O fim da hipocrisia útil

Mark Carney admitiu o que ninguém tinha coragem de dizer: a ordem global era um teatro. O problema é que sentiremos falta dela.

  • Por João Almeida*
  • 27/01/2026 12h45
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Photo by Fabrice COFFRINI / AFP SWITZERLAND-DIPLOMACY-ECONOMY-SUMMIT-DAVOS A press photographer works next to the logo of the World Economic Forum (WEF) at the opening of their annual meeting in Davos on January 15, 2024. (Photo by Fabrice COFFRINI / AFP)

Nesta semana, no tradicional encontro do Fórum Econômico Mundial em Davos, o primeiro-ministro canadense Mark Carney fez um discurso sem precedentes. Pela primeira vez na história, um líder ocidental admitiu abertamente que a ordem mundial baseada em regras é “parcialmente falsa”, e que “não se pode viver na mentira do benefício mútuo”. Esse discurso, relativamente comum entre líderes latino-americanos e do Sul Global, infere que o Sistema Internacional foi desenhado com assimetrias deliberadas para beneficiar o Hegemon americano.

Essa confissão valida a clássica Teoria da Estabilidade Hegemônica, criada ainda no século XIX para explicar a pax britannica, precedente à pax americana. Os EUA criaram regras para reduzir seus custos de transação, oferecendo segurança e comércio em troca de subordinação. Todos sabiam que o jogo era viciado, mas participavam dos ritos diplomáticos porque os benefícios da estabilidade superavam os custos. Porém, a partir do momento em que o “segredo”, mesmo que apenas parcialmente velado, se torna conhecimento aberto, a estrutura do sistema passa a falhar automaticamente.

Na Teoria dos Jogos, isso se chama “conhecimento comum”. O equilíbrio de um sistema só é alterado quando a farsa é enunciada publicamente, e portanto todos sabem que todos sabem. A ordem internacional, afinal, não existe fisicamente; ela é um construto de crenças e ritos. Imagine uma mesa de negociação: se vinte líderes agem como se aquele fosse um foro legítimo de decisão, ele se torna legítimo. A autoridade da instituição reside inteiramente nessa performance coletiva. Contudo, quando um ator central “quebra o personagem” e aponta a falsidade do cenário, a coordenação colapsa instantaneamente.

Desde o início do seu governo, Donald Trump propositalmente visa descredibilizar e desmoralizar o sistema internacional. Ao utilizar o seu domínio econômico e financeiro sobre os demais países para impor sua vontade, o presidente americano rompe com a ideia de Paz Comercial, obrigando os seus aliados a encararem a realidade nua e crua. Trump aposta todas as fichas no hard power, na força bruta, mas ignora aquilo que seus antecessores já sabiam: a hegemonia americana foi tão duradoura justamente porque se alicerçava no soft power.

A vitória do Ocidente na Guerra Fria foi, mais do que um feito militar, o triunfo de um sistema capaz de vender a ideia de prosperidade compartilhada. Ao abandonar essa ferramenta, entramos inevitavelmente no que Carney chamou de “mundo de fortalezas”. A busca por autonomia substituirá a eficiência do comércio global, pois nenhum país racional aceitará depender de cadeias de suprimentos que podem ser usadas, a qualquer momento, como armas contra sua própria soberania.

Para as potências médias, essa nova realidade impõe um desafio existencial. Negociar bilateralmente com um hegemon que abdicou das regras é negociar a partir da fraqueza. A única saída lógica, como sugeriu o próprio premiê do Canadá, é a formação de coalizões pragmáticas entre esses países para garantir a sobrevivência entre gigantes que não mais fingem respeitar o direito internacional.

Devemos ser honestos e admitir que a Ordem Liberal era hipócrita e favorecia o Hegemon. Porém, ao mesmo tempo, ela oferecia regras previsíveis que permitiram o maior salto de prosperidade da história humana; inclusive nos países periféricos, embora com menor intensidade do que nos países centrais. A alternativa que se desenha agora é um mundo sem ritos e regido apenas pela lei do mais forte. Esse novo cenário será mais transparente, sem dúvida, mas também muito mais pobre, instável e violento. É provável que em breve a humanidade sinta falta da velha mentira que mantinha o mundo em paz.

*João Almeida é graduando em Administração Pública pela FGV/EAESP e pesquisador em economia política. Líder Livres, é também presidente do Conselho Municipal da Juventude de São Paulo e conselheiro no Fórum de Jovens Empreendedores da Associação Comercial de São Paulo.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.

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