Bolsonaro acentua combate à corrupção para neutralizar candidatura de Lula

Percepção de melhora na economia é outra aposta do presidente para fortalecer a imagem para a duríssima campanha pela reeleição

  • Por Jorge Serrão
  • 21/07/2021 20h52
WALLACE MARTINS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDOPolítico experiente, vereador no Rio e deputado federal por quase três décadas, Bolsonaro tem vivência suficiente para lidar com seus semelhantes

Luiz Inácio Lula da Silva é um candidato fake à Presidência da República em 2022. Embora algumas enquetes eleitorais tentem mostrar o contrário, a candidatura de Lula é inviável, por um simples motivo: continua fortíssimo no eleitorado o sentimento anti-corrupção e anti-PT. Lula só segue no xadrez (eleitoral) pelo golpe que o Poder Supremo deu em três instâncias do Judiciário na Lava Jato, reabilitando os direitos políticos do condenado por corrupção. O petista não consegue se descolar do problema. Já o esperto Jair Bolsonaro calculou que seria maior o custo político do desgaste com seu eleitorado do que tomar uma decisão que desagradasse sua base aliada no Congresso Nacional. Por isso, via Twitter, sentou o dedo: “Defendemos, acima de tudo, a harmonia entre os Poderes, bem como a sua autonomia. É partindo deste princípio que jogamos, desde o início, dentro das quatro linhas da Constituição Federal. Dito isso, em respeito ao povo brasileiro, vetarei o aumento do fundão eleitoral”. Assim, Bolsonaro exercita a arte de governar pelas redes sociais, agradando, acima de tudo e instantaneamente, seus fiéis seguidores. Tem parlamentar muito “pt da vida”. Paciência…

Governar também é a arte de pagar faturas políticas. Por isso, também via Twitter, o presidente Bolsonaro anunciou outra decisão importantíssima: “Encaminhei ao Senado Federal mensagem na qual proponho a recondução ao cargo de Procurador-Geral da República o Sr. Antônio Augusto Aras”. Nenhuma novidade. Foi a compensação natural por não ter sido indicado para o Supremo Tribunal Federal (STF). Bolsonaro tinha um compromisso com André Mendonça, Advogado-Geral da União, escalado para a vaga aberta pela aposentadoria de Marco Aurélio de Mello. Agora, Aras só precisa do voto de pelo menos 41 dos 81 senadores para ser reconduzido ao cargo, em setembro.

Pela segunda vez, Bolsonaro ignorou a famosa lista tríplice indicada pelos procuradores do Ministério Público Federal. No caso do Fundão, Bolsonaro tomou a decisão politicamente mais arriscada, mas que não poderia ser outra, do ponto de vista moral: confirmou que vetará o abominável Fundão Partidário de R$ 5,7 bilhões para 2022. O presidente avaliou que o veto lhe renderia voto, pois agrada à maioria do seu eleitorado consolidado, mesmo que provoque um desgaste com o Centrão (sua pouco fiel base aliada, apenas confiável na prática do toma-lá-dá-cá, via clientelismo, patrimonialismo e corrupção). Político experiente, vereador no Rio de Janeiro e deputado federal por quase três décadas, Jair Bolsonaro tem vivência suficiente para lidar com seus semelhantes. Inclusive, parece estar dando um “troco” antecipado a muitos parlamentares que tendem a “traí-lo”, votando contra a PEC 135 (do voto impresso pela urna eletrônica).

Bolsonaro já tem seus focos definidos de agora em diante. Primeiro, tirar proveito da quase certa retomada da economia, com melhora no nível de emprego e, apesar da inflação, — que facilita a narrativa do mercado financeiro para aumentar a taxa básica de juros, a Selic, agradando aos rentistas e banqueiros de sempre. Segundo, jogar pesado no combate à corrupção — que é o calcanhar de Aquiles de seus principais adversários (e inimigos), sobretudo Luiz Inácio Lula da Silva. O maior “cabo eleitoral” de Bolsonaro será uma Polícia Federal que seguirá agindo com toda liberdade, blindada de interferências políticas, para investigar, colher provas e pedir punição aos corruptos profissionais. Terceiro, atrair o Centrão para mais perto de si, colocando Ciro Nogueira na Casa Civil, para impedir qualquer chance de namoro da volúvel base aliada com Lula — que já foi queridinho dela em passado próximo. Além disso, se blinda ainda mais contra o risco de impeachment. É o preço fisiológico e pragmático a ser pago no presidencialismo de coalizão à brasileira.