Bolsonaro tem de fortalecer sua segurança para não correr risco de novo atentado

Na sexta-feira, 4, durante motociata em São José dos Campos (SP), homem rompe esquema de proteção e consegue se aproximar do presidente da República

  • Por Jorge Serrão
  • 07/03/2022 15h13 - Atualizado em 07/03/2022 16h46
LEANDRO DE SANTANA/AGÊNCIA PIXEL PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO Bolsonaro acena em cima de moto durante passeio no agreste pernambucano Desde o início do mandato, Bolsonaro realizou diversas motociatas para reunir apoiadores

Marginal Pinheiros de “Gotham City” (ops, São Paulo), no final da tarde de domingo (6 de março de 2022). Região perigosa, com altos índices de violência – inclusive no trânsito. Local perfeito para assassinar alguém – fazendo o homicídio planejado parecer um latrocínio (roubo seguido de morte). Nem o Batman escaparia dessa armadilha. Quem não escapou foi o secretário de Segurança do município paranaense de São José dos Pinhais (Grande Curitiba). Ricardo Tadeu Kusch foi atingido com dois tiros (no ombro esquerdo e no antebraço direito), enquanto pilotava sua moto BMW, na qual estava escrito: “In Jesus we trust”. A versão oficial é que ele foi abordado por dois homens, também em uma motocicleta, na altura da Ponte Edson de Godoy Bueno. Não se sabe se Kusch, guarda municipal de carreira, tentou reagir. Baleado, caiu. Os “assaltantes” levaram a pistola glock 380, de uso pessoal da vítima. Na pressa, os bandidos deixaram o carregador sobressalente com 15 munições. Fato concreto é que o secretário chegou a ser socorrido no Hospital do Campo Limpo, mas não resistiu. Ricardo Tadeu Kusch veio a São Paulo renovar seu visto para viajar aos Estados Unidos. Agora, o sofrimento é da família e dos amigos. A polícia vai investigar, mas, como em 92% desses casos, deve chegar a conclusão nenhuma. A prefeita Nina Singer decretou luto municipal em Pinhais. Detalhe político: o motociclista Kusch era admirador de Jair Messias Bolsonaro.

O presidente da República, também um fã e praticante do motociclismo, deveria refletir profundamente sobre o assassinato do Ricardo Kusch. Ainda mais depois do que aconteceu na sexta-feira, 4, durante uma “motociata” (ou motosseata) presidencial na cidade de São José dos Campos – interior de São Paulo. Tudo foi filmado. Bolsonaro pilotava a moto que liderava a manifestação. De repente, um homem em uma moto azul rompe o esquema e consegue se aproximar, perigosamente, de Bolsonaro. Foi contido pela segurança presidencial. Em princípio, especulou-se sobre “quase um atentado”. Mas foi apenas um susto. O rapaz era admirador de Bolsonaro – que ao final do trajeto o cumprimentou. O problema concreto é que ficou evidente a brecha na segurança. E, se não fosse um aliado, mas uma nova versão (armada de revólver) de um Adélio Bispo (o autor da facada em 6 de setembro de 2018)? A mídia tradicional quase não deu destaque ao fato que foi grave. Nas redes sociais, o incidente “bombou”.

Não é a primeira vez (deseja-se que seja a última) que Bolsonaro causa problemas à própria segurança. O presidente não abre mão do contato direto com o povo (o que sempre representa um alto risco). Com certeza, o presidente deixa enfurecido e enlouquecido seu ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general de quatro estrelas na reserva Augusto Heleno Pereira. O próprio Bolsonaro admitiu, em uma daquelas entrevistas no “cercadinho” no portal do Palácio da Alvorada, que já driblou a segurança, pegou a moto e foi dar uma volta na periferia de Brasília, só sendo localizado meia-hora depois. Acontece que, nesse ambiente polarizado, radicalizado e violento de pré-campanha eleitoral, o presidente deveria cuidar melhor da segurança pessoal.

Bolsonaro, certamente, sabe que tem um inimigo de peso – muito mais truculento que seus adversários políticos e, ocultamente, muitas vezes é financiador, patrocinador ou controlador real deles. O narconegócio tem verdadeiro ódio do presidente. Motivos concretos não faltam para isso. Só nos últimos três anos, a Polícia Rodoviária Federal apreendeu mais de 1.800 toneladas de drogas, recuperando R$ 23,1 bilhões em apreensões relacionadas ao crime “organizado”. Nada menos que 130 mil pessoas foram presas e entregues à Polícia Federal ou às polícias estaduais. No domingo, Bolsonaro publicou no Twitter uma prestação de contas para irritar a bandidagem: “Somente nos dois primeiros meses deste ano, foram realizados 19 leilões pelo país com bens apreendidos do crime organizado. A arrecadação ultrapassa R$ 8,5 milhões. Em 2021, o Ministério da Justiça arrecadou R$ 360 milhões com a realização de 244 leilões em todos os estados. Os recursos arrecadados são revertidos na valorização dos servidores de segurança pública, financiam programas de prevenção e combate às drogas em todo o país”.

O provocador Bolsonaro só deveria lembrar que o narconegócio não poupa seus inimigos ou quem lhe causa prejuízo. Mata ou paga para matar (terceiriza o sicário, assassino de aluguel). A máfia age assim. Na região metropolitana de Curitiba, recentemente, ocorreu uma apreensão recorde de drogas. Por isso, que é recomendável uma investigação mais séria sobre o assassinato do secretário de segurança de São José dos Pinhais em uma via expressa de São Paulo. Também por isso, Bolsonaro precisa tomar mais cuidado com a segurança pessoal. Assassinar alguém em cima de uma motocicleta parece fácil para a organizada bandidagem tupiniquim. Taokey?!

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.