Quantas de nossas ruas e avenidas têm nomes que homenageiam mulheres?

Das mais de 48 mil ruas da cidade de São Paulo, nem 20% recebem nomenclaturas femininas; das existentes, destacam-se aquelas que são ligadas ao catolicismo ou com títulos como baronesa, princesa, duquesa, além de professora

  • Por Helena Degreas
  • 20/07/2021 10h00
Helena DegreasNa capital paulista, os nomes que constam nas plaquinhas azuis espalhadas por toda a cidade são de pessoas já falecidas e que supostamente tenham realizado algo em favor da cidade, do país ou do mundo

A promoção da igualdade de gênero e empoderamento de mulheres e meninas em todos os níveis pode começar pela nomenclatura de logradouros e edifícios públicos das cidades. É um ato aparentemente simples, que depende da constituição de políticas urbanas que promovam a igualdade de gênero por meio do reconhecimento de nossas contribuições nas diversas áreas do conhecimento. Estas ações podem reverter a invisibilidade histórica delegada às mulheres ao longo de todo um processo de construção social e cultural. A maioria das cidades brasileiras estão repletas de nomes de homens que contam suas batalhas, conquistas, descobertas e que expõem orgulhosamente na paisagem urbana seus feitos e suas fortunas. Por que não podemos ver os nomes das mulheres que moldaram nossas cidades, nossa história e nossa cultura, também expostos nos espaços públicos?

Na capital paulista, os nomes que constam nas plaquinhas azuis espalhadas por toda a cidade são de pessoas já falecidas e que supostamente tenham realizado algo em favor da cidade, do país ou do mundo. Pessoas comuns, não tem e nem terão seus nomes “eternizados” em logradouros públicos. Apesar de todos os avanços mundo afora, aqui em São Paulo e em várias outras cidades brasileiras cabe ainda a um vereador propor um projeto de lei especificando o nome desejado para o batismo de uma rua ou uma praça, por exemplo. Depois de percorrer caminhos internos inerentes ao Legislativo e ao Executivo, o projeto segue para tramitação e, comumente, por acordo coletivo, é aprovado: a não ser que a homenagem seja realizada para algum criminoso, delinquente ou algo parecido. Ainda não há política de incentivo ao reconhecimento do papel feminino em toda a sua diversidade na construção histórica de nosso país. Das mais de 48 mil ruas da cidade, nem 20% recebem nomes de mulheres. Dos existentes, destacam-se aqueles que são ligados ao catolicismo (santas, madres) e outros que possuem títulos como baronesa, princesa, duquesa, além de professora. Há também aqueles que receberam o nome das mães, esposas, filhas de algum homem importante: o mérito fica à cargo do grau de parentesco que vem, quando da justificativa para a aprovação, às histórias de caridade e bondade que as destacaram.

Quanto à localização, a maior parte dos logradouros que homenageiam mulheres são ruas de caráter local, de pouco movimento e distantes das zonas centrais que, diferentemente de ruas muito movimentadas, vias arteriais e estradas, recebem nomenclaturas de ilustres figuras masculinas. O pouco destaque dado às mulheres em logradouros públicos ocorre em outras cidades do mundo também. A diferença encontra-se na vontade de gestores públicos de mudar a situação e reverter uma injustiça cujo contexto é explicado pela história. Paris, Mumbai, Nova Delhi, São Francisco, Amsterdã e Londres são cidades onde o fenômeno também ocorre, mudando apenas a incidência que pode variar entre 12% e 27% dos logradouros que homenageiam mulheres. De forma prática e, em atendimento ao ODS5 (Objetivos do Desenvolvimento Sustentável), que pretende alcançar a igualdade de gênero e empoderamento de todas as mulheres e meninas até 2030, vários países, Estados e cidades como estas que citei anteriormente vem realizando uma série de ações e programas associados a políticas públicas para colocar em prática a Agenda 2030. A participação feminina em cargos eletivos e de representação política foi fundamental para a que a mudança cultural pudesse acontecer.

Para corrigir esta situação, o Município de Montevidéu por exemplo, instituiu o 3º Plano de Igualdade de Gênero que pretende mudar os padrões de relacionamento e comportamento vigentes entre pessoas e que geram desigualdades e discriminações. Trata-se de uma ferramenta política e técnica que tem por objetivo a promoção da igualdade de gênero e a não discriminação a partir de sexo ou identidade, melhorando as condições de uso, fruição e apropriação, sem exclusões, dos espaços públicos da cidade. A nomenclatura de logradouros públicos é apenas um dos instrumentos de ação para essa transformação cultural que incorpora várias políticas departamentais voltadas para a equidade de gênero direcionadas tanto ao cidadão no âmbito dos transportes, saúde, limpeza, entretenimento público, quanto para aquelas voltadas ao funcionamento da estrutura pública, por meio de políticas de gestão interna e humana tais como contratações, treinamentos, etc.

Na mesma direção, a Câmara Municipal de Bilbao, na Espanha, decidiu colocar em prática ações de reconhecimento de mulheres em toda a sua diversidade por suas ações meritórias em âmbito local, nacional e internacional nomeando, principalmente com nomes femininos, todas as novas ruas, praças, avenidas, espaços verdes ou qualquer outra infraestrutura que se desenvolva na capital da Vizcaya, cumprindo, desta forma, o compromisso assumido entre todas as forças políticas locais. Em meio a todas as transformações urbanísticas que estão ocorrendo em Zorrotzaurre, uma consulta pública foi realizada pela municipalidade para definir juntamente com os moradores locais e entidades sociais representativas os nomes dos futuros espaços públicos. A principal via que atravessa a ilha será denominada Galleteras, em homenagem às trabalhadoras da antiga fábrica Galletas Artiach, uma das indústrias mais movimentadas da antiga península. Mais do que o nome de uma mulher, foram homenageadas aquelas que, com seu trabalho, tiveram papel de destaque na constituição de uma marca de biscoitos (ou bolachas) reconhecida mundialmente.

Passar por ruas, avenidas, pontes, viadutos, praças, parques, museus ou estações de metrô e não encontrar placas que homenageiam mulheres na mesma proporção em que se encontram nomes masculinos é perpetuar a imagem de que trunfos e conquistas resultam predominantemente do universo masculino. Para além dos processos administrativos inerentes à gestão pública, sugiro que as vereadoras eleitas e demais simpatizantes das questões que pretendem corrigir contextos históricos de cunho machista proponham, à exemplo de Bilbao e Montevidéu, uma revisão do “modus operandi” de como se dá a nomeação de logradouros públicos no contexto atual em nossas câmaras legislativas objetivando colaborar, pela inclusão e ampliação de homenagens a mulheres em ruas, praças, estações e prédios públicos, na promoção da igualdade de gênero e, principalmente, visando a mudança de comportamentos sociais. Imaginem como seria benéfico para o empoderamento de mulheres e meninas se, ao longo do caminho da escola e do trabalho, por exemplo, elas pudessem encontrar diariamente homenagens a mulheres que viveram e que, a partir dos seus feitos, mudaram os rumos da história.