Se essa rua deixasse de ser nossa

O desejo de ladrilhar o chão com pedrinhas de brilhante — gesto de afeto e pertencimento — dá lugar ao cálculo que mede cada metro quadrado em cifras e cada corpo que passa em risco

  • Por Helena Degreas
  • 27/09/2025 08h00
  • BlueSky
Renato S. Cerqueira/Ato Press/Estadão Conteúdo Vista da travessa Engenheiro Antônio de Souza Barros Júnior, via sem saída entre a rua Pamplona e a alameda Lorena, na região dos Jardins, zona oeste da capital paulista Vista da travessa Engenheiro Antônio de Souza Barros Júnior, via sem saída entre a rua Pamplona e a alameda Lorena, nos Jardins, em São Paulo

“Se essa rua, se essa rua fosse minha…”, diz a cantiga popular que atravessou gerações ensinando, em tom de brincadeira, que aquilo que pertence a todos deve ser cuidado com delicadeza. Mas e se essa rua deixasse de ser nossa? Se deixasse de ser espaço de encontros e passagens para se transformar em corredor vigiado, cercado por câmeras, portarias e muros invisíveis desenhados por planilhas de rentabilidade? O desejo de ladrilhar o chão com pedrinhas de brilhante — gesto de afeto e pertencimento — dá lugar ao cálculo que mede cada metro quadrado em cifras e cada corpo que passa em risco. 

Como mostrou a jornalista Priscila Mengue em reportagem publicada no Estado de S. Paulo — “São Paulo tem um ‘boom’ de venda de ruas” —, a onda de privatização de vielas na capital não é um episódio isolado, mas parte de uma dinâmica que transforma o que é compartilhado em ativo contábil sob controle empresarial. Nesse deslocamento, não desaparecem apenas traços do mapa: apaga-se o que sustenta a convivência entre diferentes.

A questão vai além da discussão do valor pago aos cofres públicos. É preciso compreender que estamos diante de um dos “cercamentos” contemporâneos: se nos séculos passados cercavam-se campos e bens que sustentavam comunidades, hoje cercam-se vielas e praças. Não com cercas, mas com decretos, projetos de lei e contratos que transferem a gestão da vida pública ao comando do interesse privado. O artigo lembra que “a palavra-chave é reversibilidade”. O que se observa é o oposto: a supressão de um palco da cidadania e a restrição do acesso comum. A rua vendida não volta, é a supressão de um palco da cidadania e um símbolo de fechamento social.

O fenômeno se amplia e assume novas formas. Em 2017, a gestão municipal abriu um chamamento público visando à alienação de “nesgas” e “sobras” de ruas — trechos resultantes de obras e desapropriações. Ainda que um terreno tenha sido transferido, a suposição de que existam “sobras” disponíveis revela um modo de pensar incompatível com as necessidades da metrópole. Em uma região marcada por calçadas estreitas, falta de áreas verdes e ausência de locais de permanência, a noção de “sobra” é inadmissível. Esses fragmentos poderiam ser incorporados em políticas de micro espaços públicos — locais onde se possa sentar, plantar, respirar e encontrar — em vez de tratados como excedentes no balanço patrimonial.

A transferência de áreas compartilhadas redefine o direito à cidade, condição caracterizada pelo acesso irrestrito, gestão partilhada e possibilidade de apropriação. Vielas que abrigavam atividades cotidianas — crianças brincando, vizinhos conversando, comércio informal — cedem espaço a complexos fechados. Ambientes antes permeáveis a diversos usos tornam-se regidos por normas privadas, com agentes de vigilância que delimitam formas de interação possíveis.

As consequências se estendem por dimensões que ultrapassam os negócios. Durante a pandemia, ficou evidente que o acesso a áreas abertas não é luxo, mas condição vital ao bem-estar físico e mental da população. Ao vender microescalas de circulação e respiro, aprofundam-se vulnerabilidades e ampliam-se impactos ambientais: a privatização fragmenta o meio, cria “ilhas” controladas e transfere custos — ondas de calor e inundações — ao entorno.

A narrativa oficial prefere uma linguagem técnica. Fala-se em “aproveitamento do solo estruturado” ou em “nova finalidade” atribuída a logradouros. São expressões que escondem uma escolha política: a de que o meio construído deve ser otimizado visando geração de capital, e não sustentação da vida comum. A reportagem de Priscila Mengue mostra a ponta do processo. O que está submerso é uma mudança de paradigma em que o poder público, enfraquecido em seu papel de planejador, deixa de ser arquiteto do que é partilhado e se torna intermediário na venda do próprio patrimônio.

O desafio não é impedir a transferência da próxima viela em pauta. É ampliar o debate e perguntar: o que estamos decidindo construir para as próximas gerações? Uma rede de muros e direitos limitados ou um meio em que o que pertence a todos permaneça democrático, aberto e vivo?

cta_logo_jp
Siga o canal da Jovem Pan News e receba as principais notícias no seu WhatsApp!

Talvez seja hora de lembrar novamente a cantiga: “Se essa rua, se essa rua fosse minha…”. Ela não falava de propriedade, mas de cuidado; não sobre muros, mas sobre pertencimento. Hoje, ao transformar caminhos compartilhados em corredores controlados, deixamos de ladrilhar o chão com pedrinhas de brilhante e o pavimentamos com dispositivos de vigilância. A via vendida não apaga um traço do mapa — redefine o sentido da convivência. E se essa rua deixar de ser nossa, o mapa inteiro corre o risco de não nos pertencer mais.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.

  • BlueSky

Comentários

Conteúdo para assinantes. Assine JP Premium.