‘Gambito da Rainha’ celebra a beleza da meritocracia

Autores provavelmente queriam exaltar o feminismo, muito comum nas séries do Netflix, mas, sem querer, venderam a ideia de que é possível prosperar com seu próprio talento

  • Por Leandro Narloch
  • 14/12/2020 15h51
Reprodução/Instagram/netflixbrasilA atriz Anya Taylor-Joy interpreta a prodígio do xadrez Beth Harmon em "O Gambito da Rainha"

Beth Harmon é órfã, pobre, tímida, esquisita e não exatamente bonita. Mas rompe a barreira de um ambiente masculino e se torna uma das melhores enxadristas do mundo. “O Gambito da Rainha”, a minissérie original mais vista na história do Netflix, só faz sentido num mundo regido pelo mérito. A história celebra a beleza de uma sociedade que premia os mais capazes, não quem tem determinado sobrenome, gênero ou aparência.  Tenho a impressão de que os autores da série tinham um objetivo um tanto feminista, de exaltar as capacidades das mulheres. Sem querer, foram além disso: exaltaram as possibilidades da meritocracia. 

No começo, os homens da história estranham a petulância de uma mulher decidida a ingressar nos campeonatos de xadrez. Mas logo em seguida se entusiasmam com as vitórias dela. Torcem mais por ela que por outros homens. Beth Harmon recebe ajuda mais deles que das mulheres. Aprendeu xadrez com um funcionário do orfanato, que pagou a inscrição de seus primeiros torneios. Seus amigos lhe deram dicas de torneios e de estratégias. Até mesmo o dono da farmácia a ajudou, fazendo vista grossa quando ela furtava revistas de xadrez (desculpe o spoiler; a essa altura você já deve ter assistido).

Isso soa natural e verossímil porque é assim na vida real. “O Gambito da Rainha” contraria um equívoco de boa parte das feministas: o de que os homens lutam unidos pelo privilégio dos homens, do “patriarcado”, em detrimento do “time das mulheres”. Ora, homens têm filhas, esposas, irmãs, sobrinhas e, geralmente, querem o bem delas. Ao ver a filha vencendo no xadrez, um pai comum fica orgulhoso e tenta incentivá-la a prosseguir. Só quem está inebriado pela ideologia pode imaginar um pai se incomodando com o sucesso da filha ou das mulheres que ele ama. 

Já a mãe adotiva, uma mulher alcoólatra e viciada em remédios, só se interessa pelo assunto quando percebe que o xadrez pode dar dinheiro. Sua ganância se alinha à ambição da filha. Beth consegue subir na vida porque ingressou num ambiente de competição, em torneios em que os melhores (e os mais ambiciosos) ganham mais. Sem precisar de cotas, campanhas de incentivo ou ajudas do governo. É verdade que o narcisismo da protagonista às vezes cansa, assim como as provas repetidas de que ela pode viver numa boa sem depender dos homens (mensagem bem comum nas séries do Netflix). Apesar dessas chatices, as pessoas se encantam com a história de vitórias de alguém que veio de baixo. As pessoas se encantam com a beleza da meritocracia.