A coragem de expor o que muitos preferem calar
Rony Gabriel e os riscos de confrontar interesses no jogo político
Na última semana, manchetes chamaram atenção para uma denúncia feita por Rony Gabriel, vereador do PL de Erechim (RS), sobre a suposta compra de influenciadores para atacar o Banco Central do Brasil. Independentemente do desfecho do caso, o episódio revela algo maior do que um embate pontual. Expõe como narrativas podem ser fabricadas para direcionar emoções, reduzir o pensamento crítico e moldar comportamento coletivo.
Independente dos personagens em questão, quero falar com você que me lê sobre a atitude e o mecanismo. Narrativas não se espalham apenas porque alguém fala alto, mas porque encontram um cérebro treinado para economizar esforço. Questionar a própria bolha dói mais do que aceitar uma mentira confortável. O cérebro busca atalhos, e aceitar a opinião que já circula no grupo é mais rápido, menos cansativo e emocionalmente mais seguro. Não se trata de ingenuidade, mas de eficiência cognitiva aplicada à vida em grupo.
Quando um influenciador manifesta indignação, o público não recebe aquilo como análise técnica. Recebe como sinal social. É como se pensasse: “se alguém em quem confio está indignado, talvez eu devesse estar também”. Esse atalho emocional diminui a checagem racional, acelera a adesão e transforma opinião em pertencimento. Pensar dá trabalho. Repetir cria conforto. Com o tempo, ideias repetidas ganham familiaridade e passam a ser confundidas com verdade.
É justamente nesse cenário que denunciar ganha valor. Falar quando há medo, risco de exposição, distorção de imagem ou represália não é simples, a honestidade é uma virtude. Denunciar envolve perdas concretas. Ruptura de alianças, isolamento político, retaliações silenciosas e até o enfraquecimento de apoio financeiro e institucional para campanhas futuras. Toda denúncia cobra um preço. Do ponto de vista psicológico, exige tolerância ao desconforto e disposição para perder proteção. Por isso, o silêncio é tão frequente na política. Não por falta de informação, mas pelo alto custo em se envolver.
Ainda assim, denúncias produzem um efeito que vai além do fato em si. Elas restauram algo raro no debate público: a sensação de que ainda existe possibilidade de correção e compromisso com um amanhã possível. Um amanhã em que mudança e progresso caminhem com ordem, e em que a ordem venha da justiça institucional, não da lógica de grupos que acusam, julgam e condenam conforme narrativas convenientes. Quando o poder passa a parecer concentrado demais, quando cresce a percepção de que decisões não encontram contraponto, a denúncia funciona como sinal de
que o país ainda não desistiu de si mesmo. Ela não resolve tudo, mas devolve algo essencial, a ideia de que ninguém deveria ser dono do debate, da verdade ou do futuro.
Manter uma conduta ética na política é difícil porque o sistema tende a recompensar quem se adapta, não quem confronta. O problema da política não é quem fala melhor. É quem sustenta caráter quando isso custa caro. Quando a narrativa vira mercadoria, a verdade vira detalhe. E, aos poucos, a sociedade aprende que tudo tem preço, inclusive a confiança pública.
A política contemporânea ganha força menos pelo que entrega ao interesse público e mais pela imagem que constrói. Controlar a narrativa virou capital. O alívio imediato rende votos. A autonomia cobra tempo. Governar pelo conforto é diferente de governar pelo progresso.
Nesse cenário, a figura do político que se apresenta como quem “sustenta” também rende votos. Não porque promove autonomia, mas porque mantém a sensação de amparo constante. Funciona como o pai que nunca ensina o filho a andar sozinho, mas cobra reconhecimento eterno por segurá-lo no colo. A sensação de cuidado existe, o crescimento não.
Não por acaso, esse funcionamento lembra a série House of Cards, onde o poder não se sustenta por mérito, mas por manipulação, favores e controle da percepção. Para chegar ao topo, o personagem de Kevin Spacey deve favores, acumula graves erros e passa a ficar refém de sua trajetória. Na política, dever favores é perder liberdade. Cada concessão errada vira uma prisão mesmo que sem grades.
A diferença é que, na ficção, sabemos que aquilo é roteiro. Na vida real, a confiança social se fragiliza, o debate público se empobrece e o comportamento coletivo se torna cada vez mais reativo. Reage-se mais, pensa-se menos, compartilha-se rápido demais.
Talvez a pergunta final seja a mais incômoda. Quando chega a hora de votar, escolhemos o quê? A narrativa bem contada, a opinião aceita sem questionamento, repetida até virar verdade? Ou a postura de quem aceita o custo de dizer não, revisar benefícios, propor transições e sustentar limites, mesmo quando isso não rende aplauso?
No fim, votamos pela facilidade mental. O conforto imediato acalma, mas não constrói país.
Não falta discurso na política.
Falta gente disposta a pagar o preço de não se vender.
*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.
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