Trindade: Bolsonaro cumpre quarentena a contragosto e mantém ritmo de trabalho

Assessores levaram ao presidente a avaliação de que não obedecer aos protocolos médicos seria cometer crime

  • Por José Maria Trindade*
  • 09/07/2020 12h24
José Maria Trindade/Jovem PanBolsonaro terá de cumprir quarentena no Palácio

Foi difícil convencer o presidente Jair Bolsonaro de que era mesmo necessário ficar em quarentena durante 14 longos dias. Inconformado, o presidente anda de um lado para outro no palácio, lembrando um leão numa jaula. Poucos assessores têm acesso ao presidente e os ministros são mantidos à distância física, mas próximos nas conversas por aplicativo. O presidente usa obsessivamente o WhatsApp e não tira o telefone das mãos. Os ministros e secretários são acionados a todo momento.  Pelo menos cinco grupos fazem parte do círculo íntimo do presidente. Um ministro me mostrou o volume de mensagens diárias e ele mesmo sabe que existem grupos mais próximos, nos quais a troca de comunicados é mais constante. A preferência é por áudios.

Bolsonaro era uma espécie de órfão da quarentena. Mantendo rotina normal de trabalho, não se isolava e nem usava máscara. Houve resistência para o presidente a usar o equipamento de proteção em público. No gabinete, recebia a todos com um largo sorriso sem máscara e de mão estendida. Ironizava os cuidados e não se livrou dos compromissos presenciais quando toda a Esplanada dos Ministérios já estava no ritmo das reuniões e sessões remotas. O presidente foi à Justiça contra a decisão que o obrigava a usar máscara.

Veja a decisão do juiz da Renato Borelli, na Justiça Federal: “Defiro o pedido de tutela de urgência, para impor ao réu Jair Messias Bolsonaro a obrigatoriedade de utilizar máscara facial de proteção, em todos os espaços públicos, vias públicas, equipamentos de transporte público coletivo e estabelecimentos comerciais, industriais e de serviços do Distrito Federal, sob pena de cominação de multa diária, que desde já fixo em R$ 2.000,00.”

A Advocacia Geral da União recorreu e ganhou, mas não levou. O entendimento da nova conclusão foi de que o processo nem teria que ser iniciado. Sentença suspensa, mas ficou a obrigatoriedade. Algo assim como ir à Justiça para obrigar o presidente a ser habilitado para dirigir automóvel ou moto. Nem é preciso, ele, mesmo sendo presidente, está obrigado às exigências legais. Aqui no Distrito Federal, por força de decreto do governador, todos (inclusive o presidente) são obrigados a usarem máscaras em locais públicos. O presidente resistia. Mesmo durante cerimônias no Palácio, integrantes do governo não usaram máscaras e as aglomerações desobedeceram regras do Distrito Federal que proíbe aglomerações. Posses, como a do ministro das Comunicações, Fábio Faria, encheram o Salão Nobre do Palácio.

Assessores levaram ao presidente a avaliação de que não obedecer aos protocolos médicos seria cometer crime. Uma lei nova, assinada pelo próprio presidente Jair Bolsonaro depois da aprovação do Congresso, obriga o infectado pelo novo coronavírus a ficar isolado. Foi uma criação do ex-ministro Sergio Moro com o ex-ministro Henrique Mandetta e participação do ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva. Durante a repatriação dos brasileiros da China houve a necessidade de uma lei para obrigar os 53 passageiros e tripulantes do voo a ficarem isolados na Base Aérea de Anápolis.  A lei é dura e pode ser usada contra qualquer integrante do alto escalão. Mais de 40 autoridades entre ministros, deputados e senadores já foram diagnosticados com a Covid 19.

O presidente não recuou e continua com a certeza de que a quarentena é desnecessária. Por ele, seria vida normal. A certeza é de que mais cedo ou mais tarde todos terão que enfrentar o vírus, “então que seja como homem”, diz o presidente para deixar claro que não se sente amedrontado com os sintomas.  O Palácio da Alvorada é a residência oficial. Muito espaçoso e com uma biblioteca grande, salas de reuniões, salões de festa, uma capela (de onde a primeira dama Michelle Bolsonaro mandou tirar os santos), a parte de churrasqueira e piscina, e finalmente a parte íntima, onde assessores e seguranças não tem acesso. O presidente está despachando normalmente, comunicando-se com ministros e secretários por aplicativo e realizando reuniões por videoconferência. Aderiu de forma tardia o que já é uma realidade para os outros poderes. O uso da hidroxicloroquina e cloroquina está sendo monitorado e duas vezes ao dia exames são realizados,  inclusive eletrocardiograma.  O Palácio do Planalto inteiro passa por um processo de desinfecção. O gabinete presidencial e as áreas frequentadas pelo presidente recebem atenção especial.  Agora é que começou a quarentena do presidente Jair Bolsonaro. O desafio é fazer com que ele fique os 14 dias isolado.

*José Maria Trindade é repórter e comentarista de política da Jovem Pan