O que me tocou foi ouvir de crianças catadoras de latinhas: ‘Quanto custa a aula de surfe?’

É possível transformar a vida das pessoas por meio do esporte, assim como aconteceu comigo

  • Por Jojó de Olivença
  • 14/09/2020 10h00
Manie Van der Hoven/Pixabay Surfistas carregam prancha em praia

Aloha, meus amigos! Este é um espaço onde compartilharei um pouco das minhas experiências nas ondas e fora dela. E, neste primeiro momento, decidi falar sobre como o surfe transformou a minha vida, desde que decidi me radicar no Guarujá (SP), e a idealização da ONG Projeto Ondas, da qual até hoje sou diretor. O ano era 1989, logo após a conquista do meu primeiro título brasileiro. A convite do meu principal patrocinador à época, que tinha um apartamento vazio em Guarujá, foi proposta a minha mudança para a cidade por estar mais próximo da mídia e de outras empresas com potencial de patrocínio e, posteriormente, para competir no forte e estruturado Circuito Paulista de Surfe Profissional. Foi então que falei com minha mãe e decidi vir para a glamorosa Guarujá, que na época também era onde residia a maioria dos surfistas profissionais e, portanto, ideal para a minha evolução como atleta. Naquela época, os eventos aconteciam com frequência e reuniam até 5.000 pessoas na praia. Era uma vibe muito boa. Enfim, vim para o Guarujá, gostei e acabei ficando até hoje.

Em 1993, consegui a vaga para o circuito mundial após ser vice-campeão brasileiro e campeão paulista e, posteriormente, em 1994, quando competi na divisão de acesso, fui eleito o melhor estreante do ano, recebendo essa mesma honraria quando estava no World Men’s Championship Tour (WCT). Em 1998, decidi dedicar mais tempo à minha família e voltei para o Brasil, quando resolvi montar uma escola de surfe no Guarujá. Em uma oportunidade, estávamos na praia com a garotada quando algumas famílias e crianças, que estavam catando latinhas, nos perguntaram quanto custava a aula de surfe e aquilo me tocou profundamente. Naquele instante decidi iniciar o atendimento de forma gratuita de 20 crianças sugeridas pelo Fundo Social de Solidariedade da cidade. Neste primeiro contato com as crianças, acabei descobrindo outras necessidades que me deixaram sensibilizado, porém não tínhamos recursos financeiros para ampliarmos a nossa estrutura. Tínhamos apenas equipamentos da escolinha, como pranchas, uniformes e acessórios. Foi quando resolvemos desenvolver alguns projetos que pudessem atender necessidades na área da educação e cidadania, indo buscar parceiros para conseguirmos dar continuidade aos trabalhos. Afinal, sempre acreditei que seria possível transformar a vida das pessoas através do surfe, assim como aconteceu comigo.

A crise chegou para nós em 2002, quando tivemos que interromper o trabalho por falta de recursos. Foi um hiato de quatro anos, até que em 2006, retornamos bem mais preparados e com um planejamento fixado na evolução e transformação social que o surfe pode proporcionar. Já em 2007 conseguimos a grande virada de chave, já munidos de mais recursos e informações cruciais sobre o terceiro setor, nos constituímos de fato e de direito como ONG Projeto Ondas, que até hoje se dedica a oferecer o desenvolvimento integral de crianças entre 6 e 12 anos em estado de vulnerabilidade socioeconômica e suas famílias, por meio de programas integrados que unem surfe, educação e cidadania. A possibilidade de promover essa transformação social e contribuir para o futuro dessas crianças é uma grande motivação. Ou seja, uma batalha diária para a manutenção da estrutura de pessoal e da qualidade do trabalho, assim como da consolidação de parcerias e da propagação da cultura da doação e do voluntariado. São desafios que estão o tempo todo à nossa porta e que temos de encarar de frente.