Emparedados urbanos: Não adianta ter um apartamento bem localizado se não há conforto ambiental

Na hora de escolher o novo lar, é indispensável pensar no impacto daquele ambiente à saúde das pessoas; o Sol, por exemplo, estimula a produção de vitamina D, que é responsável pela absorção do cálcio, fortalecimento dos ossos e melhoria do humor

  • Por Helena Degreas
  • 12/07/2022 09h00
Helena Degreas/Arquivo pessoal Prédios em São Paulo Imagem mostra prédio bloqueando a entrada da luz direta do sol no edifício ao lado

Há alguns dias, acompanhei um amigo na busca do apartamento perfeito. Anos economizando aqui, cortando gastos ali, horas extras e bicos de toda sorte permitiram-lhe juntar algum dinheirinho para dar de entrada em seu imóvel. Emprego garantido, salário em dia, pretendia financiar o saldo devedor pelos próximos anos. Feliz, veio logo me procurar. Dizia que com uma arquiteta ao seu lado, ele encontraria o lugar ideal sem correr o risco de cair em alguma cilada. Não entendi muito bem o que ele quis dizer com cilada, mas, enfim, acompanhei-o de bom grado. Conversa em boa companhia é sempre muito bem-vinda em tempos sombrios. Chegamos juntos e nos encontramos na estação de metrô no horário combinado. Logo de cara, espantei-me com as ruínas de vários sobradinhos, do pó proveniente das obras e da terra avermelhada escorrendo, lamacenta, pela calçada e meio-fio abaixo. Bate estacas de um lado, marretadas e gritaria do outro, pensei: ok, Helena, nada de novo, são apenas obras, você está acostumada… é seu ofício. Mantive meu bom humor. Ele, por sua vez, permanecia radiante diante do lugar que em breve chamaria de seu.

Três obras novas em cerca de 120 metros: duas em um dos lados da rua e a terceira, imensa, que consumia, aos poucos, quase a metade da outra quadra. Como estas pessoas aguentam este monte de caminhões estacionando e descarregando dia e noite? Todos os ruídos intermitentes e a gritaria das obras? Por pouco não fui tirar satisfações aos berros com os engenheiros responsáveis pelos canteiros imundos e malcuidados que emporcalhavam as ruas e calçadas. Mas então, diante do olhar satisfeito do meu amigo, parei de pronto. Ele não merece que a urbanista apareça assim, do nada, naquele que era um momento feliz em sua vida. Entramos no estande de vendas. Sorridentes, corretores nos ofereceram bombons, café, sucos, biscoitos. Enquanto ele se deliciava com as explanações e guloseimas, eu declinava. Diante da insistência, aceitei um copo de água e deixei sobre a mesa, imaginando que se um gole fosse dado, eu seria capturada, de alguma forma, pelos argumentos daqueles que tinham, como trabalho, apresentar e vender o seu produto. E o faziam muito bem, pensei com todo o azedume que por vezes se apodera da urbanista.

Daí, aconteceu o que eu mais temia: a visita ao apartamento decorado passando antes pela maquete localizada no ponto central de uma sala especialmente criada para a sua visualização. Iluminada, encontrava-se cercada por uma série de telões pendurados nas paredes, com imagens dos ambientes em uso. Imponente, mais alta que todos à volta, ela se apresentava como a solução da vida de todos aqueles que procuram por um lar: janelões de canto a canto, com vistas para todos os lados, varandas, e uma série de serviços que me lembraram clubes recreativos. “Tudo bem”, resmunguei, “para que sair de casa? A cidade anda completamente largada pelo atual prefeito Ricardo Nunes… ainda teremos o alcaide por alguns anos pela frente… melhor não vivenciar o dia a dia das ruas. A realidade é bruta demais”. Chega o momento e ele me pergunta: “O que você acha? Gostou? Não é lindo?”

Mordi o canto inferior dos lábios, coração batendo forte como se quisesse sair da boca. Respirei fundo tentando manter a calma e a compostura, sorri um sorriso falso e perguntei ao corretor: “Cadê o Norte na maquete? Estou louca para você me contar onde fica… gostaria de saber se o sol da manhã entra na sala e nos quartos, me ajuda”? Olhos esbugalhados, o corretor responde de dentro da sala sem janelas que abriga a maquete esplendorosa, eu e meu amigo: “Aqui fica o Leste e aqui o Oeste. Como a senhora pode ver, pega sol o dia inteiro e em todos os ambientes!”. “Bacana”, resmunguei. “Mas…. e este vazio aqui na maquete, é o quê?”. Preocupado, ele responde: “é a segunda fase de lançamentos! Assim que esta torre for comercializada, serão iniciadas as vendas da outra torre.” Queria estar errada, juro que queria, mas não deu outra: “A nova torre é igual a esta, né? Da mesma altura? Então este lado nunca terá sol, afinal, fica a poucos metros da torre que você está mostrando e provavelmente uma fará sombra na outra, certo?”. “Mas tem espaço suficiente para a claridade entrar”, responde o corretor. Estava difícil manter a calma. “Vamos lá, deixa eu mostrar uma coisa para você…” saco da bolsa uma pequena e antiga trena. Mostro aos dois a altura, o movimento do sol, a distância e descrevo a razão, apresentando a impossibilidade da ocorrência de insolação direta nos janelões dos andares nas fachadas de vários andares das duas torres. 

Tentando salvar a situação, “desembestei” a falar, tal qual a boneca Emília de Monteiro Lobato, sobre a importância do conforto ambiental na saúde dos lugares e, por consequência, das pessoas. “A luz do sol estimula a produção de vitamina D, que é responsável pela absorção do cálcio, fortalecimento dos ossos e melhoria do humor. Tem efeito profilático, ao impedir o desenvolvimento de germes patogênicos, tornando o ambiente limpo e saudável, situação importante para quem tem crianças e pessoas com idade mais avançada em casa”. Falei da “sensação térmica do piso térreo que, com sombra na maior parte do dia, lembraria as geleiras do Alasca ao longo do inverno”. Argumentei que “a ausência de elementos vegetais de grande porte no empreendimento manteriam o pó, resultante da localização junto à avenida que apresenta fluxo intenso de motores à combustão (ônibus, veículos particulares e caminhões), suspenso no ar e que, graças a esta situação, em nada o empreendimento colaboraria na absorção do CO², atual vilão causador da crise climática”. Quando percebi o desalento no olhar do amigo e do corretor, calei-me.

Os cerca de dois ou três segundos de silêncio que se seguiram pareceram uma eternidade. Me senti mal, mas, enfim, ou o protejo com a verdade dos fatos que a astronomia já nos mostra diariamente desde que a Terra existe, ou não cumpriria o meu papel de amiga que o quer bem. Com a voz trêmula e sem o sorriso que há pouco preenchia todo o seu rosto, ouço: “Mas tem o outro lado do prédio, Helena, a outra fachada…” Pedi para sairmos do “Hall da Maquete”. Já na rua, percebi a construção de um prédio logo na divisa ao lado, que se autoproclamava como o mais alto da rua. Perguntei ao corretor como seria a vista da paisagem a partir dos janelões das salas e varandas depois de finalizadas as obras do empreendimento vizinho. Sem graça, utilizou o termo até então impensável para mim: emparedada. Perguntei se o “emparedamento” poderia prejudicar o valor do imóvel no caso de uma futura venda. Naturalmente, os andares mais altos, sem vista emparedada, com a presença de luz solar direta, têm valores mais altos para a comercialização do que os apartamentos localizados em andares mais baixos.  

Repentinamente, meu amigo biólogo encerra a visita agradecendo a disponibilidade e gentileza do corretor. Convidou-me para um café. Perguntei se ele ainda nutria algum sentimento de amizade por mim depois do ocorrido. “Mais do que nunca” afirma ele. “Da próxima vez, farei uma pesquisa um pouco mais aprofundada, nem que seja no Google Earth, para conhecer a localização, as transformações que estão ocorrendo próximas ao local para garantir as condições de habitabilidade e prestarei mais atenção na incidência solar e ventilação para garantir o conforto térmico e ambiental do meu futuro apê para não cair numa cilada. Por via das dúvidas, trarei doces para amansar a urbanista que habita em você.”

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.