Natalia Castro superou machismo, saída de mentor e até fuso horário para se destacar como engenheira

Mulher Positiva desta semana escolheu carreira predominantemente masculina, mas logo mostrou seu valor e já está na Huawei do Brasil há oito anos

  • Por Fabi Saad
  • 16/03/2022 09h00
Divulgação Mulher branca na faixa dos 30/40 anos posa com crachá na frente do símbolo da Huawei A engenheira Natalia Lopes de Castro trabalha na Huawei desde 2014

Nossa Mulher Positiva é Natalia Lopes de Castro. Formada em engenharia elétrica no Centro Educacional IESB, ela hoje é engenheira de radiofusão (RF) na Huawei do Brasil, líder global de soluções de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC). O que a levou até a faculdade foi a curiosidade. Natalia adorava abrir seus brinquedos para saber como funcionavam. A engenharia mecatrônica até foi uma opção, mas o coração a mandou para a área de telecomunicações. Na vida universitária, viu que não seria fácil encarar um ambiente predominantemente masculino. “O caminho da graduação foi árduo e cheio de obstáculos, relevando brincadeiras de mau gosto, comentários desnecessários, mas sem deixar de me impor. Foi crucial para me preparar para o ambiente de trabalho”, contou. Em 2014, ela consegui o primeiro estágio, na Huawei, onde está até hoje. Na empresa, confirmou a sua paixão por telecomunicações, encarou o desafio de liderar um projeto praticamente sozinha após a saída de seu mentor e teve de superar até o fuso horário. “O fato do suporte técnico da Huawei ser fora do Brasil contribuiu para a minha desorganização pessoal de horários. Às vezes, era necessário ficar ao longo da madrugada para conseguir encontrar soluções de alguns problemas”, disse. “Para me ajudar, incluí na minha rotina alguns cursos que queria concluir, lista de séries para assistir e até o desafio de não fazer absolutamente nada, apenas descansar. Hoje tenho alcançado um equilíbrio que me possibilita ter uma qualidade de vida melhor.”

1. Como começou a sua carreira? Quando criança eu tinha muita curiosidade sobre o funcionamento dos objetos em geral (equipamentos eletrônicos, elétricos e mecânicos). Sempre que tinha a oportunidade eu abria meus brinquedos para olhar como funcionavam por dentro e brincava de consertar as coisas. Quando comecei a pensar mais a fundo sobre a carreira que eu realmente queria seguir, eu tentei escolher algo que pudesse me ajudar a aprender melhor como consertar equipamentos ou até mesmo como fazer algo novo. Não demorou muito para eu me interessar por engenharia, que é uma área muito vasta, com inúmeros direcionamentos. Cheguei a pensar em fazer engenharia mecatrônica ou mecânica, porém a engenharia de telecomunicações foi a que mais me conquistou. Lembro que eu pude viver, mesmo que ainda muito jovem, a chegada dos celulares ao Brasil e o quanto estava transformando o modo de nos comunicar. Isso que, de certa forma, me motivou a querer fazer parte daquilo também. Até então, eu trabalhava em um departamento financeiro de um órgão público, mas resolvi abrir mão do cargo comissionado que eu tinha para buscar experiência e realmente ingressar nessa área de telecomunicações assim que me formasse. Felizmente, consegui meu primeiro estágio em junho de 2014 na Huawei, empresa em que trabalho até hoje. Esse estágio foi meu primeiro contato profissional com telecomunicações e veio como uma confirmação de que eu tinha escolhido o curso certo. A Huawei é uma empresa que te impulsiona a explorar novas maneiras de pensar, de solucionar problemas e te oferece vários caminhos para estudar e aprimorar seus conhecimentos em diversos tópicos tecnológicos.

2. Como é formatado o modelo de negócios da Huawei? Em 2022, a Huawei completará 24 anos de atuação no Brasil, com uma atuação que se estende pelos mais diversos setores de tecnologia, sendo um deles como a principal fornecedora de equipamentos e soluções TIC para as operadoras de telefonia móvel, oferecendo a infraestrutura 2G, 3G, 4G e, agora também, 5G. Atualmente, sou líder de RF na região Centro-Oeste da parceria entre a Huawei e a operadora Claro. Trabalho na área de implantação, lidando com grandes metas mensais de novas instalações e também modernizações de estações existentes que têm por objetivo a melhoria e expansão da rede de telefonia móvel. Essa é uma demanda constante, uma vez que cresce cada vez mais a exigência por ampla cobertura e altas velocidades de dados. Para garantir a qualidade do serviço prestado, a Huawei incentivou bastante a transformação digital interna que possibilitou melhores controles e aumento na eficiência da área de delivery. Lidamos com um modelo de trabalho E2E (end to end), em nos envolvemos no processo do início ao fim, desde a proposta de soluções até a finalização dessa solução instalada e operacional.

3. Qual foi o momento mais difícil da sua carreira? Acredito que tenha sido em 2018. Em maio, um dos meus maiores mentores na empresa e engenheiro sênior do projeto na regional, Luiz Marcelo André, se lançou em um novo desafio fora da empresa. Nesse momento, tive que assumir todas as responsabilidades do projeto “sozinha”. Coloco entre aspas, pois felizmente tive muito suporte, tanto dos meus companheiros de projeto e departamento como também de outras regionais, que compartilharam comigo seus conhecimentos e me ajudaram a evoluir ainda mais profissionalmente. Trabalhamos com metas mensais de implantação e serviços a serem cumpridos que geram grande pressão para a entrega de um resultado excepcional para o cliente. Então, assumir grandes responsabilidades foi um desafio enorme que me incentivou a sair da minha zona de conforto para me impor, conquistar o meu lugar e ser respeitada em um projeto que era majoritariamente masculino. Foram meses de grande aprendizado nos quais, por diversas vezes, questionei minha competência, mas que me fortaleceram bastante como mulher e como profissional. Ao fim, me orgulho da engenheira que me tornei e que venho me tornando.

4. Como você consegue equilibrar sua vida pessoal x vida corporativa/empreendedora? Devo confessar que por muitas vezes não consigo me equilibrar. Tenho um rendimento muito melhor a noite, então muitas vezes fico no trabalho até mais tarde para finalizar algumas atividades. Eu também me considero um pouco viciada em trabalho, então em vários momentos o coloquei como prioridade. E o fato do suporte técnico da Huawei ser fora do Brasil, em outro fuso horário (no México e na China), também contribuiu muito para a minha desorganização pessoal de horários. Às vezes, era necessário ficar ao longo da madrugada para conseguir encontrar soluções de alguns problemas com esse suporte. Porém, com a pandemia tive que me forçar a colocar limites rigorosos nos meus horários se não trabalhasse 24 horas por dia. Para me ajudar, incluí na minha rotina alguns cursos que queria concluir, lista de séries para assistir e até o desafio de não fazer absolutamente nada, apenas descansar. Hoje tenho alcançado um equilíbrio que me possibilita ter uma qualidade de vida melhor.

5. Qual seu maior sonho? Meu maior sonho é conseguir conciliar meu trabalho principalmente com viagens ao longo do mundo. Tem muitos lugares na minha lista que tenho vontade de conhecer.

6. Qual sua maior conquista? Minha maior conquista foi conseguir me formar em engenharia já empregada em uma empresa tão importante e conceituada, superando minhas próprias expectativas. O caminho da graduação foi árduo e cheio de obstáculos. Aprender a me portar em um ambiente totalmente masculino, relevando brincadeiras de mau gosto, comentários desnecessários, mas sem deixar de me impor. Foi crucial para me preparar para o ambiente de trabalho que vinha à frente. E ser contratada após apenas cinco meses de estágio foi extremamente gratificante, pois senti como se fosse uma confirmação de que eu estava pronta para o que viesse pela frente.

7. Livro, filme e mulher que admira. Confesso que não sou muito de ler livros, os filmes e séries me conquistam mais. Um filme que gosto bastante é a ficção científica chamada “Transcendence – A Revolução de Wally Pfister”. Acho muito intrigante as inúmeras possibilidades de evolução que ainda podem acontecer. E sempre que vejo filmes como esse me questiono até que ponto é somente a criatividade para escrever o roteiro de um filme e o quão próximo da realidade ele realmente pode estar. E mesmo sendo um pouco clichê, a mulher que mais admiro é minha mãe. Ela é uma mulher guerreira, que não se deixou vencer pelas dificuldades da vida e conseguiu proporcionar às filhas várias oportunidades as quais não teve acesso. Ela é meu exemplo de dedicação e garra.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.