Por que Jorge Paulo Lemann acredita na lenda da terceira via eleitoral?

Embora a maioria das pesquisas ainda aponte o contrário, Bolsonaro é o candidato a ser batido – e não Lula; candidatura alternativa a ambos ainda não apareceu, mas tem aposta bilionária de que surgirá

  • Por Jorge Serrão
  • 11/04/2022 14h30
Lucy Nicholson/Reuters Jorge Paulo Lemann, de 81 anos, é membro do conselho desde a fundação da Kraft Heinz, em 2015 Jorge Paulo Lemann é a pessoa mais rica do Brasil, segundo a revista Forbes

A “terceira via” na eleição presidencial de 2022 no Brasil é igual a pêlo em ovo, cabeça de bacalhau e petralha honesto. Não existe… ou é praticamente improvável de se tornar realidade. Mesmo assim, alguns que sobrevivem politicamente na tentativa de detonação e desmoralização de Jair Messias Bolsonaro insistem na narrativa (ou no equívoco) de que vai surgir uma candidatura alternativa com potencial de chegar ao Palácio do Planalto. Um dos persistentes é o ex-presidente Michel Temer – que, no frigir das urnas eletrônicas, pode ser obrigado a apoiar Bolsonaro porque, depois da traição à Dilma, fica complicado compor com o PT de Lula. O ex-juiz Sergio Moro também acredita no milagre – ainda mais se ele conseguir ser o nome escolhido para a disputa, mesmo que seu partido, o União Brasil, insista em descartá-lo como alternativa. Até o apresentador global Luciano Huck – que não teve coragem ou condição de sair candidato – dá pitaco de que seu predileto é Eduardo Leite – o que é complicadíssimo, nada provável, pois o ex-governador gaúcho teria de emplacar um golpe em João Doria Jr (vencedor das prévias do PSDB para pré-candidato).

As pesquisas de intenção de voto apontam, desde que iniciadas, que Luiz Inácio Lula da Silva será Presidente da República pela terceira vez. Se depender dessas enquetes – a maioria patrocinada pelos banqueiros que fazem oposição sistemática a Bolsonaro -, já podem ser entregues a Lula as chaves do Palácio do Planalto e da residência oficial do Palácio da Alvorada. Todo mundo com um mínimo de bom senso sabe que é muito prematuro acreditar em tais previsões – que servem mais para produzir tendências na cabeça do eleitorado desinformado do que para definir estratégias reais para a complexa campanha. Tanto que algumas pesquisas já começam a indicar uma “aproximação” de Bolsonaro, ameaçando o favoritismo de Lula. Oh, que fascinante! Nem precisa ser profeta para ter certeza de que, até a hora da dedada derradeira, em 2 de outubro, tem muita coisa surpreendente para acontecer na sucessão que promete ser radicalizada, polarizada e, infelizmente, desleal, violenta e com muito pouca ética.

Fato concreto: o único candidato realmente viável chama-se Jair Messias Bolsonaro. O presidente disputa a reeleição com um domínio da máquina que nunca se viu antes. O ineditismo é porque o processo não é controlado pela corrupção sistêmica comandada a partir do Palácio do Planalto. Bolsonaro fechou um acordo pragmático com o chamado Centrão do Congresso Nacional. Na prática, por ironia, Bolsonaro “roubou” de Lula os líderes do Centrão que o chefão petista tinha a convicção de que iria cooptar para o lado petralha da força. Deu tudo errado para Lula. Ele se isolou na própria bolha da seita esquerdista. Foi obrigado até a fechar uma aliança esdrúxula com o ex-inimigo tucano Geraldo Alckmin. O negócio é tão ruim que se mostra autodestrutivo para ambas as partes. É uma imagem digna do inferno dantesco essa aliança da diabólica turma petralha com os crentes da Opus Dei. A imprensa deu amplo destaque para o “KKK” sarcástico de Bolsonaro diante da chapa Lula-Alckmin.

O aspecto religioso gera ainda mais polêmica na sucessão. Enquanto o católico Bolsonaro amplia sua base com os evangélicos, o chefão da seita petista arranja mais problemas simbólicos. Lula cometeu um “sincericídio” ao defender o aborto (como é que os eleitores ultracatólicos do “companheiro” Alckmin vão lidar com essa opção contra a vida?). Lula também fica chamuscado perante o religioso eleitorado nordestino no momento em que alguns pervertidos mentais esquerdistas, em plena Semana Santa, produzem afirmações falsas, sem prova histórica, de que “Jesus foi flagelado sexualmente durante a Paixão de Cristo”. A Folha de S.Paulo aceitou publicar um artigo com esse viés absurdo, totalmente desrespeitoso aos valores essenciais dos católicos. Tamanha canalhice, no pior estilo releitura da Teologia da Libertação, prejudica Lula – contra o qual se pode reunir, facilmente, 13 motivos para não votar de jeito nenhum: 1) Foi “descondenado” sem ser inocente; 2) É amoral e imoral; 3) Age como “Comunista Caviar”; 4) Apoia ditadores; 5) Faz discurso pró-bandido; 6) Persegue oposição; 7) Odeia classe média; 8) É antimilitar; 9) Promete acabar com a escola civil-militar; 10) É abortista; 11) Age como mitomaníaco; 12) Exagera na demagogia; 13) É o inegável chefão da seita petralha. Lula deveria saber que o eleitorado está cansado de discurso vazio da esquerda sem proposta e, geralmente, mal intencionada.

Para encerrar, um ponto fora da tortuosa curva dessa prematura sucessão presidencial. Diretamente de Boston (EUA), durante um debate na “Brazil Conference”, indagado sobre o que gostaria de ver realizado daqui a um ano, o bilionário brasileiro Jorge Paulo Lemann fez um vaticínio: “Temos uma eleição em andamento no Brasil e teremos um novo presidente. Meu objetivo básico no Brasil é tentar melhorar a educação. Estamos preparando um novo kit de como melhorar a educação no Brasil, que é o que acho que o Brasil mais precisa. A principal coisa que estou tentando é melhorar a educação em termos de tornar as pessoas capazes de participar da economia das startups ou mesmo ser competitivos no mundo”. O homem mais rico do Brasil (segundo a Forbes), com uma fortuna estimada em US$ 16,1 bilhões, certamente não aceitaria ser ministro da Educação (ainda mais do Bolsonaro, que ele sugeriu que não deve continuar a partir de 2023). Por que o megaempresário educacional aposta na lenda da “terceira via” eleitoral? O motivo é ideológico ou empresarial? Será que Lemann não poderia dar uma contribuição efetiva para resolver os problemas estruturais do Ministério da Educação? O MEC lhe rende lucro ou causa prejuízo? O certo é que o MEC não pode continuar sendo alvo de lobistas e quadrilhas estruturadas que só querem sugar os recursos que deveriam servir ao fim nobre e essencial de fornecer ensino de qualidade aos brasileiros. Em vez de praguejar contra Bolsonaro, seria mais lucrativo melhorar a Educação. Ou não?

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.