoas talentosíssimas, uma equipe muito unida, cheia de energia, com muita troca. Mas, ao longo do tempo, percebemos que não dividir o mesmo ambiente físico estava dificultando a troca, a produção criativa. Estava todo mundo cansado, triste, buscando novos desafios. Decidimos abrir mão de clientes nacionais, com verbas consideráveis, fechamos o escritório e reduzimos a equipe para focar em outro projeto, que é a Amora. Assumimos um risco que é maravilhoso, mas dá um frio na barriga. E a despedida da sede, tirar os móveis, fechar as caixas, tudo isso deu uma tristeza enorme. Foram anos de muitas conquistas naquele lugar especial.

4. Como você consegue equilibrar sua vida pessoal x vida corporativa/empreendedora? Tive uma boa formação, condições financeiras de pagar outras mulheres que me ajudam, tenho uma rede de apoio de família e amigas por perto, um marido que divide as responsabilidades. Tudo isso já me coloca em uma posição de privilégio e me permite equilibrar melhor as coisas. Mas, mesmo assim, me senti muitas vezes sobrecarregada e com a sensação que não ia dar conta. E talvez não tenha dado mesmo. A gente erra, acerta e assim vai construindo uma história. Hoje as minhas filhas estão grandes, uma está estudando fora do Brasil, o que deixa as coisas bem mais simples. Quando olho pra elas é que eu penso: bom, até aqui deu tudo certo.

5. Qual seu maior sonho? Fora aqueles bem grandes e ambiciosos, tipo viver em uma sociedade mais justa, com uma distribuição de renda mais equilibrada, com mais diversidade e inclusão, sem violência e com uma reversão dos problemas socioeconômicos e ambientais que estamos enfrentando, meu sonho é morar de novo com as minhas duas filhas juntas na mesma casa. Morro de saudades da mais velha, que está em Lisboa. Tenho vontade de me mudar para Portugal e ficar pertinho dela. Também que a Amora chegue logo na casa de milhares de assinantes.

6. Qual sua maior conquista? Eu sou o resultado de muitas pequenas conquistas. Acho difícil elencar uma. Mas ver as mulheres que as minhas filhas estão se tornando — sensíveis, justas, fortes, independentes, autônomas, responsáveis, empáticas — me faz dormir em paz todos os dias. E não é corujinha de mãe não, elas são sensacionais!

7. Livro e filme. Estava com medo dessa pergunta. Livro é difícil, ainda mais agora que estou lendo tantas mulheres sensacionais! Posso dizer que a minha formação como leitora foi marcada pela Isabel Allende e pelo Gabriel García Marquez. No ano passado, reli “Dom Casmurro” e me apaixonei de novo. Lygia Fagundes Telles também adoro. Dos livros mais recentes, fiquei muito tocada com o “Parque das Irmãs Magníficas”, da argentina Camila Sosa Villada, e “Nem Sinal de Assa”, da Marcela Dantés. Filme: amo “Tudo Sobre Minha Mãe”, do Almodóvar.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.