Crônica: Cidade dos Infernos

Uma cidade pensada para outro clima

  • Por Helena Degreas
  • 13/01/2026 07h30
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LEANDRO CHEMALLE/THENEWS2/ESTADÃO CONTEÚDO calor Termômetro de rua marca 37ºC na Estrada do M'Boi Mirim, no Piraporinha, zona sul de São Paulo, no começo da tarde desta segunda-feira(12) de calor intenso

Calor.

O calor não chega. O calor está. A cidade acorda em calor, atravessa o dia em calor e tenta dormir em calor. Não há surpresa,
apenas continuidade. Habituamo-nos. Reclamamos no ônibus, no bar, no trabalho, na escola, em casa.

Nos bairros ricos, o calor vira despesa. Entra pelas janelas amplas, é contido por vidros blindados e some nos dutos do ar-condicionado. Não refresca: neutraliza. O incômodo aparece na conta de luz, no ruído constante, na sensação de pagar para permanecer em ambientes fechados. É tolerável.

No centro histórico, o calor exige gestão. Ventilador ligado. Desligado. Ligado outra vez. O ar-condicionado entra por turnos, como contenção. Não resolve. Adia. Construídos em outros séculos, esses prédios e espaços públicos respondiam ao clima que a cidade acreditava ter. Temperaturas altas, baixas associadas à chuva fina que marcou a terra da garoa importunavam homens de terno e chapéu. Isso parecia suficiente como problema urbano.

A cidade funcionava assim. Os prédios também. Para funcionar no presente, esses edifícios pedem intervenções técnicas e custosas. Enquanto isso, o corpo aprende a esperar. O edifício, não. Sísifo moraria aqui. Ligaria o ventilador. Desligaria. Ligaria outra vez…

Nos bairros populares, o calor reconfigura a rotina. Quem pode improvisa. Um ventilador de teto na sala, outro no quarto, mais um circulando conforme a hora. Escolhe-se onde sentar-se, onde deitar-se, onde o calor demora mais a chegar. Dormir é uma questão de ajuste. Viver vira cálculo.

Já nos bairros autoconstruídos, nem sempre há cálculo possível. Há quem não ajuste nada porque não há saída. Casas quentes desde cedo, telhas expostas, paredes que acumulam a temperatura o dia inteiro e não esfriam à noite. O ventilador move o ar que já está quente. A noite não alivia. O corpo não descansa. As temperaturas altas deixam de ser desconforto e passam a ser condição.

A cidade dos infernos não tem fogo visível. Hades foi substituído pelo asfalto. Há concreto, ausência de sombra e a ideia persistente de que cada um deve resolver o próprio clima. O planejamento urbano aparece nos discursos e nas campanhas publicitárias bem ensaiadas, lançadas antes das eleições. Mas a experiência diária, longe dos gabinetes, ensina outra coisa: não existe cidade habitável sem política térmica.

Não se trata de gosto. Trata-se de resistir com saúde. Quando a permanência depende de aparelhos, contas ou improviso, a cidade deixa de ser abrigo e passa a ser teste. Teste que, repetido todos os dias, deixa de ser exceção. Vira norma. Vira projeto, porque alguém decidiu que pode ser assim.

Envio de sugestões: @helenadegreas

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.

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