CPI no MEC representa risco ou oportunidade para Bolsonaro?  

No longo prazo, uma eventual devassa parlamentar pode abrir uma caixa-preta inimaginável no Ministério da Educação; mas, no curto prazo, quem fica na berlinda é a gestão de quem busca a reeleição

  • Por Jorge Serrão
  • 29/06/2022 15h03 - Atualizado em 29/06/2022 15h04
Pedro França/Agência Senado Luiza Erundina, Sâmia Bomfim, Jean Paul Prates, Randolfe Rodrigues, Ivan Valente; eJorge Kajuru dão entrevista coletiva no Senado Oposição dá entrevsta coletiva para falar sobre a CPI do MEC

Vale a famosa máxima no Brasil dominado pela ditadura da Cleptocracia: Comissão Parlamentar de Inquérito todo mundo sabe como começa, mas não como pode acabar. Essa incerteza fica ainda maior no decorrer dos cem dias da campanha eleitoral que promete ser uma das mais extremadas, radicalizadas e desleais da história desse país. O “coordenador-geral” da campanha de Lula da Silva, senador Randolfe Rodrigues, recolheu assinaturas suficientes para abrir a CPI do MEC. Tem todo apoio do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, para que a explosiva iniciativa seja instalada. Já o presidente Jair Bolsonaro, que padece de uma base pífia de sustentação senatorial, parece politicamente impotente para conter a jogada oportunista e eleitoreira da oposição. Lamentável ironia é que uma CPI do MEC pouco vai tratar de um dos nossos maiores problemas: a falta de educação de qualidade para o povo (cidadão-eleitor-contribuinte).

Diante dessa tragédia “civilizatória”, vale fazer duas especulações. A primeira é se uma CPI do MEC representa uma ameaça concreta e imediata à reeleição do presidente Jair Bolsonaro. A segunda é se o espetaculoso evento político é uma oportunidade para Bolsonaro comprovar que qualquer irregularidade eventualmente constatada no governo federal é resultante do aparelhamento criminoso do Ministério da Educação nas gestões do PT & comparsas (ops, aliados). Uma indagação fatal é: quem tem mais a perder se acontecer, de verdade, uma devassa no MEC — Bolsonaro ou seus opositores? A pasta é uma caixa-preta que, se aberta, tem capacidade de espalhar prejuízos para todos os lados. No longo prazo para quem criou os esquemas em um ministério que movimenta R$ 240 bilhões. No curto prazo, para quem responde pela presente governança há quase quatro anos.

Aparentemente, o maior prejudicado, no curto prazo, é Bolsonaro. O presidente não tem como impedir a instalação da CPI?! Então, só lhe resta uma saída tática: encontrar um fato novo, concreto e objetivo que não só neutralize, mas que cause estrago direto na oposição. O time de Lula aposta que conseguirá desviar a atenção da opinião pública e “roubar” a energia de Bolsonaro com a CPI. A mídia anti-bolsonarista ajuda naturalmente. Bolsonaro deveria tomar todo cuidado para não incorrer no erro cometido pelo “amigo” Donald Trump. O republicano perdeu tempo na guerra de narrativas com os democratas e descuidou da campanha eleitoral. O resultado fatal é conhecido de todos. Bolsonaro corre esse mesmo risco, diante de uma oposição cuja imagem é associada à corrupção, mas que insiste na “cara-de-pau” de tentar promover uma “equivalência moral” com o “inimigo”.

Fato real e verdadeiro que será pouco considerado na pancadaria eleitoreira — que tende a ser intensificada pela CPI do MEC e tantas outras “denúncias” que a oposição vai engendrar (como a acusação de assédio sexual ao presidente da Caixa, Pedro Guimarães, pessoa super-próxima de Bolsonaro): o Brasil é disfuncional, ingovernável, sob um sistema supostamente presidencialista, mas que, na realidade, é refém de um esquema congressualista (o parlamentarismo envergonhado imposto por uma Constituição confusa, que já foi emendada 122 vezes, abrindo caminho para a hegemonia da juristocracia sobre os poderes Executivo e Legislativo). Nesse cenário, qualquer titular da Presidência da República Federativa (mal implantada) é um passageiro da agonia que senta na cadeira-elétrica do Palácio do Planalto pela obrigação do voto sem direito à contagem pública.

Resumindo: Os factoides eleitoreiros — como essa CPI do MEC — desviam a atenção das pessoas para os verdadeiros e mais perigosos inimigos da nação: o regime do Crime Institucionalizado — um Mecanismo definido como a associação delitiva entre bandidos de toda espécie e membros da máquina estatal, nos vários poderes da União, estados e municípios. Estamos em uma guerra que nos obriga a identificar o inimigo correto e combatê-lo com eficácia, eficiência e efetividade, dentro da lei e pela ordem! O Brasil precisa de um choque de legalidade, legitimidade e liberdade para ser, de fato e de direito, uma República Federativa. Temos de nos transformar em uma nação capitalista, e não capimunista, sem cartório, sem cartel e sem corrupção. A missão é (quase) impossível, mas a gente tem de tentar.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.