Maior crime de Daniel Silveira foi não ocupar um lugar na mesa dos poderosos

Se fosse a prisão de um integrante do Centrão, a situação seria diferente, a gritaria estaria ensurdecedora e certamente a votação estaria certa para a liberação, como aconteceu com Wilson Santiago

  • Por José Maria Trindade
  • 19/02/2021 10h38
Câmara dos DeputadosDeputado Daniel Silveira atacou ministros do STF em vídeo

O Congresso é formado por grupos, mas todos eles, num certo momento, se comunicam. Sempre existiram os solistas, que correm ao lado dos lobos, as raposas políticas, sem ameaçar a manada. “Caititu que anda sozinho, vira comida de bicho”, diz aqui uma regra não escrita. Significa que fora da manada, o político fica fragilizado e pode ser facilmente abatido na selva do poder político. O espaço aqui é disputado metro a metro e não existe animal mais territorialista do que o deputado. Ele é capaz de ir às vias de fato por um município ou apoio de prefeito. E foi neste mundo dos grupos que o novato Daniel Silveira não entrou. Vai pagar caro. A prisão foi apenas o início de uma roteiro traçado. O deputado Daniel Silveira, do PSL do Rio de Janeiro deve ser processado rapidamente pelo Conselho de Ética e a decisão provavelmente será a de extinguir o mandato popular. A ironia é que ele faz parte do Conselho de Ética da Câmara dos Deputados. O crime maior dele foi o de não ocupar um lugar na mesa dos poderosos.

Se fosse a prisão de um integrante do Centrão, a situação seria diferente. A gritaria estaria ensurdecedora e certamente a votação estaria certa para a liberação, como aconteceu no ano passado. O ex-líder do PMDB, hoje MDB, deputado Wilson Santiago, foi preso sob acusação de corrupção e lavagem de dinheiro. O “iniciado” saiu da cadeia porque os deputados assim decidiram. O estranho é que nem processo no Conselho de Ética foi aberto. Ele, Wilson Santiago, não é caititu que anda sozinho. Ele está na manada, por isso está protegido. Esta é a verdadeira imunidade de rebanho. Mesmo com esta dificuldade para o  deputado Daniel Silveira, o rebanho não gostou da prisão decretada pelo Supremo. Rosnou, protestou, conversou e para o presidente da Câmara, deputado Arthur Lira, um caititu protegido pelo rebanho que é réu em dois processos no Supremo diz que é “um ponto fora da curva”. E é mesmo, quem não aceita entrar nesta curva, amarga a chamada planície política. Dizem que até mato nasce na porta do gabinete de quem está nesta situação, ou seja, não recebe visitas.