As cidades que odeiam seus pedestres

Se houver uma próxima vida e meu destino for nascer em terras brasileiras, espero vir com a constituição física e os cascos de uma cabra ou de uma mula para caminhar com a obstinação e destreza necessárias para locomover-me de um lado a outro de forma segura pelas ruas de nossas terras

  • Por Helena Degreas
  • 14/12/2021 10h00 - Atualizado em 14/12/2021 18h31
Helena Degreas/DivulgaçãoPara sair do canteiro central, o cidadão pode utilizar os 54 degraus que o separam da passarela ou fazer o que as pessoas da foto estão fazendo: ter fé, coragem, esperança e muita, mas muita sorte

Minha vida urbana decididamente não cabe numa calçada. Acredito que a vida do leitor desta coluna, também não. Quem determinou que lugar de cidadão é apenas na calçada? Lugar de cidadão é onde ele quiser estar. “Flanar” é a palavra que mais utilizo nas aulas de Desenho Urbano. É uma palavrinha antiga, meio em desuso e que caiu em descrédito para aqueles profissionais e gestores públicos que ainda utilizam a cartilha modernista como diretriz para planejar as cidades. Penso na ideia do flanar urbano como forma de descrever o prazer de andar à toa em locais agradáveis pelas cidades. Parece incrível, mas é preciso falar aos jovens profissionais sobre conceitos e formas de pensar o planejamento e o desenho de cidades, bairros e ruas que possam ser vivenciados com prazer pelos cidadãos. Cidades em que é possível andar devagar, de forma descompromissada, sem um lugar certo para chegar, perambular por aí sem destino ou hora para voltar. Apreciar a cidade e a vida urbana. Nossos vereadores e prefeitos já devem ter ido passear e fazer compras em cidades como Londres, Paris, Nova Iorque e outras tantas aqui pela América do Sul em que a qualidade de vida está relacionada à qualidade dos ambientes e espaços dedicados às pessoas. Prefeitos e vereadores já devem ter se deliciado vivenciando ambientes, espaços e paisagens agradáveis por várias cidades mundiais. Aguardarei o momento em que todos eles se inspirem pelas boas práticas urbanas e realizem ações que resgatem os espaços de convívio para a tão necessária sociabilidade.

Atualmente, as principais discussões que tratam dos espaços públicos urbanos nas prefeituras giram em torno da largura das calçadas, da sua existência ou não, empurram a manutenção dos calçamentos aos proprietários dos imóveis… quem tapa o buraco? Quem varre? Quem faz a poda? Não é possível continuar com este tipo de discussão. São Paulo é uma cidade mundial. Capital financeira da América Latina. Os assuntos são importantes, mas as discussões deveriam envolver a origem do problema e ir além. A cidade da prefeita reeleita Anne Hidalgo em Paris e de sua colega Claudia López em Bogotá – que assumiram o protagonismo no investimento de requalificação dos espaços públicos visando ao bem-estar e à saúde da população trabalhadora durante a pandemia – são exemplos de boas práticas urbanas. Avenidas e ruas foram definitivamente substituídas por áreas vegetadas, locais de encontro e de sociabilidade urbanas. Foram redesenhadas para virar palco da vida pública.

Por outro lado, prefeitos e vereadores brasileiros tradicionais, aqueles seres que povoam as câmaras e demais espaços destinados aos representantes do povo, vez e outra afirmam que investir na “estética” urbana não traz votos. Como se qualidade de vida e saúde fossem assuntos de segunda linha. Lamento muito. A estética materializada em nossas cidades materializa a ética do urbanismo praticado por eles – segregacionista, que expõe o desprezo e o ódio aos seus cidadãos, sejam eles pedestres ou não. Tanto Hidalgo quanto Lopez foram escolhidas pelos eleitores a partir de suas pautas urbanas que alinham questões climáticas, de gênero, de saúde pública e de locomoção ativa por meio da requalificação dos espaços públicos para o povo do qual são parte e representam. Toda a infraestrutura viária fica em segundo plano expondo a prioridade voltada ao bem-estar do cidadão. Por meio de suas ações, propõem em seus discursos e práticas uma revisão profunda no planejamento de suas cidades atuando diretamente no cerne da questão que aflige cidadãos: nossas cidades têm a forma que atende às necessidades dos automóveis. Os sistemas de transporte e deslocamento urbanos fragmentaram as cidades em calçadas, travessias, semáforos que facilitam a fluidez dos carros, iluminação proposta para atender motoristas e até mesmo travessias para pessoas em passarelas ou deslocadas da rota natural. Refiro-me àquele momento em que, para atravessar a rua, o leitor fica procurando uma faixa de pedestres e um semáforo e descobre que tudo isso está à sua disposição, mas localizado a dezenas de metros de onde está. Bem comum, não é?

A caminhabilidade nas cidades deve ser privilegiada sempre a partir de um planejamento focado nas pessoas e na elaboração de redesenho de setores urbanos de escala local e que atendam às expectativas e demandas dos cidadãos por meio de consultas e participação popular. De dentro do gabinete ou pela janela do carro não resolve. Tem que botar o pé na rua e perguntar o que querem os verdadeiros usuários do lugar. Em paralelo, pergunto: alguém lembra de algum questionário aberto pela Prefeitura direcionado à população perguntando aos moradores o que é necessário para que caminhar seja uma ação segura e prazerosa no bairro? Eu não lembro, mas fica a dica: prezados gestores públicos, vamos perguntar ao cidadão o que melhora o caminhar? Vamos realizar pesquisas que publiquem dados em tempo real sobre como acontecem os deslocamentos das pessoas a pé, de bicicleta, de cadeira de rodas, skate e outras formas de locomoção nas cidades?

A foto que ilustra a coluna é da Passarela Dr. Emílio Athiê e fica sobre a Avenida Rebouças em São Paulo. Como ela, milhares de outras têm a mesma função. Facilitam a vida do automóvel e infernizam a do pedestre que se vê obrigado a percorrer um caminho de 8 a 10 vezes mais longo. Para que eu pudesse atravessar 20 metros de rua, percorri cerca de 150 metros sobre a passarela com rampas, patamares, pisos e escadas. Todo esse aparato foi projetado pensando no conforto dos automóveis e seus motoristas. Não se trata de qualquer passarela. Por ela passam diariamente milhares de pessoas em busca de atendimento médico no maior complexo hospitalar do Estado de São Paulo: o Hospital das Clínicas. O fato curioso deixo para o final: no caso de falta de energia elétrica, os pequenos elevadores que dão acesso à rampa deixam de funcionar. Para sair do canteiro central, o cidadão pode utilizar os 54 degraus que o separam da passarela ou fazer o que as pessoas da foto estão fazendo: ter fé, coragem, esperança e muita, mas muita sorte para atravessar a avenida, esgueirar-se por entre as grades e chegar na calçada vivo. Tem sentido uma coisa dessas? Por favor, prefeito! Coloque um semáforo urgente neste local. A passarela? Nem sei, talvez possa transformar-se num jardim público linear repleto de banquinhos para as pessoas com mobilidade reduzida, os idosos e as pessoas que buscam atendimento médico possam descansar e comprar os produtos dos ambulantes que se instalaram por lá.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.