O amor que deixamos para depois

O medo de ser visto ainda é o maior inimigo da intimidade

  • Por Larissa Fonseca
  • 20/10/2025 12h55
  • BlueSky
Freepik amor A gente só entende o valor da presença quando ela já virou ausência

Na última semana perdemos Diane Keaton. Mas o que ecoou não foi o silêncio de sua ausência, e sim a voz de quem a amou tarde demais. Al Pacino confessou que não tê-la levado ao altar foi a coisa mais estúpida que fez. Disse que ela passou a vida esperando que ele crescesse, enquanto ele se escondia atrás dos roteiros, com medo de que o brilho dela revelasse suas fraquezas. Essa confissão é mais do que um lamento. É o retrato de uma geração que adia o amor como quem posterga a própria vida. Vivemos como se o tempo tivesse replay e as pessoas, botão de pausa. A gente só entende o valor da presença quando ela já virou ausência. O amor é o único palco onde se pode ser visto sem máscara, e é justamente isso que mais apavora. É mais fácil atuar no papel de quem ama do que sustentar o olhar de quem nos enxerga por inteiro.

A entrega é incompatível com a expectativa de um espetáculo. Queremos ser amados, mas tememos o olhar que atravessa a máscara que usamos para parecer fortes. A estabilidade, que deveria ser sinônimo de paz, passou a significar tédio. Queremos o amor calmo, mas sentimos falta do caos. Quando o outro é previsível, chamamos de rotina; quando é imprevisível, chamamos de mistérios da paixão. O amor maduro não rouba suspiros, ele ensina a respirar. Mas vivemos tempos em que o amor só parece verdadeiro quando dói.

É a previsibilidade que acalma o cérebro, reduz o cortisol e ativa a oxitocina, o hormônio da confiança. Por isso, quem busca constantemente o novo vive mais dopado de adrenalina do que de afeto. O amor virou um jogo de pôquer emocional: vence quem blefa melhor, não quem sente mais. O apego é a forma como aprendemos a amar, depender e confiar. Um estudo da Universidade de Columbia aponta que menos de 60% dos adultos apresentam apego seguro, aquele em que o amor é vivido com confiança, presença e liberdade, sem a necessidade de provar o afeto o tempo todo. Os demais amam como quem se protege de um incêndio, sempre prontos para correr.

Mas ninguém nasce sabendo amar mal; a gente aprende com cada rejeição, traição ou descuido que reconfigura o afeto e altera o tipo de apego. O resultado é um amor vigilante, calculado, com medo de dar certo.
O apego ansioso teme o abandono e tenta segurar o outro até sufocar. O evitativo teme o controle e foge antes que o outro se aproxime. O ambivalente pede para o outro ficar, mas já ensaia o adeus. No fundo, todos compartilham o mesmo medo: o de não
serem amados se forem vistos de verdade.

Depois de experiências ruins, o cérebro associa amor à ameaça. O que antes liberava dopamina, agora libera cortisol. O romantismo vira vigilância e a entrega, cálculo. Quem já foi ferido ama com o freio de mão puxado e chama isso de maturidade.

E é aí que mora o arrependimento: o ansioso se culpa por ter sentido demais, o evitativo por ter sentido pouco. No fim, um sofre pelo que fez, o outro pelo que não conseguiu sentir. Talvez seja por isso que amores intensos terminem em frases como a de Al Pacino. O medo de se entregar faz parecer mais seguro adiar o amor, até que o tempo decida por nós. E quando o tempo decide, o amor já virou memória.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.

  • BlueSky

Comentários

Conteúdo para assinantes. Assine JP Premium.